Tecnologia redesenha a sala de aula

Entre desafios e avanços, escolas brasileiras reinventam o ensino com tecnologia sem abrir mão do papel do professor.
por
Carolina Hernandez
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23/11/2025 - 12h

Por Carolina Hernandez

 

No corredor silencioso de uma escola em São Paulo, ainda ecoam lembranças de um tempo em que o giz era soberano. Antes de 2020, a tecnologia entrava na sala de aula apenas de mansinho, um laboratório de informática esquecido no fim do pátio, algumas plataformas de apoio pedagógico que poucos exploravam, um projetor que funcionava quando queria. Era uma educação ancorada no papel, no toque, na presença. Até que o mundo parou, e a escola precisou se reinventar em velocidade de queda livre.

Quando as portas fecharam, a sala de aula se espraiou pelas cozinhas, quartos, varandas e mesas improvisadas pelo país. Professores descobriram o peso de falar para uma tela vazia, estudantes sentiram o cansaço de aprender sozinhos e pais se viram mediadores do impossível. A educação brasileira, de uma hora para outra, atravessou um portal digital para o qual ninguém estava realmente preparado.

Em meio ao caos, brotaram gestos de tentativa e erro. Professores aprendiam a usar plataformas enquanto davam aula, vasculhando botões, tentando compartilhar telas, improvisando explicações quando a conexão falhava. Entre eles, Ana Paula, do Colégio Santo Agostinho, relembra aqueles dias corridos como quem remexe um caderno antigo. Conta que o período parecia um mergulho no escuro: ao mesmo tempo em que descobria novas ferramentas, tentava não perder alunos que lutavam para acompanhar a aula pelo celular emprestado da mãe, com o sinal oscilando na janela.

Aos poucos, a tecnologia deixou de ser muleta e virou parte da rotina. Mesmo depois do retorno presencial, Ana Paula segue combinando lousa e plataforma digital, e encontra na inteligência artificial um apoio para preparar materiais, adaptar atividades para estudantes neurodivergentes e acompanhar ritmos de aprendizado antes difíceis de perceber. A docente, no entanto, insiste que nada disso elimina o papel do professor: o gesto humano, diz ela, ainda é o que dá sentido à tecnologia.

Mas o salto digital expôs um problema que não cabe numa tela: a desigualdade. A pesquisa TIC Educação 2023 mostrou que mais de um terço das escolas públicas enfrenta sérias limitações de conectividade. Em muitas delas, o único ponto de acesso à internet se resume a um roteador frágil que pouco alcança. Há instituições em que o laboratório de informática virou depósito e estudantes seguem tentando assistir a videoaulas pelo único celular da casa.

Enquanto algumas escolas particulares investem em ambientes de realidade virtual e plataformas capazes de simular experiências históricas, muitas escolas públicas seguem à margem dessa revolução. Apenas 58% das instituições urbanas possuem banda larga de qualidade, e boa parte dos estudantes depende de um pacote de dados limitado para participar da aula. A tecnologia, que poderia democratizar, ainda funciona como um filtro social.

Nas universidades, o movimento também se espalha. Pedro Silva, estudante de pedagogia, vive o modelo híbrido todos os dias e afirma que não há mais caminho de volta: quem nasceu conectado espera que a escola dialogue com esse ritmo. Ele vê nas plataformas digitais a chance de personalizar o ensino, acompanhar com precisão as dificuldades de cada aluno e criar trilhas que avancem no tempo de cada um, algo que, no modelo tradicional, exigia uma atenção quase impossível.

Mas o entusiasmo vem acompanhado de alertas. Especialistas lembram que a tecnologia precisa de regras claras, proteção de dados e políticas que garantam acesso igualitário. Lembram também que ela não substitui a mediação pedagógica, nem cria, sozinha, pensamento crítico. A educação, afinal, não é apenas transmissão de conteúdo: é encontro, é vínculo, é interpretação do mundo.

O mercado global segue acelerando, prevendo mais de 400 bilhões de dólares investidos em soluções educacionais até 2030. Mas a pergunta que ecoa nas salas de aula brasileiras é outra: quem poderá acompanhar esse futuro?

A pandemia forçou a porta. O que era emergência virou estrutura. Hoje, a sala de aula não termina mais na parede; ela se estende pela tela, pelo laboratório de realidade virtual, pelo aplicativo que avisa o desempenho, pelo vídeo que explica o que faltou na explicação anterior. Ainda assim, nenhum algoritmo substitui o olhar que percebe o silêncio de um aluno perdido, nem a mão que redesenha uma explicação até que faça sentido.

A educação brasileira segue nesse entremeio, metade digital, metade analógica, inteiramente humana. O futuro já chegou, dizem. Mas ainda precisa aprender a incluir todos que vivem no presente.