Atualmente existe uma crise na democracia liberal e no neoliberalismo, modelo que rege a maioria das sociedades. Líderes alinhados a uma ideologia violenta e de extrema direita foram eleitos em diversos países e políticas com os mesmos ideais ganham cada vez mais apoio e espaço na política global. A eleição de Jair Bolsonaro em 2018 no Brasil, a de Donald Trump nos Estados Unidos, Javier Millei na Argentina, Viktor Orbán na Hungria, Giorgia Meloni na Itália e Marine Le Pen ganhando espaço na França são alguns exemplos. Manifestações alinhadas a esse campo político vêm crescendo, e tentar entender esse fenômeno e analisar as possíveis razões que justificam esse crescimento é essencial para entender o mundo.
Sempre que o tema política é abordado deve ser considerada a sua complexidade e a existência de diversos lados que podem analisar o mesmo acontecimento. Para entender o que está acontecendo na política mundial, é necessário voltar no conceito de o que é a extrema direita. “Para tentarmos ser didáticos e rigorosos historicamente, a extrema direita se relaciona com projetos autoritários e extremistas, sobretudo no período entre a Primeira e Segunda Guerra, nazismo e fascismo, e está sempre diretamente ligada a uma ideia de não aceitação do jogo liberal clássico e democrático,” esclarece Paulo Crispim, professor de história no ensino médio da escola Nossa Senhora das Graças. “A extrema direita opera numa lógica de não participar ou buscar implodir o que a gente chama de pacto liberal clássico”, continua Crispim. Segundo o professor, o chamado pacto liberal clássico é fundamentado na divisão e equilíbrio dos poderes e de instituições independentes, e a extrema direita não opera nesse ideal liberal democrático e burguês. Pode-se considerar extrema direita grupos políticos que tentam boicotar esse pacto.
Quando se trata de história é indispensável tomar cuidado para não traçar falsos paralelos. Quando a extrema direita atual é discutida, não pode equipará-la aos movimentos nazifascistas do século XX porque eles têm uma especificidade muito grande. Historicizar o processo é fundamental e não apenas traçar paralelos. “O fascismo é um fenômeno do século XX, do entreguerras, de um desdobramento do capitalismo de base industrial entre as potências imperialistas europeias, um modo de vida ainda se consolidando como urbano e industrial, competitivo. Você tem um contexto muito específico que nos ajuda a entender o fascismo como um fenômeno localizado de primeiro momento na Itália, mas como um fenômeno de um determinado contexto”, diz Crispim.
Uma das poucas comparações cabíveis entre os movimentos extremistas atuais e os do século passado, segundo o professor, é no modus operandi, que ajuda a identificar movimentos com as mesmas características. A busca ininterrupta do conflito, a ideia de um inimigo em comum, a violência, a não aceitação do diálogo, o corporativismo, são características marcantes dos movimentos políticos de extrema direita, independente do período da história. “Se fôssemos traçar um paralelo: no entreguerras no século XX a gente tem a ascensão do fascismo surfando na onda da crise da primeira guerra e agora você tem uma extrema direita surfando na onda da crise de 2008 e do liberalismo”, afirma Crispim
O contexto de ascensão do nazifascismo é completamente diferente do atual em que a extrema direita vem ascendendo. No século passado o modo em que a sociedade vivia era completamente diferente. Hoje, regidos pelo neoliberalismo e, desde o fim da década de 1970, se instaurou uma crise muito grande no sistema democrático liberal. Importante entender a influência do neoliberalismo para o aumento de discursos violentos, isso porque é uma ideologia que propõe a hipervalorização do individual em detrimento do coletivo. Não é por acaso o aumento de ideias anticoletivas, similares às da extrema direita. Com a aceitação maior do individualismo proposto pelo neoliberalismo, a banalização da violência se torna mais comum. Diversas guerras se iniciaram, eventos que são extremamente violentos se intensificam e a naturalização se torna mais presente quanto a essas práticas.
A materialização da ascensão dos movimentos extremistas de direita no Brasil é o bolsonarismo. Esse movimento não é uma novidade: o país passou pela fase dos eugenistas no século XIX e o integralismo no século XX que se assemelha muito ao atual movimento político. “Primeiro fato que temos que reconhecer do bolsonarismo é que se trata de um fenômeno de massa. Como qualquer fenômeno de massa e político ele tem de tudo - está presente no espaço urbano e rural, entre ricos e pobres e médios, ou seja, está presente em todo lugar,” explica Crispim. A figura de Bolsonaro se fez muito importante para a elite brasileira que controla as instituições, meios de comunicação e o capital brasileiro, e com isso conseguiu sua eleição em 2018, porém o movimento do bolsonarismo veio crescendo desde o impeachment de Dilma quatro anos antes.
A aceitação do discurso bolsonarista e de outros discursos extremistas têm uma explicação difícil, mas compreensível no contexto brasileiro. O Brasil é um país formado na escravidão e nos privilégios, e essas características ajudam a entender o motivo de discursos simplistas e radicais terem tanta atenção do povo. “Primeiro que o Brasil é, e sempre foi, um país muito violento e a pós-colonização e pós-escravidão não rompeu com nada, pelo contrário, só readaptou.” A gigantesca desigualdade social também facilita a aderência a discursos e políticas violentas. Milhões de brasileiros não têm acesso e garantia de seus direitos e o bolsonarismo se aproveita prometendo soluções simplistas para todos os problemas. “O bolsonarismo é a mistura de todos esses pontos: do processo histórico, das contradições, das soluções fáceis, de um ódio acumulado, de um país extremamente violento, principalmente com as mulheres. Não à toa o bolsonarismo tem o seu maior apoio entre homens”, descreve Crispim.
Desde a crise de 2008, a ascensão de políticas violentas e excludentes estão se perpetuando no mundo, e no Brasil não é diferente. Difícil ter uma previsibilidade quando se trata de história, porém a crise passará, o que vem após não é possível prever. “Eu sou da educação e se eu não acreditasse em mudança eu não estaria onde eu estou. Para mim a mudança vem pelo conhecimento, vem pela contramão dessa lógica. Vem pela organização coletiva, vem pelo diálogo, mesmo que isso não esteja com tantas aberturas”, expõe Crispim. O respeito e a aceitação do diferente é o primeiro passo para um mundo menos violento.