PEC que propõe o fim da escala 6x1 avança na Câmara

Partidos do centrão reagem e proposta alternativa tenta contornar eventual veto presidencial
por
Carolina Zaterka
|
05/03/2026 - 12h

 

O debate sobre o fim da escala 6x1 ganhou novo impulso na Câmara dos Deputados nesta semana e passou a mobilizar lideranças partidárias, integrantes do governo e representantes do setor produtivo. A proposta de emenda à Constituição, que pretende alterar o modelo tradicional de jornada, reacendeu discussão histórica sobre as condições de trabalho no país e abriu um novo campo de disputa política no Congresso.

A movimentação ocorre em um momento em que a pauta trabalhista volta a ganhar centralidade no Legislativo. O avanço da proposta provocou reações de partidos relevantes da base parlamentar, gerando preocupação dentro do governo federal e estimulando a apresentação de alternativas legislativas que podem alterar o rumo da discussão antes da votação.

O que prevê a proposta

A PEC em discussão no Congresso busca alterar o padrão da escala 6X1, ampliando os períodos de descanso e incentivando novos formatos de organização da jornada semanal. Defensores da mudança argumentam que o regime atual compromete a qualidade de vida dos trabalhadores, limitando o tempo disponível para descanso, convívio familiar e recuperação física.

A deputada Erika Hilton (PSOL-SP), uma das principais articuladoras da proposta, afirma que o debate responde a uma pauta recorrente do movimento trabalhista. “A redução da jornada de trabalho é uma reivindicação histórica dos trabalhadores e, com o debate sobre o fim da escala 6x1, essa discussão ganhou ainda mais força”, afirmou a parlamentar.
 

Deputada Erika Hilton (PSOL-SP), autora da PEC pelo fim da jornada 6x1 | Foto: Pablo Valadares - Câmara dos Deputados
Deputada Erika Hilton (PSOL-SP), autora da PEC pelo fim da jornada 6x1 | Foto: Pablo Valadares - Câmara dos Deputados

 

A discussão se insere em um movimento mais amplo observado em diferentes países que passaram a debater reduções ou reorganizações da jornada, impulsionadas por mudanças no mercado de trabalho, avanços tecnológicos e novas demandas sociais.

O avanço da proposta, no entanto, provocou reação de lideranças partidárias com influência no Congresso. Presidentes nacionais de PL, União Brasil e Republicanos se manifestaram contra a iniciativa ao longo da semana, alegando que mudanças estruturais podem gerar efeitos econômicos adversos. Entre os principais argumentos apresentados está o possível aumento de custos operacionais para empresas, especialmente em setores que dependem de funcionamento contínuo ao longo da semana.

Nos bastidores da Câmara, parlamentares ligados a esses partidos afirmam que a alteração constitucional poderia provocar impactos sobre a geração de empregos formais, além de pressionar empresas a reorganizar escalas de trabalho ou ampliar quadros de funcionários. O deputado Luiz Gastão (PSD-CE), que acompanha a discussão sobre a proposta no Congresso, alertou para possíveis efeitos econômicos da mudança. “Os custos para micro e pequenas empresas podem chegar a R$35 bilhões. Esse custo será pago por todos nós, consumidores, porque os produtos ficarão mais caros”, afirmou.

Representantes do setor empresarial também acompanham a discussão com cautela. Entidades ligadas ao comércio e aos serviços argumentam que o modelo 6x1 faz parte da estrutura operacional de diversos segmentos da economia e que mudanças abruptas poderiam gerar efeitos sobre produtividade e competitividade.

Articulação no Congresso e proposta alternativa

Em meio às divergências, o deputado e presidente da câmara Motta apresentou uma alternativa legislativa que passou a circular entre lideranças partidárias. A proposta busca estruturar o avanço da mudança diretamente por meio de uma emenda constitucional, estratégia que altera a dinâmica de tramitação.
A diferença consiste em projetos de lei poderem ser vetados pelo presidente da República, enquanto emendas à Constituição, uma vez aprovadas pelo Congresso, são promulgadas diretamente pelo Legislativo, sem possibilidade de veto presidencial.

Nos bastidores do Congresso, a iniciativa foi interpretada como uma tentativa de blindar a proposta de interferências do Executivo e acelerar sua tramitação caso haja apoio suficiente entre os parlamentares.
O avanço da discussão também provocou cautela dentro do governo federal. Embora setores ligados à pauta trabalhista vejam positivamente a ampliação de períodos de descanso, integrantes da equipe econômica demonstram preocupação com possíveis impactos macroeconômicos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou recentemente que o debate precisa envolver diferentes setores da sociedade antes de qualquer decisão definitiva. “É hora de o Brasil dar esse passo, ouvindo todos os setores da sociedade para promover um equilíbrio entre a vida profissional e o bem-estar dos trabalhadores e trabalhadoras”, declarou. Entre os pontos de atenção discutidos no Planalto estão efeitos sobre custos empresariais, dinâmica de contratação e possíveis repercussões inflacionárias caso a reorganização da jornada implique aumento de despesas operacionais para as empresas.

O governo também avalia que o tema pode gerar pressões simultâneas de diferentes grupos sociais: sindicatos e movimentos trabalhistas que defendendo mudanças na jornada; e empresários e setores produtivos  se preocupadando com custos e produtividade.
 

Manifestação “Vida Além do Trabalho (VAT)” defende o fim da jornada de trabalho 6x1 | Crédito: VAT - Reprodução por Brasil de Fato
Manifestação “Vida Além do Trabalho (VAT)” defende o fim da jornada de trabalho 6x1 | Crédito: VAT - Reprodução por Brasil de Fato

A discussão sobre o fim da escala 6x1 reflete transformações mais amplas nas formas de organização do trabalho. Nos últimos anos, diversos países passaram a testar novos modelos de jornada, incluindo semanas de quatro dias ou formatos híbridos que ampliam períodos de descanso. Um experimento realizado pelo governo islandês entre 2015 e 2019,em parceria com o think tank britânico Autonomy e a Association for Sustainability and Democracy (Alda), revelou que a reorganização da jornada pode coexistir com níveis estáveis de produtividade. 

O projeto envolveu cerca de 2.500 trabalhadores do setor público, aproximadamente 1% da força de trabalho do país, que passaram a trabalhar entre 35 e 36 horas semanais sem redução salarial. A iniciativa foi acompanhada por pesquisadores que analisaram indicadores de produtividade, bem-estar e organização do trabalho. Os resultados apontaram que, na maioria dos locais avaliados, a produtividade permaneceu estável ou aumentou, ao mesmo tempo em que os trabalhadores relataram redução de estresse e melhora na qualidade de vida.

No Brasil, entretanto, o debate ocorre em um mercado de trabalho marcado por alta informalidade e forte concentração de empregos em serviços, fatores que tornam a implementação de mudanças estruturais mais complexa.

A proposta deve passar por etapas de negociação e discussão nas comissões da Câmara antes de uma eventual votação em plenário. Por se tratar de uma emenda constitucional, sua aprovação exige maioria qualificada de três quintos dos deputados em dois turnos de votação, além de posterior análise pelo Senado.
Até lá, a tendência é que o tema continue mobilizando lideranças políticas, representantes do setor produtivo e organizações trabalhistas.