Na sexta-feira (06), o 033 Rooftop, em São Paulo (SP), recebeu a estreia de “Gal – O Musical”, espetáculo que revisita a trajetória artística e humana de Gal Costa, um dos maiores nomes da música popular brasileira e figura central do movimento tropicalista. Com direção de Marília Toledo e Kleber Montanheiro, direção musical de Daniel Rocha e produção da Paris Cultural, a montagem segue em cartaz até 10 de maio, com ingressos que variam entre R$ 50 e R$ 300. A temporada integra as comemorações de dez anos do Teatro Santander e aposta em uma narrativa que combina memória, dramaturgia e espetáculo musical para apresentar ao público diferentes fases da carreira da artista.
No papel principal, a atriz Walerie Gondim assume o desafio de interpretar Gal, após um processo de audições que buscou uma artista capaz de reunir potência vocal, presença de palco e densidade dramática. A escolha priorizou não apenas a semelhança física ou vocal, mas a capacidade de transmitir a intensidade emocional que marcou a trajetória da cantora. O elenco conta ainda com atores e atrizes que interpretam personagens fundamentais na vida da artista, incluindo músicos, familiares e parceiros de geração. Cerca de 80% do grupo é formado por artistas nordestinos, decisão que reforça a conexão do espetáculo com as raízes baianas de Gal.
A matéria-prima do musical é a própria história da cantora. A narrativa parte da infância em Salvador (BA), quando Maria da Graça Costa Penna Burgos cresceu ouvindo rádio e desenvolvendo uma admiração precoce pela música. A relação com a mãe, Mariah, aparece como elemento estruturante do enredo, destacando o incentivo familiar que foi decisivo para a escolha da carreira artística. O espetáculo acompanha o momento em que a jovem decide deixar a Bahia e apostar na música profissionalmente, movimento que mudaria não apenas sua vida, mas a história da música brasileira.
O roteiro dedica espaço especial aos encontros e às amizades com Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gilberto Gil e Tom Zé. Unidos inicialmente por afinidades artísticas e inquietações estéticas, esses jovens baianos começaram a se apresentar no Teatro Vila Velha e deram origem a uma das experiências mais inovadoras da cultura brasileira do século XX. O tropicalismo surge na encenação como força criativa e também como ponto de tensão, já que o movimento enfrentou resistência tanto de setores conservadores quanto de parte da própria esquerda intelectual da época.

Ambientado no contexto da década de 1960, o musical recria o período da Ditadura Militar, quando a censura e a repressão atingiam artistas e intelectuais brasileiros. Nesse cenário, a arte tornou-se espaço de disputa simbólica e afirmação de liberdade. A participação de Gal no álbum coletivo “Tropicália ou Panis et Circensis” é apresentada como marco de ruptura estética. A obra sintetizou a proposta tropicalista de misturar tradição e modernidade, cultura popular e referências internacionais, consolidando uma nova linguagem musical.
A apresentação também aborda momentos delicados da vida da cantora, como a prisão e o exílio de parceiros artísticos durante o regime militar, além das pressões impostas pelo mercado fonográfico. O encontro com o empresário Guilherme Araújo aparece como ponto de inflexão na carreira, contribuindo para a consolidação de Gal como estrela nacional. Ao longo dos anos 1970 e 1980, ela ampliou seu repertório e dialogou com diferentes tendências, transitando entre baladas românticas, samba, pop e outras experimentações sonoras.
Os números musicais estruturam a narrativa e funcionam como fio condutor da história. O repertório inclui canções como “Baby”, “Divino, Maravilhoso”, “Vapor Barato”, “Força Estranha”, “Vaca Profana”, “Azul”, “Sorte”, “Brasil” e “Balancê”, entre outras. Cada música surge contextualizada, evidenciando como determinadas interpretações dialogavam com o momento político e cultural do país. A proposta dramatúrgica busca evitar uma simples sequência de sucessos e constrói uma linha narrativa que relaciona as canções aos conflitos e às transformações vividas pela artista.
Visualmente, o espetáculo investe em uma estética que remete ao clima psicodélico das décadas de 1960 e 1970. Figurinos coloridos, cabelos soltos e referências à moda tropicalista compõem a ambientação, enquanto projeções audiovisuais ajudam a situar o público nos diferentes períodos retratados. A banda ao vivo reforça o caráter performático da montagem, aproximando o espectador da experiência de um show. Ao mesmo tempo, cenas mais intimistas revelam fragilidades, dúvidas e dilemas pessoais da compositora, ampliando o retrato para além da figura pública.
Vida da artista
Nascida em Salvador, em 26 de setembro de 1945, Gal Costa construiu uma carreira marcada pela versatilidade e pela capacidade de reinvenção. Dona de voz potente e timbre inconfundível, tornou-se referência como intérprete capaz de transitar entre delicadeza e explosão dramática. Ao longo de mais de cinco décadas, lançou dezenas de álbuns, colaborou com diferentes gerações de compositores e consolidou-se como uma das maiores vozes da música brasileira. Sua presença de palco, marcada por liberdade corporal e ousadia estética, também contribuiu para ampliar as possibilidades de representação feminina na cultura popular.
Além da dimensão artística, Gal tornou-se símbolo de emancipação e autonomia em um período de forte conservadorismo. Sua postura diante da censura, defesa da liberdade criativa e recusa em se enquadrar em padrões rígidos, ajudaram a redefinir o papel da mulher na indústria musical.

Gal faleceu em novembro de 2022, deixando um legado que permanece vivo no repertório afetivo de diferentes gerações.
Ao retornar aos palcos por meio de “Gal – O Musical”, sua trajetória ganha nova camada de interpretação, conectando memória e atualidade. A produção propõe não apenas uma homenagem, mas uma reflexão sobre o papel transformador da arte em contextos de crise.
Ao revisitar a história de uma artista que atravessou décadas, o musical reafirma a importância de preservar a memória musical brasileira e convida o público a reconhecer na trajetória de Gal Costa não apenas uma cantora, mas um símbolo de resistência, inovação e liberdade.