A objetificação da mulher não é um fenômeno novo, mas sua naturalização ao longo do tempo revela como estruturas culturais, sociais e midiáticas continuam reforçando padrões que reduzem mulheres a seus corpos.
“Em cada época, o papel que o patriarcado limitou à mulher sempre foi muito claro: não aparecia […] e quando apareceu, foi no contexto de serviço ao homem: dona de casa ou objeto de desejo” afirma a ativista Luciana Oliveira. Historicamente, a imagem feminina foi construída a partir de perspectivas masculinas, priorizando a aparência em detrimento da subjetividade. Desde pinturas clássicas até campanhas publicitárias do século XX, o corpo da mulher foi retratado como objeto de contemplação e desejo. Esse padrão mostra como a sociedade moldou a forma como mulheres são vistas e tratadas.
Com a popularização da televisão, essa representação de cunho sexual passou a ser mais facilmente acessada. Um exemplo marcante dessa cultura no Brasil foi a Banheira do Gugu, exibida nos anos 1990 e início dos 2000. No quadro, mulheres eram colocadas em situações de exposição corporal em rede nacional e, na época, o formato era amplamente aceito e popular.
Na cultura pop, essa dinâmica aparece na forma como as atrizes são tratadas e os trabalhos que são oferecidos a elas. A atriz americana Sydney Sweeney é uma das figuras atuais que mais geram discurso sobre esse assunto, tanto pelo seus papéis em filmes e séries, quanto pelas publicidades que usam sua aparência para fazer vendas, como seu anúncio da American Eagle que ganhou popularidade por focar no seu corpo e um discurso de “bons genes”. Sweeney já falou publicamente sobre sua constante sexualização em Hollywood, e apesar de sua filmografia extensa, atuando como personagens cativantes em obras como “O Conto da Aia”, “Imaculada” e “Everything Sucks!”, a recepção do público sempre destaca sua aparência.
A série Euphoria já explorava a hipersexualização de suas atrizes desde a primeira temporada, com uso excessivo de nudez desnecessária para o seu desenvolvimento narrativo. Na terceira, lançada em 2026, ela se tornou o arco primário das personagens. Cassie (Sydney Sweeney) passa a produzir conteúdo pornográfico na plataforma Onlyfans, usando lingeries da marca da própria atriz, com peças que remetem a animais e vestimentas infantis. Essa exposição deixa de ser apenas “expressão artística”, o que gera debates sobre até que ponto a série critica ou reproduz essa objetificação como uma ferramenta para gerar maior exposição.
Oliveira discute que a redução dessa normalização exige mudanças estruturais dentro da mídia e da política, defendendo a regulação de conteúdos na internet e maior participação de mulheres em cargos importantes em empresas de comunicação e na política. Ela evidencia como a objetificação não está ligada apenas ao entretenimento, mas também às estruturas de poder que controlam os meios de comunicação e influenciam os padrões reproduzidos socialmente.
Outro ponto importante é o Funk, que embora seja um espaço de expressão, identidade e resistência pelo seu papel na cultura negra e forte presença na vivência brasileira, têm um subgênero que faz apologia ao estupro e à pedofilia, à violência contra a mulher e a sexualização do seu corpo. Assim ele se torna alvo de debates sobre a forma como mulheres são retratadas em letras, videoclipes e performances. “O funk é uma expressão cultural negra, diaspórica, fundamental e importante. Agora, quando ele é capturado para uma lógica misógina, a gente tem que denunciar, a gente tem que dizer não”, afirma a professora e escritora Rosane Borges.
Antes a objetificação estava mais restrita à televisão e à publicidade, hoje ela se amplia nas redes sociais, onde a exposição constante e a busca por validação reforçam padrões estéticos. Jovens mulheres passam a lidar com uma pressão contínua para se enquadrar em expectativas visuais, perpetuando um ciclo que atravessa o tempo. A objetificação, não se limita à estética, ela impacta oportunidades, autoestima e até mesmo a forma como são ouvidas em espaços públicos.
A psicóloga Ana Beatriz Chamati enfatiza que quando mulheres são retratadas pela materialidade e sexualidade e não por sua essência, é reforçada a ideia que existe um papel social específico que deve ser ocupado por elas. “Então, eu acho que estabelece [essa ideia] especialmente pensando em homens que vão manter todo esse pensamento patriarcal”, diz Chamati a respeito do impacto do consumo desse tipo de conteúdo na forma que homens veêm mulheres.