Por volta das cinco e meia da manhã o sol ainda não tinha saído, mas era notável que a cidade já estava acordada (se é que tinha dormido), depois da correria matinal de levantar, passar o café, tomar o que dá e pegar um casaco, nos dirigimos para a estação.
Chegando lá as plataformas já estão cheias, quem não está com pressa tem a opção de descer em Guaianases e pegar um trem mais vazio (ou menos cheio) sentido centro, é isso que decidi fazer. Quando o trem está prestes a sair de Guaianases escutam-se gritos raivosos vindo da porta do outro lado, “gente não é nem sete horas! Pelo amor de Deus!”, a porta fecha, não consigo ver quem eram os estressados da vez, mas consigo ouvi-los:
“Foi porque ele não 'relô' na minha cara! Porque se tivesse relado na minha cara!...”
“É! Aposto que ele nunca viu a fúria de um baiano! Depois leva uma facada e não sabe o porquê.”
“Não, não tenho coragem de dar facada nos outros... mas um tiro eu dava!”
A viagem segue em silêncio até o Brás. Na escada rolante, sempre faço questão de olhar para trás e ver o formigueiro humano nas plataformas e sempre me pergunto “como cabe tanta gente?”
Já no segundo trem, o que chama minha atenção desta vez são risadas, elas vêm de duas senhorinhas no banco preferencial, contando casos de seus casamentos, elas tinham uma plateia para ouvi-las. Me virei até onde dava para prestar atenção na história depois de ouvir uma frase:
“...É porque eu não faço coisa pra ser presa, faço pra polícia rir”
“Meu Deus mulher.”
“Mas é! Num pode deixa o homem fazer qualquer coisa, da última vez eu escondi a dentadura dele no quarto e tranquei a porta, ele não conseguia comer aí chamou a polícia, o policial se acabou de rir!”
Os conselhos casamenteiros das senhorinhas entretiam tanto que nem me dei conta da lentidão do trem, até ele parar completamente. O silêncio permanece no vagão até a chegada do aviso do maquinista, relatando “problemas com uma pessoa na via”, todos os passageiros vaiam em uníssono:
“Alguém se matou.”
“De novo?”
“É, pra ta demorando assim.”
Por fim, o trem chega na Barra Funda, já passam das sete horas, eu subo no ônibus e entre muitos estudantes escuto duas meninas conversando alto, uma delas diz: “Tira essa mão de metrô de mim! Eu tenho nojo!”, por um momento eu quis esbarrar meu braço de CPTM nela de propósito, mas não fiz nada.
Depois de uns 20 ou 30 minutos, eu desço no meu ponto, e só agora o dia começou.