O Museu das Favelas sedia a exposição “Imaginação Radical: 100 anos de Frantz Fanon”, desde novembro de 2025. A mostra, que tem entrada gratuita, comemora o centenário do médico, psiquiatra, intelectual e ativista que marcou o século XX como pensador de temas como raça, colonialismo e subjetividade. A exibição também comemora o aniversário de três anos do museu, e fez parte da programação do mês da consciência negra.
Com direção artística e curadoria de Thais de Menezes e curadoria institucional de Jairo Malta, a exposição tem como fio condutor a influência do pensamento de Fanon. São 130 obras que propõem um diálogo entre o legado do psiquiatra e a arte contemporânea Elas abordam temas como identidade, luta política, memória coletiva e construção de futuro a partir das experiências periféricas e das diásporas negras.
A exposição é dividida em 4 eixos temáticos: identidade, corpo, território e sonho, e convida o público a refletir sobre a imaginação como prática radical de transformação da realidade. Para Fanon, os povos historicamente marginalizados precisam assumir a própria narrativa como forma de recuperar sua humanidade e dignidade.

Os 40 artistas convidados são provenientes de territórios diversos, como Brasil, Colômbia, Argélia, Angola, Bolívia e Venezuela, e abarca nomes como Albarte, Ana Paula Sirino, Nenesurreal, Espejismo, Génova Alvarado e Samu Artes. Essa articulação do Museu das Favelas com outras instituições culturais estrangeiras marca o início de um processo de internacionalização do Museu.
A exposição fica aberta até 24 de maio de 2026, de terça a domingo, das 10h às 17h, no Museu das Favelas, localizado no Largo Páteo do Colégio, 148, Centro Histórico de São Paulo. A entrada é gratuita mediante retirada antecipada dos ingressos pelo aplicativo Sympla ou na recepção do museu.


Quem foi Frantz Fanon
Frantz Omar Fanon foi um psiquiatra e filósofo das Antilhas Francesas, que exerceu expressiva influência dos estudos pós-coloniais e em temas como raça, subjetividade e a psique humana. O médico nasceu em 20 de julho de 1925 na Martinica, território caribenho sob colonização francesa à época. Filho de Eléanore Médélice e Casimir Fanon, que ocupava um cargo na administração da ilha, Frantz estudou no colégio Lycée Schoelcher, onde teve aulas com intelectuais como Aimé Césaire, e teve contato com estudos sobre o movimento negro e o marxismo anticolonial.

Aos 20 anos, Fanon alistou-se ao exército francês para combater o nazismo durante a Segunda Guerra Mundial, onde foi profundamente marcado por experiências discriminatórias no front, e constatou que, para os franceses, ele não era um cidadão, mas sim “um negro". Ferido em combate, retorna a sua terra natal como veterano de guerra.
Iniciou estudos de odontologia em Paris, mas abandonou devido ao racismo vivido. Passou, então, a estudar medicina psiquiátrica em Lyon, onde entrou em contato com o pensamento de intelectuais como Marx, Hegel, Lacan, Sartre e Simone de Beauvoir. Seu trabalho de conclusão do curso, “Ensaio sobre a dimensão do negro”, e rejeitado por ser considerado inapropriado e, posteriormente, publicado independentemente como “Pele Negra, Máscaras Brancas”, um dos estudos mais relevantes sobre a operação e as consequências do racismo.
Em 1953, iniciou a residência médica com o psiquiatra François Tosquelles, e escreveu diversos artigos sobre humanização do cuidado em saúde mental. Tornou-se chefe do hospital psiquiátrico de Blida-Joinville, na Argélia, onde continuou praticando uma psiquiatria descolonizante e humanizada.
Com o aumento da repressão francesa à revolucionários, Fanon passa a ser perseguido, e é obrigado a desligar-se do hospital onde trabalhava. Mudou-se para a Tunísia com a sua família, onde engaja na Revolução Argelina, atuando como psiquiatra e colunista anônimo do jornal El Moudjahid, órgão da Frente de Libertação Nacional.
Ele participou ativamente de fóruns pan-africanistas e atuou como embaixador do governo provisório da República da Argélia para os países da África Subsaariana, como tentativa de articular uma resposta continental unificada ao colonialismo. Seguiu atuando na psiquiatria até descobrir uma leucemia, aos 36 anos, quando decidiu pausar sua carreira para escrever sua última obra, “Os Condenados da Terra" (1961). Fanon morreu em 1961, nos Estados Unidos, um ano antes da Argélia consolidar seu processo de independência da França.