O brilho e o peso da fama em “Love Story”

Série sobre o romance de John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette combina estética fiel e trilha sonora marcante, reacendendo o debate sobre privacidade
por
Livia Vilela
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08/04/2026 - 12h

A série Love Story (2026), criada por Connor Hines e produzida pelo controverso e consagrado Ryan Murphy, rapidamente se consolidou como um fenômeno do streaming ao revisitar o relacionamento entre John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette. Protagonizada por Paul Anthony Kelly e Sarah Pidgeon, a série chegou ao fim no dia 27 de março, com o lançamento do episódio final. Mais do que um drama romântico, a série se constrói como um retrato controverso da vida pública, explorando o amor entre duas figuras icônicas enquanto evidencia o peso da exposição constante que moldou suas trajetórias.


Antes de chegar às telas, a história de John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette já era amplamente conhecida. Filho do ex-presidente John F. Kennedy, assassinado em 1963, JFK Jr. cresceu sob intensa exposição midiática, impulsionada sobretudo pela visibilidade da sua família. Formado em Direito, atuou como advogado, fundou a revista George e foi declarado o homem mais sexy do mundo pela revista People em 1988. Já Carolyn, publicitária da Calvin Klein, nunca foi uma figura pública e tornou-se um ícone de estilo dos anos 1990 por sua estética minimalista e discrição. Os dois morreram tragicamente em 1999, em um acidente de avião no litoral de Massachusetts, no qual também morreu a irmã de Carolyn, Lauren Bessette.

cartaz love story
Cartaz da série Love Story de 2026
Foto: Divulgação/Instagram @lovestoryfx


Um dos maiores méritos da série está na forma como ela evidencia a espetacularização da intimidade. A narrativa acompanha uma mulher anônima que, ao se envolver com um homem que sempre teve uma vida pública, passa a lidar com uma exposição que antes não fazia parte de sua realidade. A série acerta ao mostrar como a fama não apenas acompanha, mas atravessa e redefine as relações pessoais.


A trilha sonora é um destaque por si só justamente por sua precisão histórica e sensorial. Ao apostar em hits marcantes dos anos 1990  (período em que a história se passa), como “It Ain’t Over ’Til It’s Over”, de Lenny Kravitz, e “Linger”, do The Cranberries, a série não apenas ambienta, mas transporta o espectador para a época.A música funciona como um elo direto com a narrativa, ajudando a construir uma sensação de imersão e familiaridade. 


Sob a curadoria de Jen Malone, responsável pela trilha, essa seleção reforça o tom nostálgico da série e insere o público de forma orgânica em um imaginário afetivo dos anos 90. Em entrevista à Vogue, ela afirma: “Eu recorri à minha própria playlist de músicas dos anos 90 que amo e fui organizando cada uma em seu respectivo ano. Nova York, para mim, é quase um personagem da história. Dizemos muito isso na TV: que a música é um personagem. Mas em obras de época ela realmente se torna um personagem, porque ajuda a transportar o espectador para dentro da história.”

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Paul Anthony Kelly como JFK Jr. em Love Story
Foto: Divulgação/Instagram @lovestoryfx


A cinematografia e a caracterização também são um ponto forte. A estética é cuidadosamente elaborada, com enquadramentos elegantes e uma paleta que remete ao glamour dos anos 1990. Ao mesmo tempo, carrega uma certa frieza que reflete o distanciamento emocional provocado pela exposição midiática. Já a caracterização dos personagens é precisa, contribuindo para a imersão e para a construção de figuras complexas. 


Curiosamente, as escolhas da produção não foram bem recebidas de início: quando as primeiras imagens de Sarah Pidgeon como Carolyn Bessette foram divulgadas, parte do público reagiu negativamente, criticando especialmente o tom do cabelo e apontando que o visual não imprimia o estilo icônico de Carolyn. As mudanças vieram na sequência, com o ajuste no tom de loiro da atriz e a escolha de peças mais sofisticadas e verossímeis com os anos 1990 para o guarda-roupa da personagem. Uma reação que antecipa a própria tensão central da série sobre imagem, memória e expectativa.

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Sarah Pidgeon e Paul Anthony Kelly como Carolyn Bessette e JFK Jr. em Love Story
Foto: Divulgação/Instagram @lovestoryfx

 


No entanto, é justamente nesse ponto que a série abre espaço para um contraponto importante. Jack Schlossberg, sobrinho de John F. Kennedy Jr., criticou duramente a produção, dizendo que se trata de um “espetáculo grotesco” que transforma uma história pessoal e trágica em entretenimento sensacionalista. Sua reação evidencia um incômodo central: ao mesmo tempo em que denuncia a invasão de privacidade sofrida pelo casal, Love Story inevitavelmente reproduz essa lógica ao recontar e dramatizar momentos íntimos, muitos deles atravessados por dor e perda.


Assim, a série se coloca em uma posição ambígua. Ela critica a cultura que consome vidas privadas como espetáculo, mas também depende dela para existir e engajar o público. Essa contradição talvez seja um dos aspectos mais interessantes da obra, pois amplia a discussão para além da narrativa e a insere no próprio funcionamento da indústria do entretenimento.


No fim, Love Story é uma série extremamente envolvente e, em muitos momentos, até divertida, graças ao seu ritmo, estética e apelo emocional. Mas, para além do entretenimento, ela também convida à reflexão. Ao revisitar a vida de figuras públicas, a produção nos faz pensar sobre os limites entre o público e o privado. E, sobretudo, sobre o que significa, de fato, ter uma vida pública em uma cultura que transforma intimidade em espetáculo. A série deixa, então, uma pergunta incômoda: até que ponto vale abrir mão da própria privacidade em nome do amor e o que sobra de uma relação quando tudo nela se confunde com a vida pública?

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