A arbitragem chegou no Brasil ao mesmo momento do futebol, em 1894, por Charles Miller, brasileiro que retornou da Inglaterra com bolas, uniforme e o livro de regras, surgindo para dar cumprimento ao escrito no mesmo. A função do árbitro é controlar o tempo de partida, uso correto dos cartões e validar os gols, agindo de forma imparcial no jogo em que se apita.
Para as mulheres no cenário futebolístico, a trajetória é marcada por proibições, barreiras de diferenças de gênero e é atemporal, havendo registros, em 1972, em estudos de Da Silva e Rodriguez-Anez, de arbitragem feminina dentro do futebol de rua. Em 1941, durante o Estado Novo, o governo de Getúlio Vargas, foi oficializado em 14 de abril, o Decreto-Lei número 3.199, em que proibia as mulheres no futebol brasileiro. Evidenciado no artigo 54 que não deveriam praticar esportes “incompatíveis com as condições de sua natureza”, baseado em discursos médicos que consideravam o futebol prejudicial à fisiologia feminina e a maternidade, dificultando o caminho a ser percorrido pelas mulheres de apito.
O pioneirismo da arbitragem feminina começa com Léa Campos, presa mais de 15 vezes por lutar pelo direito das mulheres dentro do futebol. Nascida em Belo Horizonte, desde pequena, intrigava ao brincar com uma bola de meia e jogava com os colegas na escola. Em entrevista ao museu do futebol, a mineira diz que jogava durante o intervalo com os meninos, o que fazia a diretora implicar que não era permitido, e insistia para ela brincar com as meninas.
Léa frequentou concursos de canto, artes dramáticas e poesia. Com essas habilidades, começou a participar de competições de “Rainhas”, sendo reconhecida na imprensa e passou a utilizar de sua popularidade para o campo político. Sua primeira opção de carreira foi o jornalismo, se destacando no campo esportivo, o que aumentou sua visibilidade na área futebolística. Apesar da proibição pelo governo Vargas, a mineira fez o curso de arbitragem, justificando que a lei não dizia nada sobre apitar no futebol, e recebendo seu diploma 4 anos depois, após avaliações médicas, recolhimento de assinaturas apoiantes, entrevistas e furo na imprensa esportiva. Sua primeira partida foi Itália contra México, no II mundial feminino, dando início à carreira da primeira árbitra feminina na história do futebol.
Após Léa, muitas foram encorajadas à entrar no campo da arbitragem. Ainda sim, dentro do campo, as mulheres são consideradas pouco aptas e muito criticadas por não estarem em um “lugar de mulher”.
Os preconceitos em relação às mulheres no futebol são gerados por pensamentos misóginos, no qual traz a idéia de incompetência e fragilidade, se fundamentando pela diferença biológica entre os gêneros, e de que o homem é superior em muitos aspectos, principalmente o físico.
Um episódio que remete ao preconceito enraizado na sociedade ocorreu em 2024, quando a Copa Betano do Brasil anunciou uma arbitragem em um jogo masculino, Fluminense e Sampaio Corrêa, só com mulheres. Os comentários tem cunho misógino, ressaltando o absurdo que pensam que é ter figuras femininas como juízas nesse jogo. Na postagem feita no instagram, 235 comentários insinuam que futebol não é coisa para mulheres, e que essas árbitras, em especial a Edna Alves(FIFA-SP), não deveriam apitar o jogo.
Em entrevista, a árbitra Charly Deretti diz que a maior dificuldade dentro do campo da arbitragem foi conquistar o respeito no início “A cobrança para as mulheres é maior e vem, na maioria dos casos, acompanhada de misoginia”. Charly finaliza dizendo que, cada vez mais mulheres entram para a área de arbitragem no futebol, e que a igualdade vem quando o critério da competência ultrapassa o preconceito enraizado na sociedade.
O Museu do Futebol mostra em sua exposição vitalícia o caminho percorrido pelas mulheres árbitras no futebol, e ressalta a luta que ainda passam para conquistar seu lugar.