A mística do galinho: conversa com o diretor João Wainer

O filme "Zico, o samurai de Quintino" estreia nos cinemas de todo o Brasil
por
Manoella Marinho e Joana Prando
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27/04/2026 - 12h

"Zico, o samurai de Quintino" estreia nos cinemas. Em entrevista à AGEMT, João Wainer, diretor do filme, conta um pouco mais sobre como foi realizar essa obra intimista sobre o eterno galinho. O jornalista e diretor do filme conta como conseguiu equilibrar esse lado do "galinho de Quintino", o lado mais humano de Zico, com o "Samurai", esse grande guerreiro jogador, sem que caísse no clichê das biografias que enfatizam a doutrinação e a idolatria. De acordo com Wainer, a trajetória de Zico parece transcender o esporte. Ele revelou uma "teoria maluca" que guiou o arco narrativo do filme: a de que o craque seria a reencarnação de um samurai do século passado. "Ele teria reencarnado em Quintino, com a missão de aprender o futebol naquela família de jogadores para, depois, levá-lo de volta para sua 'casa', no Japão", explica Wainer.

Para o diretor, isso explicaria a conexão imediata do ídolo com a disciplina japonesa: "Por pior que fosse o futebol [na época], o espírito dele ficou em paz, porque lá as pessoas pensam e jogam coletivamente". No decorrer do filme, é possível observar diversas faces do “galinho”. Wainer também conta como conseguiu captar a essência do jogador e o lado mais íntimo e pessoal de Zico, "Em princípio quando você fala de um jogador de futebol você pensa nos gols, na trajetória esportiva. Mas a gente foi entendendo aos poucos que o Zico é uma figura muito ímpar. É um cara que transita muito bem entre esses dois campos, que é o do talento, da criatividade, da surpresa, enfim, da ginga, e o campo da disciplina, da coisa dos horários, a coisa do jogo coletivo. O filme meio que foi se desenhando de um jeito em que a gente foi percebendo que o Zico é essa mistura de japonês com carioca", brinca Wainer.  

A narrativa audiovisual vai acompanhando uma espécie de linha do tempo do futebol na vida de Zico, desde como ele foi parar no Flamengo, até o momento em que ele é chamado para jogar no Japão e termina com Zico no time que sempre desejou para encerrar sua vida profissional, o Flamengo. Dentro dessa linha do tempo, o filme vai contando sobre os detalhes mais intimistas da vida de Zico a parte além do futebol que ninguém conhece: desafios que teve que enfrentar, os medos, as angústias, as paixões, detalhes sobre sua família, sua relação com seus filhos, com sua mulher. O filme apresenta o lado humano, o lado do galinho, do morador de Quintino. "Eu sabia que se eu colocasse o Ronaldo e o Paulo Cesar Carpegiani ou, sei lá, que se eu pegasse o Júnior e o Paulo Cesar Carpegiani e deixasse a camisa de 81 à mostra, obviamente que eles iam pegar aquela camisa e iam comentar alguma coisa. Ou que o Ronaldo ia pegar a camisa de 78, ou algum outro objeto. Então a gente deixava esses objetos meio como gatilhos para construção da cena", detalha Wainer um pouco sobre o processo de filmagem. 

O jogador sempre foi conhecido por ser uma figura bem reservada. Wainer contou como fez para conseguir atravessar essa "armadura" de Zico e conseguir capturar momentos de vulnerabilidade do jogador. "O Zico tem características muito particulares, mas quando você chega com calma, respeito e humildade, ele se abre. Foi um processo de ganhar não só a confiança dele, mas de toda a família e das pessoas em volta. Isso é fundamental em qualquer documentário: quando ele percebeu que sabíamos o que estávamos fazendo, se soltou" 

Foto/ Reprodução: Heloiza Daou via Instagram @helodaou. Jogador Zico ao lado do diretor João Wainer na pré estreia do filme “Zico, o Samurai de Quintino” 15.04.2026
Foto/Reprodução: Heloiza Daou via Instagram @helodaou. Jogador Zico ao lado do diretor João Wainer na pré estreia do filme “Zico, o Samurai de Quintino” 15.04.2026 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Atualmente, muitos documentários esportivos são produzidos por grandes clubes e marcas. João ressalta que em um mundo de documentários biográficos, há uma dificuldade de conseguir conquistar uma independência ao contar as histórias do jeito que elas acontecem. "No caso do Zico, eu acho que é o melhor dos mundos, porque a gente tinha a autorização dele, a gente tinha a colaboração dele, mas em nenhum momento ele quis interferir, ele quis definir o que poderia e o que não poderia ser dito, qual que deveria ser o corte final. Quando ele viu, já estava pronto. Então, esse eu acho que é o melhor dos mundos", ressalta Wainer. 

Em um cenário onde o fluxo de informação é constante e, muitas vezes, efêmero, dar atenção a figuras como Zico é também um posicionamento cultural, o de não permitir que trajetórias fundamentais se percam no esquecimento. Ao revisitar essas histórias, o cinema contribui para reafirmar o valor do esporte enquanto linguagem social, capaz de atravessar contextos e inspirar novos percursos, não como promessa idealizada, mas como evidência concreta de caminhos possíveis. 

Foto de capa: Joana Prando