No arco-íris da arquibancada

O espaço da torcida LGBTQIAPN+ dentro dos estádios de futebol no Brasil
por
Gustavo Tonini
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20/10/2026 - 12h

 

“O futebol é uma manifestação cultural. É um elemento central para entender o comportamento da sociedade brasileira” começa o jornalista João Abel em seu livro Bicha! Homofobia estrutural no futebol. A pauta LGBTQIAPN+ vem ganhando mais visibilidade nos últimos anos no Brasil e no seu futebol. Alguns movimentos ajudaram a facilitar a entrada desse tipo de torcedor no estádio, como foi o caso do enquadramento da transfobia e homofobia na Lei de Racismo ou as ondas recentes de organização de coletivos da comunidade nos grandes clubes do país. Ao mesmo tempo, o último Anuário do Observatório da LGBTFOBIA no futebol feito pelo coletivo Canarinhos LGBT registrou que os casos desse tipo de preconceito vem crescendo nos últimos anos. 

Para entender como se dá os movimentos de torcida LGBTQIAPN+ no futebol, é primeiro necessário entender como um torcedor comum da comunidade atua no esporte. Para isso, foram escutados três torcedores de clubes entre as maiores torcidas do Brasil, Corinthians, São Paulo e Palmeiras. 

Para a torcedora do Corinthians, que se apresentou como uma mulher cisgênero lésbica e não quis se identificar, ela começou a torcer pelo Timão por conta do seu primo, que sempre mostrou muito de futebol para ela e isso acabou a influenciando. Ela também relata que raramente vai ao estádio ver os jogos da equipe, mesmo considerando que sempre se sentiu segura dentro dele.  

Já para Lucca Cassetari, torcedor do São Paulo, que se apresentou como homem trans e bissexual, sua torcida pelo Tricolor vem de toda sua família. Ele relata que, apesar de ir pouco ao estádio, sente uma forte atração pelo clima de união e de torcida que envolve ele. Porém, mesmo que nunca tenha se sentido atacado no estádio, reitera que “em estádio eu participo das convenções sociais e eu também não tenho nada que me revela ultimamente, então, acabo sempre passando despercebido”. Além disso, também pontua que não se sentiria confortável em ir ao estádio com sua namorada, que se apresenta como uma mulher trans, já que sente que esse espaço não é o mais acolhedor para as diferenças de sexualidade e de gênero. 

A entrada de pessoas trans no meio do futebol é particularmente mais difícil. Como explica João Abel, assim como a maioria das modalidades esportivas, ele funciona numa lógica binária de gênero, já havendo um impeditivo estrutural do esporte para que alguém que fuja dessa lógica. No esporte bretão essa situação se agrava justamente pelo fato de se caracterizar especificamente no gênero masculino. 

 

Foto meninos bom de bola
O instituto Meninos Bons de Bola possui o primeiro time de futebol formado somente por homens trans/ Foto: REPRODUÇÃO/Instagram/ @institutombb

 

Além disso, para o jornalista, a homofobia no futebol seria uma ramificação do sexismo que envolveu seu início masculino. Ele afirma que desde o princípio a prática do futebol era um ambiente masculino e masculinizante, feito por homens e consumidos por homens. Por isso, reitera “a ausência do feminino, do que se considera como feminino, que no caso é a presença da mulher, foi gerando uma aversão a qualquer coisa que fosse relacionada ao universo feminino” e, a partir disso, a homofobia. Com isso, esse preconceito a pessoas LGBTQIAPN+ no futebol, principalmente à homens gays, é encarado como um pretexto para acirrar rivalidades. “Você parte de um pressuposto de que o seu adversário é menos masculino de alguma forma e que isso seria algo ruim” reitera João Abel, e justamente por isso começa-se a atentar a qualquer aspecto que dê margem a esse pressuposto.  

Para Caíque Apolinário, torcedore do Palmeiras, que se apresentou como não-binário e bissexual, sua paixão pelo Verdão surgiu pelo pai e também pela conquista da Libertadores de 1999. Elu aponta que o ambiente em volta do estádio do time tem bares que são mais abertos à pessoas LGBTQIAPN+ e que sente mais segurança quando está com alguém conhecido. Mesmo assim, ainda há um receio de fazer demonstrações públicas de homoafetividade, já que é muito frequente que torcedores do mesmo time responsabilizam torcedores que as fazem como culpados de eventuais derrotas. 

Além disso, Caíque conta ainda que quando começou a acompanhar futebol, no final dos anos 90, em uma época de constantes brigas entre torcidas organizadas, que eram em grande parte televisionadas. Essa agressividade na torcida transbordava para seu ambiente escolar, que se tornava um espaço de comentários racistas e homofóbicos. Elu conta ainda que viu esse espaço se transportar para as redes sociais. Justamente procurando espaços de conversa sobre futebol sem essa toxicidade, que, em 2024, chegou ao coletivo da Porcoíris, onde atua hoje como parte da diretoria, ajudando na produção de conteúdo e gerenciamento da comunidade. 

A Porcoíris surgiu no início de 2019, por iniciativa do engenheiro João Victor. O coletivo surgiu como uma resposta à aparição do então presidente Jair Bolsonaro na comemoração do título brasileiro de 2018 da equipe alviverde, para impedir com que houvesse o risco de associar a imagem do clube à extrema-direita. Nos sete anos de atuação do coletivo, ele conta com estruturas organizadas na área jurídica e financeira, que servem para impedir que se associem a imagem do Palmeiras com movimentos extremistas de direita, principalmente o facismo ou à imagem de Mussolini.

De acordo com João Abel, a Porcoíris faz parte da terceira onda de torcidas ou coletivos LGBTQIAPN+ no Brasil. O jornalista conta que as ondas são separadas em três momentos de guinada conservadora no país. 

A primeira onda seria no final da década de 70 e início da década de 80, nos anos finais da Ditadura Militar no Brasil, quando surgiu a primeira e, a que talvez seja a maior, torcida gay da história do país, a Coligay. Torcida criada pelo produtor cultural e dono da boate Coliseu em Porto Alegre, Volmar Santos, para apoiar o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. Ela não só foi o primeiro coletivo LGBTQIAPN+ no Brasil, como foi também uma das primeiras torcidas organizada da equipe, sendo que João Abel a considera como embrião da futura Geral do Grêmio, principal torcida do time de hoje.

  

foto coligay
Coligay se tornou um talismã da equipe do Grêmio nos anos 70, sendo que no seu primeiro ano viu a equipe encerrar uma fila de 9 anos no campeonato gaúcho. Foto: DIVULGAÇÃO/ Coletivo Canarinhos Lgbt

 

A segunda onda seria em 2013, ano em que, de acordo com o jornalista, ocorreu o início da guinada conservadora nos últimos anos no Brasil. Época em que as redes sociais começaram a ganhar o poder para iniciar mobilizações presenciais. Justamente nesse período, foram criadas muitas páginas de coletivos LGBTQIAPN+ de times de futebol no Brasil, principalmente no Facebook e no Twitter. Um dos precursores desse movimento foi a página Galo Queer, do Atlético Mineiro, criada por Nathália Duarte, que, muito por conta de constantes ameaças, se restringia somente ao espaço das redes sociais.

A terceira onda, em 2019, seria quando houve de fato a virada conservadora iniciada em 2013, de acordo com João Abel, na eleição de Jair Bolsonaro à presidência. Além disso, esse período também marcou um episódio de grande repercussão na época, em que um torcedor gay do Palmeiras respondeu com ironia em suas redes sociais em relação aos cânticos homofóbicos da sua torcida à equipe do São Paulo. E também nesse período, a homofobia e a transfobia começaram a se enquadrar na Lei do Racismo (Lei nº 7.716/1989). Com isso, o número de coletivos LGBTQIAPN+ nas redes cresceu, como é o caso da Porcoíris, além de também surgir, no início de 2020 a LGBtricolor, torcida do Esporte Clube Bahia, que tem o costume de frequentar a Fonte Nova.

 

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Torcida LGBTricolor foi fundada em 2019 e possui mais de 600 membros, sendo hoje a maior torcida organizada LGBTQIAPN+ do Brasil – Foto: Reprodução/Floripa.LGBT

 

Além disso, em 2019 também surgiu o coletivo Canarinhos LGBTQ com o intuito de unir os coletivos da comunidade nas torcidas brasileiras. Essa união permite combate à LGBTfobia com ações, campanhas, iniciativas e sugestões de inclusão e diversidade. Além disso, como ressalta Caíque Apolinário, essa união é importante para aumentar a pressão sobre os clubes, principalmente para aqueles nos quais o coletivo ou a torcida LGBTQIAPN+ não possui força nem contato direto com o time e sua diretoria.

É justamente nessa terceira onda que surge a Porcoíris. Caíque afirma que o coletivo atua muito mais nas redes sociais, priorizando a produção de conteúdos educativos e a criação de ambientes saudáveis para discussão sobre futebol. Sendo que essa atuação digital permite que o coletivo quebre barreiras para conseguir o contato mais amplo com torcedores, além de permitir que vozes mais plurais sejam ouvidas. Ainda mais que o coletivo não tem conexão direta alguma com o clube ou a diretoria do Palmeiras, sendo que a bandeira do coletivo só apareceu uma vez exposta no estádio da equipe, em 2020, num duelo sem torcida contra o Atlético Mineiro.

 

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Bandeira da Porcoíris exposta no jogo/ Foto: Divulgação/ Porcoíris

 

Além disso, a Porcoíris é hoje o maior coletivo LGBTQIAPN+ no mundo, contando com 36 mil seguidores nas redes sociais. Ele reúne pessoas que vão diretamente ao estádio, pessoas que não possuem condições de ir neles e até pessoas que moram fora do Brasil. Cria-se então um ambiente de fato para torcedores de diversas realidades, mesmo que, de acordo com Caíque Apolinário, em um censo demográfico dentro do grupo de Whatsapp do coletivo, foi descoberto que a maioria dos integrantes sejam homens e mulheres cisgêneros e gays.

João Abel concorda com a importância das redes para esses coletivos, ainda reiterando que a presença de torcidas LGBTQIAPN+ no estádio ainda é um cenário em construção. De acordo com ele, isso ocorre pois a questão da homofobia é algo que ainda está muito atrasado no futebol. As punições para atos homofóbicos no futebol ainda não se de fato efetivas, “o máximo que você já teve foi um jogo com portões fechados”, reitera, nos principais times brasileiros, nenhum jogador se declarar homossexual, se isso ocorre é somente após sua aposentadoria, essa pauta nos esportes ainda é algo que possui momentos de protagonismo e de maior visibilidade, entre outros fatores.

O jornalista ainda faz uma comparação com a questão racial no futebol. Ele reitera “vai fazer 100 anos e só agora a gente entendeu que o racismo não é parte estrutural e cultural do futebol”, afirmando que desde a profissionalização do futebol no Brasil haviam jogadores negros atuando e somente em anos mais recentes a cultura no racismo foi adotado como algo inaceitável nos estádios. O futebol está muito intrincado na estrutural social do Brasil, com ainda o agravante de ser um esporte que nasceu da elite branca, cisgênero e heteronormativa, portanto é natural que as mudanças para sua abertura sejam gradativas. 

Além disso, João Abel ainda relata que alguns movimentos importantes já vêm ocorrendo para facilitar a entrada da pauta LGBTQIAPN+ no futebol fora de campo. Primeiro, nas redes sociais vêm crescendo o número de pessoas da comunidade que falam sobre futebol, incentivando uma naturalização da relação entre os dois. Segundo, sendo a homofobia uma ramificação do sexismo no futebol, ações como a do Atlético Mineiro, que relata quantas torcedoras mulheres têm no estádio, que abrem o mundo do futebol para além do masculino também contribuem para essa entrada.