O impacto do aumento da gasolina para motoristas de São Paulo

Com mais trabalho e mais custos, profissionais precisam ficar mais horas na rua para manter a renda
por
Anna Carolina Z. Bueno de Aguiar
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25/04/2026 - 12h

O combustível mais caro impacta diretamente a rotina e o rendimento mensal de quem trabalha como motorista de aplicativo na capital paulista. O aumento no valor registra alta de 7,48%, chegando a R$ 6,75, segundo apurou reportagem da CNN. Matheus Blaich, taxista há cerca de três anos em São Paulo, conta que o abastecimento do carro é o que mais pesa atualmente, podendo chegar até mesmo a um terço do salário ao mês. A redução na quantidade de corridas no período noturno, um dos melhores horários de acordo com o motorista, pode chegar também a uma diminuição de quase 30% em relação ao ano passado. 

As despesas maiores e a diminuição da clientela forçam motoristas a se adaptarem e a aumentarem suas horas de trabalho. “Hoje eu preciso trabalhar mais horas para ganhar o que ganhava antes. E, às vezes, nem assim consigo manter o mesmo rendimento”, conta Matheus.  

A seleção de corridas tornou-se mais criteriosa por pura estratégia e redução de possíveis prejuízos; deslocamentos longos ou fora de rota são em sua maioria, evitados, visando à não compensação do valor recebido em relação ao combustível, comparado ao gasto da locomoção total. Aplicativos que usam tarifas dinâmicas e variáveis se tornam imediatamente mais atraentes. "A modalidade com desconto dessas plataformas molda a percepção do valor do serviço, fazendo com que passageiros considerem esses preços menores como padrão, sem acrescentar o custo a mais, desvalorizando o trabalho, deixando a concorrência frustrante", diz.

A insatisfação de quem trabalha com app de entregas e transporte é nítida pelas diversas manifestações em um curto período e em diferentes partes do Brasil. Em São Paulo, a classe pede por melhoria nas condições de trabalho e diminuição de taxas cobradas por aplicativos, que aumentam cada vez mais. Altas despesas gerais, gasolina e pouca remuneração também são criticadas pelos trabalhadores da área de mobilidade. O combustível alto gera um efeito dominó inevitável, em que o aumento do abastecimento não só encarece as corridas aos passageiros, mas, como consequência, diminui a demanda. O resultado não é um caso isolado de condutores paulistanos, mas uma realidade brasileira atual. 

O taxista não pretende deixar a profissão em pouco tempo, mas confessa ter incertezas constantes de um futuro distante e tentador: “A longo prazo, eu penso em mudar, sim. Porque está cada vez mais difícil manter o mesmo ganho”, desabafa Matheus. 

Muitos profissionais ainda se conformam com a situação por princípio de estabilidade momentânea e uma possível falta de alternativas. Blaich também afirma sobre a importância de clientes avaliarem e refletirem os preços envolvidos no serviço total. “Muita gente não tem noção do que custa manter um carro rodando o dia inteiro. Não é só dirigir, tem muito gasto envolvido” .

Apesar das oscilações de custos, demandas da adaptação contínua e metas nem sempre alcançadas, a tendência do número de motoristas é diminuir, mas não um completo desaparecimento da profissão, por agora. A categoria teme a chegada de carros autônomos em aplicativos, que operam sem necessidade de humanos, o que poderia levar a reduzir significativamente a profissão de uma vez por todas.