Morto há 40 anos, Glauber Rocha foi o crítico que o Brasil não podia ter perdido tão cedo

Além do cinema, o diretor teve uma visão única em questionar o comportamento social
por
Carlos Gonçalves
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15/05/2021 - 12h

     Cineasta, escritor e questionador social, Glauber Rocha foi um dos fundadores do movimento chamado cinema novo, sendo um dos cineastas brasileiros mais premiados internacionalmente. Nascido em Vitória da Conquista, Bahia, presenciou a realidade de um Brasil marginal, onde a cultura brasileira era esquecida e sufocada pela modernidade externa. Com um viés crítico, Glauber quis descolonizar a visão glamourizada do cinema internacional, abrindo os olhos para a realidade de um país de “terceiro mundo”, mostrando a violência do nosso país, a loucura e a desigualdade. No início da carreira, foi influenciado pelo expressionismo alemão, pelo concretismo brasileiro e pelo cinema soviético. Futuramente, influenciado pelo neorrealismo italiano e pelo cinema francês “nouvelle vague”, o diretor da vanguarda foi adotando características mais dinâmicas para a sua filmagem. Utilizando uma forma livre de direção, quebrando padrões coloquiais da filmagem; como a abdicação do tripé, que resultou em uma filmagem mais livre e rápida. Ao romper com os padrões acadêmicos de filmagem, ele pôde gradualmente criar a sua própria forma de fazer cinema, fazendo tomadas em movimento que conseguiram captar de forma expressiva a violência de uma cena ou descobrir novos ângulos até então questionáveis. Para Glauber, valia tudo para chocar o espectador, arrancando-o do conforto de filmes alienantes da época (chanchadas) e jogando-o na realidade amarga de um país violento, sufocado por uma ditadura silenciosa.

     Na década de 1960, com o surgimento de um novo movimento latino-americano voltado para as preocupações sociais, que virava as costas para a influência cultural norte americana e europeia, o cinema novo tornou-se a vanguarda desta nova forma de questionar. Mostrando aos cidadãos brasileiros a realidade do seu país que estava em efervescência industrial, porém ainda com alta discrepância nos quesitos socioeconômicos como um todo. Em seus filmes, Glauber retratou os conflitos que abalavam (e ainda abalam) o Brasil. O cinema novo tinha como uma de suas características usar alegorias, expressando de forma indireta símbolos ou cenas para representar uma ideia; o que gerava no público em geral um certo estranhamento, por não entenderem exatamente o que fora proposto. Glauber, por ser um dos maiores adeptos do movimento, acabou criando uma forma de linguagem visual singular, esteticamente livre. Pela falta de recursos na época, a única saída era ser criativo nas filmagens e tentar retratar certas cenas que são mais complexas em cenas mais curtas ou simbólicas, deixando a parte da compreensão subentendida ao receptor. Por ter utilizado uma linguagem mais livre, certas formatações técnicas foram abandonadas; acarretando filmes sem um padrão específico, o que dificultava a compreensão de quem assistia. Incompreendido pelos seus métodos, o diretor tinha como objetivo levar a reflexão em seus filmes, cutucando especialmente a região sudeste sobre a pobreza do nordeste. Mostrando através de uma direção engajada, preocupada com a sociedade e a cultura brasileira; tentando abrir os olhos de quem vivia em uma bolha cultural influenciada somente pelos modismos internacionais.

     Encabeçado pelo Glauber, surgiu em 1965 o manifesto “Uma estética da fome”, o texto apresentava um projeto artístico que visava utilizar o cinema como ferramenta de mudança social e não somente como denúncia. Indo além de somente representar os temas da miséria e da violência sobre uma visão cinematográfica, e sim criar uma comunicação verdadeira com o tema. Para Glauber, a arte produzida até então, não comunicava a verdadeira miséria vivida pelo seu povo ao espectador, e nem o estrangeiro conseguiria compreendê-la verdadeiramente. Sendo a única comunicação composta por mentiras elaboradas da verdade, como os exotismos formais que vulgarizavam os problemas sociais e que apenas satisfaziam a nostalgia do primitivismo para o observador europeu. De forma intensa, o pensamento do diretor foi se tornando cada vez mais politizado e alinhado com os partidos de esquerda; sendo considerado na época o movimento cinematográfico mais político da América Latina.

     Sob a inspiração do cinema de guerrilha como forma de protesto, Glauber lança o longa “Terra em Transe” em 1967, que fazia clara referência a política ditatorial brasileira. O filme retratava um país fictício da América Latina sob uma convulsão política interna, onde um tecnocrata conservador busca pela conquista do poder; o filme foi proibido pela censura do governo brasileiro por ser considerado subversivo. A sua fama como diretor crítico crescia internacionalmente, onde a cada entrevista concedida a veículos de imprensas internacionais, Glauber fazia questão de questionar o regime militar brasileiro e toda corrupção que nele havia, além da crescente censura na imprensa e no audiovisual. O que fez dele um dos líderes mais famosos do movimento da esquerda; tornando-se marcado, viver no Brasil era sentir-se constantemente vigiado. Com a intensificação da perseguição aos opositores do regime, e por estar se tornando um símbolo subversivo, Glauber partiu para o exílio em 1971, passando por diversos países, não retornando de forma permanente ao país natal. Porém, mesmo estando exilado, o regime militar tinha a intenção de matar Glauber. É o que diz o relatório revelado em 2014 pela Comissão da Verdade, que indica que havia um plano de matar o diretor que se encontrava exilado em Portugal. O relatório que foi produzido pela aeronáutica, descreve Glauber como um dos líderes da esquerda brasileira e sendo considerado graças a sua visão crítica, um “violento ataque ao país”. Segundo a sua filha, Paloma Rocha, o relatório confirma o que seu pai sempre lhe disse, que era um perseguido político.

     Morto em 1981 com somente 42 anos, vítima de septicemia (provocado por uma broncopneumonia que o atacava há mais de um mês), Glauber nos deixou um vácuo. Projetos e pensamentos que ainda precisavam de mais algumas décadas do seu criador para tomar forma. Onde teria mais força para chocar essa sociedade que sofre de ausência cultural, que está à deriva, alienada das suas origens. O Brasil precisa mais do que críticos, precisa de críticos com coragem, que falam o que pensam, que confrontam, que se auto-afirmam. Glauber entendeu cedo a dinâmica da comunicação do nosso país: não é somente com uma conversa técnica que vamos resolver os nossos impasses seculares, é preciso pôr um pouco mais de energia em nossas atitudes para conseguirmos mudar. É arriscar a própria vida em nome de todos, de ser marcado para morrer e continuar mordendo, sem parar. Nesta batalha sobre perdas, lutos e censuras, quem perde é o “Brasil cultural”, e não o Glauber. Somos nós que precisamos dele e de suas inspirações, e não o contrário.

“Onde houver um cineasta disposto a filmar a verdade, e a enfrentar os padrões hipócritas e policialescos da censura intelectual, aí haverá um germe vivo do Cinema Novo. Onde houver um cineasta disposto a enfrentar o comercialismo, a exploração, a pornografia, o tecnicismo, aí haverá um germe do Cinema Novo. Onde houver um cineasta, de qualquer idade ou de qualquer procedência, pronto a pôr seu cinema e sua profissão a serviço das causas importantes de seu tempo, aí haverá um germe do Cinema Novo.”

– Glauber Rocha

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