O Fim de uma Era: A Morte do Líder Supremo e o Futuro Incerto do Irã

Aos 86 anos, morre o homem que comandou a República Islâmica por mais de três décadas.
por
Octávio Alves
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05/03/2026 - 12h

O aiatolá Ali Khamenei, Líder Supremo do Irã e chefe de Estado há mais tempo no poder no Oriente Médio, morreu no último sábado (28) aos 86 anos. Khamenei foi morto em razão de um ataque aéreo maciço e conjunto dos Estados Unidos e de Israel, que alvejou seu complexo de alta segurança em Teerã.

A confirmação do óbito  anunciada inicialmente pelo presidente dos EUA, Donald Trump, e horas depois validada pela televisão estatal iraniana encerra um governo de quase 37 anos. Sob seu comando, o Irã consolidou-se como uma força antagônica ao Ocidente, expandiu sua rede de influência paramilitar pela região e enfrentou sucessivas ondas de insatisfação popular com punho de ferro.

De Clérigo a Líder Supremo 

Nascido em 19 de Abril 1939 na cidade de Mashhad, no nordeste do Irã, Ali Khamenei era o segundo de oito filhos em uma família de clérigos xiitas, a vertente religiosa predominante do Irã. Seguindo os passos do pai, dedicou-se aos estudos teológicos desde jovem.

Durante a Revolução Islâmica de 1979, que derrubou o reinado do Xá,  Khamenei emergiu como um dos principais aliados do primeiro Líder Supremo, o aiatolá Ruhollah Khomeini, fundador da República Islâmica.

Antes de atingir o topo do poder, Khamenei sobreviveu a uma tentativa de assassinato em 1981 que paralisou seu braço direito. Quatro meses depois, foi eleito presidente do Irã, com 95% dos votos , ele serviu no cargo de 1981 a 1989. 

Com a morte de Khomeini em 1989, a Assembleia dos Especialistas escolheu Khamenei a assumir e o elevou ao cargo de Líder Supremo, posição que lhe garantiu a palavra final sobre os ramos judiciário, legislativo, executivo e militar do país, essa escolha foi uma surpresa até mesmo para o Khamenei que não esperava ser escolhido ao poder.

 

Ali Khamenei na posse de Líder Supremo após a morte do Khomeini Fonte: Arcevo do Khamenei.ir
Ali Khamenei na posse de Líder Supremo após a morte do Khomeini Fonte: Khamenei.ir

Repressão Doméstica e Sobrevivência do Regime

O período de quase quatro décadas sob a liderança de Ali Khamenei foi caracterizado por uma estratégia sistemática de contenção de dissidências, combinando aparato de segurança robusto, vigilância institucionalizada e mecanismos legais de restrição política. Como Líder Supremo, Khamenei exerce controle direto e indireto sobre o Judiciário, as Forças Armadas, a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e a milícia Basij estruturas centrais na manutenção da ordem interna e na neutralização de movimentos considerados ameaças à República Islâmica



 

Ali Khamenei com apoiadores na província de Qom na Imam Khomeini Hussainiyah, em 9 de janeiro de 2026. Foto: Archevo do Khamenei.ir
Ali Khamenei com apoiadores na província de Qom na Imam Khomeini Hussainiyah, em 9 de janeiro de 2026. Foto: Khamenei.ir

Sua primeira grande crise de sua liderança ocorreu em 1999, quando protestos estudantis eclodiram após o fechamento do jornal reformista Salam. As manifestações, iniciadas na Universidade de Teerã, rapidamente ganharam contornos políticos mais amplos. A repressão envolveu forças de segurança e milícias paramilitares, resultando em prisões em massa, denúncias de tortura e julgamentos conduzidos por tribunais revolucionários.

Em 2009, o desafio foi significativamente maior. A reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, contestada por amplos setores da sociedade, desencadeou o que ficou conhecido como “Revolução Verde”. Milhões de iranianos foram às ruas questionando a legitimidade do pleito. Khamenei interveio publicamente ao endossar o resultado eleitoral e advertir contra a continuidade dos protestos. 

A resposta estatal incluiu o uso extensivo da força, detenções de lideranças reformistas, restrições severas à imprensa e bloqueios digitais. O episódio consolidou o emprego de instrumentos de controle tecnológico, com ampliação da vigilância sobre comunicações e redes sociais, além da criação de uma infraestrutura nacional de internet com maior capacidade de filtragem e monitoramento.

Pela crise econômica agravada por sanções internacionais e má gestão interna levou a novos protestos em 2017 e, de forma mais intensa, em 2019, após o aumento abrupto dos preços dos combustíveis. As manifestações espalharam-se por dezenas de cidades, inclusive em regiões tradicionalmente consideradas conservadoras.

 A repressão foi particularmente severa: organizações de direitos humanos relataram elevado número de mortos e milhares de detenções. Durante esse período, o governo impôs um apagão da internet quase total por vários dias, medida interpretada como estratégia deliberada para dificultar a coordenação dos protestos e limitar a circulação de imagens para o exterior.

O ciclo mais recente e internacionalmente visível de contestação ocorreu entre 2022 e 2023, após a morte de Mahsa Amini sob custódia da polícia da moralidade. O movimento “Mulher, Vida, Liberdade” articulou reivindicações que iam além da obrigatoriedade do hijab, questionando fundamentos do sistema político. 

As ações das autoridades resultou na repressão policial, julgamentos acelerados, imposição de penas severas incluindo condenações à morte e endurecimento das normas de vigilância sobre vestimentas e comportamento público. Paralelamente, foram propostas e implementadas medidas legislativas para reforçar o controle sobre conteúdos online e ampliar a responsabilização penal por “propaganda contra o Estado”.

Ao longo de seu governo, Khamenei também reforçou o papel do Conselho dos Guardiães, órgão responsável por vetar candidaturas eleitorais consideradas inadequadas ideologicamente. A combinação entre filtragem eleitoral de quem participa, repressão judicial e controle midiático estruturou um modelo de estabilidade autoritária que, embora eficaz na preservação do regime, aprofundou divisões sociais e ampliou o distanciamento entre parte significativa da população, especialmente jovens e mulheres  e as instituições do Estado.

O Arquiteto do "Eixo da Resistência"

Na política externa, Khamenei adotou uma postura de confronto contínuo contra os EUA (que ele chamava de "O Grande Satã") e Israel. Ele foi o arquiteto da expansão da influência iraniana no Oriente Médio por meio do "Eixo da Resistência", financiando, armando e treinando grupos paramilitares no Líbano (Hezbollah), em Gaza (Hamas), no Iêmen (Houthis) , no Iraque e Síria.

Além disso, seu governo impulsionou o controverso programa nuclear iraniano, que levou a décadas de sanções econômicas paralisantes e impasses diplomáticos com a comunidade internacional.
 

 

O Ataque Final e as Consequências

A morte de Khamenei ocorreu em meio a uma escalada drástica de tensões regionais. Segundo autoridades americanas e israelenses, a operação foi baseada em inteligência de alta precisão que indicava uma reunião da cúpula iraniana em Teerã. O ataque também vitimou altos comandantes da Guarda Revolucionária Islâmica e membros da família, a  filha, genro, neto e nora do aiatolá.
 

Líder Supremo recitando o Alcorão em reunião, no mês do Ramadã. Foto: Archevo do Khamenei.ir
Líder Supremo recitando o Alcorão em reunião, no mês do Ramadã. Foto: Khamenei.ir

O governo iraniano declarou 40 dias de luto oficial e prometeu retaliar  o que o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, chamou de "uma declaração de guerra contra os muçulmanos". 

Um conselho interino de liderança já foi formado enquanto a Assembleia dos Especialistas se reúne para a árdua e inédita tarefa de escolher um sucessor em meio a um país à beira de um conflito aberto e profundamente fraturado internamente.