Moradia está cada dia mais inacessível

Financeirização do mercado imobiliário, a visão de imóveis como propriedades mais seguras e ações do próprio governo dificultam acesso à moradia digna
por
Henrique Silva Rodrigues
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28/11/2025 - 12h

Por Henrique Silva Rodrigues

Quem navega pela Internet com frequência provavelmente já se deparou com memes comparando a geração de jovens atuais com os pais quando tinham a mesma idade. Enquanto os genitores aparecem como proprietários de casa própria e com família já formada aos na casa dos 20, a geração seguinte é apresentada com pouquíssimas chances de conseguir o próprio imóvel. Apesar do tom de gozação, é fato que o valor para financiar uma residência cresce em um ritmo mais rápido do que nossos salários podem acompanhar. 

Segundo dados da FipeZAP, os preços de imóveis em São Paulo subiram em 192% entre 2005 e 2014, e dados do primeiro semestre de 2025 apresentam crescimento de 3,33%, maior do que o crescimento da inflação no mesmo período, que foi de 3,06%. O que estes dados comprovam é que o valor de mercado deste segmento cresce exponencialmente, assim como a dificuldade de alcançar o sonho da casa própria. 

Os preços dos aluguéis cresceram em um percentual ainda maior, tendo elevado seu custo em 5,6%, como mostra o Índice de Localização Residencial, também da FipeZAP, que analisou 35 cidades, das quais 34 apresentaram elevação nos preços. Portanto, não importa em qual aspecto foquemos, ter um teto sobre a cabeça está cada dia mais caro e a tendência é que isso continue. 

O resultado é uma crise habitacional com um número cada vez maior de famílias lutando para ter onde morar. O Mapeamento Nacional de Conflitos Pela Terra e Moradia, divulgado pela Campanha Despejo Zero, que mapeia conflitos habitacionais desde 2020, registrou um total de 2.098.948 de pessoas impactadas de alguma forma pela questão do despejo e remoção forçada em território nacional nos últimos cinco anos. Os dados atuais são de 437.455 de famílias sob ameaça, 62.381 que foram efetivamente despejadas, e 107.356 casos de famílias com despejos suspensos. 

Matheus é um dos vários casos de pessoas que tiveram de sair de suas moradias por não serem capazes de sustentar o preço dos aluguéis. Ele relata que trabalhava de manobrista em escala 6x1 e em bicos que conseguia em eventos e que, na época, pagava cerca de 1000 reais de aluguel em um quarto com banheiro. O gasto com a moradia drenava sozinho a maior parte de sua renda, nas palavras dele: “tinha dinheiro somente para pagar o aluguel”. Insatisfeito com a situação, decidiu sair do emprego e alugar um carro para trabalhar como motorista de aplicativo, mas não calculou direito o dinheiro que receberia e não conseguiu concluir o plano. Precisou pedir ajuda de parentes e amigos próximos para conseguir o veículo, o que fez com que demorasse para juntar o dinheiro que devia. Após conflitos com a proprietária pela longa demora em pagar o aluguel, foi expulso de onde habitava e buscou um quarto menor com mensalidades mais baixas para conseguir se estabilizar. 

Isso aconteceu em São Paulo, onde se concentram a maioria dos casos. Foram, somente neste estado, 160.092 de ameaças e 17.274 despejos na última meia década. A situação do entrevistado é uma realidade cada dia mais próxima para grande parte dos brasileiros. A valorização imobiliária faz com que os proprietários ajustem o preço cobrado nos aluguéis nas renovações de contratos, mas, muitas vezes, o salário dos inquilinos não consegue acompanhar essa subida. 

A professora da USP Maria Camila Loffredo D’Ottaviano, Arquiteta e Urbanista, mestre em Estruturas Ambientais Urbanas e doutora em HABITAT/Arquitetura e Urbanismo, explica que um dos motivos dessa valorização é o fato dos imóveis serem vistos como uma espécie de garantia, algo que não pode ser retirado de você. Ela conta que, desde algumas gerações passadas, ter um segundo imóvel para gerar renda extra, assim como ser algo a se deixar de herança para seus filhos, é alvo de interesse da maioria das pessoas. Essa visão de que a propriedade imobiliária é a forma mais segura de guardar seu dinheiro foi reforçada pelo congelamento de contas bancárias e poupanças em 16 de março de 1990, medida tomada por Fernando Collor de Mello um dia após sua posse presidencial para tentar combater a hiperinflação. 

Outro motivo para essa valorização o imóvel passando a ser visto como um ativo do ponto de vista financeiro e fundos imobiliários recebendo um grande volume de dinheiro. Com a chegada de grandes construtoras que estavam inseridas na bolsa de valores. Sendo empresas de capital aberto, com suas ações a venda no mercado, era necessário gerar lucro e retorno para seus acionistas, fazendo com que elas comprassem grandes volumes de terra para construções imobiliárias, gerando seus dividendos através delas. A professora conta que esse processo é recente, tendo iniciado há cerca de 20 anos atrás. 

Este setor entrou em crise em 2008, devido ao estouro da bolha do mercado imobiliário nos Estados Unidos da América, o que acabou afetando o mundo todo. Daí surgiu o programa Minha Casa Minha Vida, que Loffredo caracteriza como anticíclico, isto é, uma medida que visa combater os efeitos de ciclos econômicos. Tendo sido originado no segundo governo Lula, o governo federal investia dinheiro do FGTS e do Orçamento Geral da União para a produção de moradias para famílias de diversas faixas de renda, mantendo o mercado da construção civil aquecido, o que garantia emprego para muitas pessoas desqualificadas, ocasionando em um ganho bilateral de diminuição do desemprego e grandes lucros para estas construtoras. O investimento no setor foi especialmente grande no fim da segunda gestão Lula e no primeiro governo da Dilma. 

Em São Paulo, vivemos uma lógica diferente. Houve uma revisão do plano diretor, que incentivou o adensamento das construções em vias com corredores de ônibus e proximidade às linhas de metrô, permitindo acesso facilitado de mais moradores ao transporte público. Isto porque parte destas moradias deveriam se encaixar na categoria de HIS, habitação de interesse social, que possui algumas condições especiais, dentre elas, não poderiam ter garagem. Isto deveria garantir um maior volume de construções e diminuição no preço de moradias. Porém, na prática, o que acontece é que a maioria dessas moradias acabaram se tornando quitinetes e que muitos prédios inteiros são comprados por um único investidor para serem alugados, muitos deles em curta temporada, no estilo de Airbnb. 

Além disso, muitas famílias acabam sendo expulsas de comunidades por um processo de “higienização”. A doutora D’Ottaviano cita a remoção forçada de famílias da Favela do Moinho como exemplo. Ela diz que o interesse não é em construir na área atualmente ocupada pela favela, especialmente pelo fato dela se encontrar ao longo da linha do trem, portanto, ninguém teria interesse em realizar obras no local. O que acontece é que, enquanto a favela estiver lá, a área ao redor não vai possuir valor de mercado. O governo do Tarcísio de Freitas pretende estender a sede administrativa do governo para a Praça da Princesa Isabel, que fica a menos de um quilômetro da favela, onde eles pretendem fazer uma “limpeza” para a construção de um parque, “revitalizando” a região. 

A Favela do Moinho persiste e resiste à remoção forçada, com diversos protestos sendo promovidos pelos moradores sendo reprimidos violentamente pelas forças policiais. Os moradores dessa comunidade lutam pelo acesso à moradia contra o governo do mesmo país que garante acesso à moradia como um direito básico em sua constituição.