Operação Sem Desconto mira fraude bilionária no INSS

A operação já prendeu o presidente do INSS, afastou seis servidores e apreendeu bens acima de R$ 1 bilhão
por
Lucas Tomaz Lopes
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01/06/2026 - 12h

 

A Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União (CGU) realizaram nesta quarta-feira (27) uma nova ofensiva na investigação que apura o maior esquema de desvio de benefícios previdenciários da história do país. A ação foi motivada pela detecção, pela inteligência financeira, de que os alvos estariam tentando se desfazer de patrimônio para evitar o bloqueio judicial e a futura reparação às vítimas.

Ao todo, foram cumpridos 31 mandados de busca e apreensão e oito medidas cautelares de monitoramento eletrônico nos estados de Pernambuco, Paraíba, São Paulo e no Distrito Federal. As ordens foram autorizadas pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, e têm como objetivo aprofundar as investigações sobre crimes de organização criminosa, estelionato previdenciário, ocultação de patrimônio e dilapidação patrimonial. Segundo os órgãos de investigação, não há parlamentares entre os alvos.

A operação identificou três núcleos regionais que operavam o esquema. Em São Paulo, as entidades investigadas incluem o Amar Brasil Clube de Benefícios, Master Prev, AASAP e ANDAPP. Em Brasília, as associações UNIBAP e ABENPREV estão sob investigação. Em Pernambuco, os alvos são servidores e ex-servidores do próprio INSS. Entre os investigados também figuram Felipe Macedo Gomes, ex-presidente do Amar Brasil Clube de Benefícios, e Igor Dias Delecrode, ex-presidente da Associação de Amparo Social ao Aposentado e Pensionista.

A nova fase ocorre ainda sob uma mudança institucional relevante: a coordenação do inquérito passou de uma divisão especializada em crimes previdenciários para a Coordenação de Inquéritos nos Tribunais Superiores da PF, sinal de que o caso ganhou ainda mais peso político e jurídico.

Para entender a dimensão da nova etapa de investigação, é preciso voltar ao início. Por anos, milhões de aposentados brasileiros tiveram pequenas fatias de seus benefícios desviadas todo mês, sem saber. O dinheiro saía diretamente da folha de pagamento do INSS, debitado por associações e sindicatos com os quais as vítimas nunca pediram para se filiar. De acordo com a PF e a CGU, entre 2019 e 2024, cerca de R$ 6,3 bilhões teriam sido descontados de aproximadamente 6 milhões de beneficiários em todo o país.

O golpe funcionava por meio de Acordos de Cooperação Técnica firmados com o próprio INSS, contratos legítimos que permitem descontar mensalidades associativas direto na folha, desde que autorizadas individualmente por cada beneficiário. A autorização, porém, nunca existiu. As entidades falsificavam assinaturas e criavam tokens digitais fraudulentos para simular legalidade. De acordo com relatório da CGU, 97% dos aposentados entrevistados durante as auditorias afirmaram não ter autorizado os descontos. As associações prometiam serviços como assistência jurídica, planos de saúde e acesso a academias , benefícios que a maioria das vítimas jamais usou, muitas vezes porque nem sabia que havia contratado.

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CGU e PF combatem descontos não autorizados em benefícios do INSS em operação Sem Desconto. Reprodução: Portal GOV.BR

 

O esquema só se sustentou por tanto tempo porque tinha cumplicidade de dentro. Servidores do próprio INSS facilitavam o acesso ao sistema de dados dos beneficiários e ajudavam a validar cobranças fraudulentas. Entre os afastados estão o presidente do instituto, o diretor de Benefícios e Relacionamento com o Cidadão, a chefe da Procuradoria Federal Especializada, dois coordenadores-gerais e um policial federal.

Uma figura central na investigação é o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o "Careca do INSS", apontado pela PF como intermediário-chave do esquema. Ele mantinha uma offshore nas Ilhas Virgens Britânicas para blindar seu patrimônio e foi preso em setembro de 2025, na operação em que a PF também apreendeu uma Ferrari F8 e uma réplica de McLaren.

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Antonio Carlos Antunes, o "Careca do INSS", principal intermediário do esquema  em depoimento à CPMI. Reprodução: Agência Câmara de Notícias

 

A Operação Sem Desconto foi deflagrada originalmente em abril de 2025, quando cerca de 700 policiais federais e 80 servidores da CGU atuaram em 14 estados, cumprindo mais de 200 mandados e sequestrando bens superiores a R$ 1 bilhão. Em setembro do mesmo ano, a Operação Cambota apurou crimes de obstrução e ocultação de patrimônio. Em março de 2026, a Operação Indébito cumpriu mais 19 mandados no Ceará e no Distrito Federal. Atualmente, alguns investigados negociam acordos de colaboração premiada com a PF, entre eles o empresário Maurício Camisotti, o ex-procurador-geral do INSS Virgílio Antônio Filho e o ex-diretor André Fidelis.

Para descobrir se foi afetado, o aposentado pode consultar o aplicativo Meu INSS, ligar para o número 135 ou comparecer a uma agência dos Correios. Os descontos ainda identificados no extrato podem ser contestados e excluídos diretamente pelo aplicativo. O impacto social do escândalo se reflete nos números da Advocacia-Geral da União (AGU): segundo dados apresentados ao ministro Dias Toffoli, do STF, o número de ações judiciais contra o INSS por descontos indevidos saltou de uma média de 400 por mês, registrada até janeiro de 2024, para 11 mil após a deflagração da Operação Sem Desconto.

O governo federal comprometeu-se a ressarcir as vítimas administrativamente, sem necessidade de processo judicial, em lotes a cada 15 dias. Quem aceitar o acordo recebe o valor corrigido pelo IPCA em até três dias. 

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