Os mitos surgem a partir da capacidade inventiva da imaginação do Homo Sapiens de criar o que não existe no mundo natural, impulsionada, pelas angústias existenciais provocadas pela autoconsciência da finitude do tempo. As narrativas místicas são, a resposta da imaginação e da razão para elementos desconhecidos e ameaçadores do mundo.
Como forma de pensamento o mito é considerado fundamental, pois foi a primeira tentativa de encontrar sentido no mundo.
Durante centenas de anos, especialmente na Grécia, o mito era a forma dominante de conhecimento antes de ser superado pela razão. Embora a filosofia e a ciência tenham surgido posteriormente, o mito não foi necessariamente superado por elas. Assim reforça o fato de o mito ser uma forma de pensamento, um fato vivo que acompanha os povos ao longo de sua existência.
O mito é conhecido como um produto de uma concepção mais ampla, faz parte da cultura de uma sociedade. A transição do mito para a filosofia ocorreu quando as explicações consideradas sobrenaturais deixaram de ser suficientes e a razão passou a buscar causas naturais e lógicas como fundamento. É importante salientar que o mito foi fundamental para que os seres humanos organizassem a realidade, sendo a base cultural para o surgimento de novas formas de pensamento.
Os primeiros mitos nasceram na época Paleolítica, produto da imaginação dos povos caçadores, e desde seus desenvolvimentos iniciais não apenas recorrer a conhecimentos sobrenaturais, mas conectar-se ao mundo real. O mito assim uma conexão entre o sagrado (aquilo que transcende o mundo natural) e o profano (aquilo que faz parte da vida cotidiana).
Armstrong (2006) propõe em sua análise da história do mito que há uma progressiva mudança em como o ser humano sente e se relaciona com os mitos, desde o tempo dos caçadores até o da constituição das cidades e da vida urbana. Segundo ela, há um distanciamento na conexão entre o sagrado e o profano, tornando-se o mito cada vez mais abstrato e afastado do cotidiano. Esse afastamento, no entanto, não
significava a exclusão dos mitos da vida do homem. Pelo contrário, a importância dos mitos permanece no mundo contemporâneo. A necessidade humana por eles é empiricamente confirmada pelo impacto e alcance das narrativas míticas das grandes religiões nos tempos atuais, além da contínua influência que os mitos ancestrais exercem no campo da criação artística.
No mundo contemporâneo podemos relacionar o mito às ideologias, que age como uma narrativa que naturaliza as relações sociais, legitima modelos de conduta e constrói um sentido para o mundo, frequentemente servindo a interesses e disfarçando contradições sociais. O mito atua como um sistema de crenças que justifica uma realidade. Os mitos funcionam como ideologia ao oferecer modelos exemplares de regras de comportamento, moldando a ação humana e social. Transformam os fatos históricos ou sociais em verdade eternas e inquestionáveis, disfarçando os interesses políticos que os sustentam. Em resumo diferente da filosofia que busca a razão, o mito utiliza a narrativa e a fé para convencer, operando de forma similar a uma ideologia que molda a visão do mundo. Na política contemporânea, figuras ou ideais são transformados em "mitos" para simplificar a realidade e gerar coesão, funcionando como um exemplo de mito ideológico.
Como exemplo da importância do mito temos a história da fundação de Roma que narra que os gêmeos Rômulo e Remo, filhos do deus Marte e da mortal Reia Sílvia, foram abandonados às margens do rio Tibre. Salvos e amamentados por uma loba, chamada Luperce, foram criados por pastores. Rômulo matou Remo após uma disputa territorial, tornando-se o primeiro rei.