Em março de 2020, após a explosão da pandemia de Covid-19, o mercado financeiro enfrentou uma de suas maiores crises globais em anos. Nessa época, investir era desafiador e incerto, mas a procura por maneiras de fazer o dinheiro render, principalmente pela necessidade financeira em tempos de quarentena, aumentou. Desde então, os interesses em investimentos crescem, e as informações divulgadas a respeito são cada vez mais democráticas. Estudo realizado em dezembro de 2020, pela Bolsa de Valores Brasileira (B3), aponta que em cerca de um ano a quantidade de investidores em renda variável cresceu seis vezes comparado a 2019. A procura por informação e aprendizado sobre o tema também aumentou, reflexo direto das dificuldades financeiras enfrentadas por muitos lares durante o confinamento.
Imagem: Reprodução / PowerPoint da pesquisa do B3.
Seis anos depois, cada vez mais pessoas entram nesse universo em busca de conhecimento e de uma relação mais consciente com o dinheiro. Cursos e conteúdos em plataformas digitais passaram a ter um papel muito importante na educação financeira da população, facilitando o acesso às informações. "Achava que era algo mais restrito ao mundo Wall Street e o mercado corporativo. As corretoras terem olhado mais para pessoas físicas com baixo patrimônio contribuiu com a entrada de pessoas no mundo dos investimentos, porque se tornou fácil criar uma conta e operar, qualquer um com um celular e internet consegue investir”, diz Lucas Chini, 20, estudante de Ciências de Dados e Inteligência Artificial na PUC-CAMP. "Como era pandemia e eu tinha muito tempo livre, além de jogar e estudar programação, eu acabava estudando sobre o mercado financeiro, muito por incentivo do meu tio, que me motivava a investir e estudar mais sobre investimentos”, relembra.
Em períodos de instabilidade, uma das primeiras áreas a ser afetadas é a economia. O desemprego aumenta, o preço do mercado sobe e a gasolina dispara. A população começa a sentir no bolso, e a busca por mais dinheiro e soluções rápidas começam a aparecer. Desde então, a sociedade tem se conscientizado cada vez mais a respeito de temas econômicos. “Existe um aumento bastante expressivo de pessoas físicas investindo”, aponta Cristiane Mancini, professora mestra em Economia. De acordo com a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA), o investimento dos brasileiros cresceu 15,5% ao final de 2025 em comparação com dezembro de 2024, alcançando R$ 8,5 trilhões em recursos aplicados no mercado financeiro. “Esse movimento se dá por um maior acesso à educação financeira, algumas vezes mesmo em escolas, o que incentiva o investimento e o pensar no futuro”, explilca Mancini.
Pesquisa feita pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) e Datafolha, mostra que, em 2023, só 30% da população brasileira conseguiu economizar. Além disso, 22% dos usuários de sites de apostas acreditam que estão investindo e ganhando dinheiro fácil, evidenciando a falta de compreensão sobre aplicações financeiras. Apesar do crescimento do interesse por investimentos revelar uma mudança na forma como os brasileiros lidam com o dinheiro, ele também expõe desafios que ainda precisam ser superados. Mais do que acompanhar o crescimento do mercado, entender como ele funciona se torna essencial para concretizar o planejamento financeiro a longo prazo.
Por mais que o aumento de investidores acompanhou uma maior procura por conhecimento financeiro, ainda há muita desinformação. Segundo Mancini, isso se soma ao receio em alguns tipos de investimento. Outro aspecto relevante é a alta inadimplência das famílias no país, “o que faz com que o brasileiro opte por pagar suas dívidas em detrimento a investir. Suas reservas na verdade não se tornam reservas, mas sim pagamento de contas e gastos imediatos”, explica a economista. De acordo com ela, “os erros mais comuns são acreditar que o mesmo tipo de investimento vale para todos, sendo que os perfis mudam bastante, os objetivos e por quanto tempo se deseja investir. São pontos importantes a serem levados em conta”. Além disso, também há a ilusão de que os rendimentos podem ser rápidos, muitas vezes promovidos por falsas promessas na internet.
Em relação à maior procura de informação e o planejamento financeiro do brasileiro, Cristiane comenta que existem diversos canais de comunicação, inclusive do próprio Banco Central. “E vale a pena mencionar uma informação que muitos brasileiros desconhecem: o sistema financeiro brasileiro foi eleito o melhor do mundo em 2024 pela sua diversidade de produtos e condutas de política monetária e inflação”. Chini, por sua vez, diz não se preocupar tanto com o planejamento financeiro, mas sim com o direcionamento do dinheiro. “Percebi que não podia deixar o dinheiro na poupança para a inflação comer, sendo que poderia estar em um fundo ou uma ação que me gerasse rentabilidade. Talvez a maior mudança foi isso, passar a investir ao invés de só guardar”. Para ele, investir mudou a forma com que lida com o dinheiro, “eu sempre economizei e guardei dinheiro, mas na poupança. Então o saber investir me possibilitou entender mais sobre o que eu poderia fazer com o meu dinheiro, para fazer mais dinheiro”.