O basquete vem aos poucos caindo nas graças do povo brasileiro. Segundo a Confederação Brasileira de Basketball (CBB), o número de atletas federados cresceu mais de 30% entre 2019 e 2025, impulsionado pelo aumento de ligas de base, como a LDB (Liga de Desenvolvimento de Basquete). Além disso, programas escolares e projetos sociais ligados ao esporte já alcançam milhares de jovens em todo o país. Porém, adolescentes e crianças de comunidade, em especial mulheres, ainda enfrentam grande dificuldade de adentrar a prática do esporte.
Segundo dados da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), no mundo, cerca de 45% a 49% das meninas abandonam o esporte durante a adolescência, um número duas vezes maior que o dos meninos. No Brasil a situação não é diferente, meninas abandonam o esporte mais do que meninos e enfrentam menor visibilidade desde a base. No basquete, esse cenário se acentua nas periferias, onde o acesso já é limitado e a permanência depende de fatores que vão além do jogo.
No Grajaú, bairro na zona sul de São Paulo, o projeto Santa Fé Hunters tenta contrariar essa lógica. Criado a partir de um sonho de Maickon Johns Serra, conhecido como Tio Maick, que queria transformar o local onde ele cresceu por meio do esporte. O projeto nasceu de forma improvisada, com poucos alunos e sem estrutura, e hoje atende cerca de 250 jovens por ano. Ainda assim, a diferença de gênero permanece: aproximadamente 70% dos participantes são meninos.
“Na infância a gente até consegue equilibrar, mas quando chega na adolescência começa a dificultar muito para as meninas”, explica o fundador do projeto. “Tem a questão de cuidar da casa, da família. A menina acaba assumindo responsabilidades mais cedo.” A evasão não se explica por um único fator. Falta de incentivo familiar, necessidade de trabalhar, ausência de políticas públicas e a própria estrutura do esporte contribuem para afastar as jovens das quadras. Para o entrevistado, o problema começa antes mesmo da prática. “Hoje, o incentivo é praticamente zero. E não é só no basquete, é no esporte em geral. Quem é da elite faz muito pouco pela quebrada”, afirma.
A falta de referência também pesa. Em um país onde o futebol concentra atenção e investimento, outras modalidades acabam marginalizadas e dentro delas, o esporte feminino enfrenta ainda mais invisibilidade. Sem ver jogadoras em destaque, muitas meninas sequer consideram o basquete como possibilidade. “Na comunidade, a criança precisa de referência. Precisa ver alguém parecido com ela chegando lá, precisa que alguém acredite nela”, diz Serra. Além disso, o próprio basquete impõe barreiras materiais. Diferente de esportes mais acessíveis, a modalidade exige estrutura mínima: quadra com tabela, bola adequada e, muitas vezes, equipamentos que não são baratos. Em regiões periféricas, onde espaços esportivos são escassos ou degradados, isso se torna mais um obstáculo.
Apesar disso, iniciativas locais começam a criar caminhos alternativos. No Hunters, o trabalho não se limita à quadra. O projeto busca equilibrar esporte e educação, exigindo desempenho escolar e incentivando trajetórias fora do basquete profissional. Nos últimos anos, alunas do projeto conquistaram vagas em universidades públicas, como USP e instituições federais, resultados que, para o fundador, são tão importantes quanto formar atletas. “Se um ou dois virarem profissionais, ótimo. Mas e o restante? A gente trabalha para que todos tenham oportunidade”, afirma.
Ao mesmo tempo, o projeto também tem licença de clube revelador. Atualmente, cerca de 30 a 40 jovens formados no Hunters atuam em clubes, incluindo equipes tradicionais de São Paulo e até oportunidades no exterior. Entre eles, meninas que conseguem romper a barreira inicial e seguir no esporte. Como a jovem Isadora Maria de Jesus Souza, que começou sua história no basquete sendo Ala Pivô na equipe do Grajaú e hoje integra o sub-15 da equipe do Corinthians.
Ainda assim, a mudança estrutural depende de mais do que iniciativas isoladas. Para ampliar a presença feminina no basquete, Maickon aponta a necessidade de políticas públicas consistentes, investimento na base e valorização de projetos já existentes. “Não adianta começar do zero. Já tem gente fazendo. Precisa apoiar quem está na linha de frente”.