O anúncio de um novo jogo da franquia God of War, feito pela PlayStation no último dia 2 de junho, reacendeu discussões sobre a presença do machismo no universo dos videogames. Desta vez, a personagem principal será Laufey, guerreira e esposa de Kratos, protagonista tradicional da série. A escolha, porém, foi recebida com críticas e ataques por uma parcela do público nas redes sociais, evidenciando um debate que acompanha a indústria dos games há anos.
Apesar dos avanços na representatividade dentro dos jogos eletrônicos, manifestações de misoginia continuam presentes entre parte dos consumidores. Para a psicóloga Isabela Reis, o crescimento dos discursos de ódio ocorre paralelamente às iniciativas de inclusão promovidas pelas empresas do setor.
“As campanhas em favor da diversidade e da inclusão crescem em paralelo aos discursos de ódio e à misoginia, sustentados por processos geopolíticos associados à extrema-direita, que influenciam a disseminação dessa violência. Vale lembrar que o conservadorismo tem crescido de forma significativa entre os jovens, juntamente com o movimento redpill.”, explica a psicóloga.
A rejeição a uma personagem fictícia levanta questionamentos sobre os fatores que levam parte dos jogadores a reagir de forma intensa a mudanças em franquias consolidadas, principalmente quando elas são entendidas como um resultado da busca por representatividade.
Segundo Reis, esse comportamento pode ser compreendido por diferentes conceitos da psicologia. “Podemos compreender que os sentimentos de revolta despertados pela personagem funcionam por meio de um mecanismo de projeção, no qual os próprios conflitos psíquicos, considerados intoleráveis pelos sujeitos, são atribuídos ao outro, uma vez que esses indivíduos se recusam a reconhecê-los em si mesmos. Aqui, o sujeito misógino, ao se deparar com sua própria falta constitutiva, recusa-se a reconhecê-la e faz uso do discurso de ódio como forma de atribuir ao outro aquilo que não suporta admitir em si mesmo.”
A psicóloga também apresenta outra leitura sobre o fenômeno: “outra interpretação possível refere-se ao conceito de narcisismo das pequenas diferenças, termo utilizado por Freud para explicar como grupos minoritários, ao longo da história, tornam-se alvo de hostilidade e ridicularização por parte de grupos socialmente mais favorecidos.”
Especialistas defendem que o enfrentamento desse tipo de comportamento passa pela educação e debate constante sobre diversidade e respeito desde a infância, ressaltando a importância da representatividade nos jogos. “Pensar em prevenção nos leva à ideia de que esses conteúdos devem ser debatidos em sala de aula desde os anos iniciais da educação. Para que haja conscientização, é necessário que o governo esteja, de fato, comprometido com essas pautas, pois, como representante da população, ele possui o poder de promover mudanças em estruturas sociais complexas”, conclui.