“Michael” divide opiniões entre público e críticos

Protagonizado pelo sobrinho do cantor, o longa celebra o legado do artista e aposta na nostalgia para conquistar os espectadores
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Mariana Araujo Correia
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29/04/2026 - 12h

A cinebiografia de Michael Jackson estreou nesta quinta-feira (23). “Michael”, dirigido por Antoine Fuqua e produzido por Graham King (conhecido pela produção de Bohemian Rhapsody), tem duração de pouco mais de duas horas e aborda a trajetória do cantor desde o início do grupo Jackson Five até a apresentação do álbum “Bad”, em 1988. Cercado por expectativas, o longa chega aos cinemas com uma divisão entre crítica e público: enquanto especialistas apontam superficialidade, fãs elogiam a emoção e a fidelidade da produção.

A trama se desenvolve em meio à criatividade do artista, explorando não apenas sua carreira, mas também sua vida pessoal. O filme evidencia os conflitos e a relação difícil com o pai, Joe Jackson, retratado como uma figura rígida e abusiva. Em diversos momentos, ele reforça a frase “ou vocês são vencedores ou perdedores” e faz comentários ofensivos sobre a aparência do filho. Essas cenas ajudam a explicar inseguranças que acompanharam o cantor ao longo da vida.

A produção também destaca a generosidade de Michael e sua dedicação na criação de cada música e clipe, evidenciando o cuidado que tinha antes de qualquer lançamento. O filme reforça a busca incessante pelo perfeccionismo e a excelência que ajudaram a consolidar o título de “Rei do Pop”. A cinebiografia apresenta ainda shows e momentos icônicos, permitindo ao espectador vivenciar a emoção de uma apresentação do artista.

A narrativa também se aprofunda muito na questão de “Neverland”, mostrando sua paixão pela história e o desejo de acolher e ajudar o maior número possível de pessoas. Nesse contexto, o longa também mostra a relação afetuosa com os animais, aos quais ele não chamava de “bichos de estimação”, mas sim de “amigos”.

O filme ainda relembra um marco importante da cultura pop: o momento em que Michael rompeu barreiras raciais na indústria musical ao se tornar o primeiro artista negro a ter um videoclipe completo e em alta rotação exibido na MTV, com “Billie Jean”. 

O filme é protagonizado por Jaafar Jackson, sobrinho do cantor. As expressões, os passos de dança e, principalmente, a voz, muito semelhante à de Michael, são pontos fortes. 

O elenco conta também com Miles Teller, no papel de John Branca; Colman Domingo, como Joe Jackson; e Nia Long interpretando Katherine Jackson. Entre os momentos marcantes, está a cena em que John Branca, a pedido de Michael, demite Joe Jackson por fax. Outro destaque é quando Katherine confronta o marido e afirma que ele não pode mais agredir ninguém, já que Michael é um homem adulto.

O roteiro funciona bem como uma obra nostálgica e emocional, como um tributo ao artista. No entanto, falta profundidade em alguns pontos, algo comum em cinebiografias devido ao tempo limitado. Temas importantes da carreira de Michael não são muito explorados ou sequer aparecem, como o projeto da canção “We Are The World” organizado por Michael Jackson e Lionel Richie.

A fotografia aposta em contrastes marcantes e cores densas, com uma iluminação projetada para recriar a experiência de um show, evitando uma abordagem documental. O filme prefere exaltar a performance do artista em vez de adotar um tom mais neutro.

Os figurinos criados pelo figurinista Marci Rodgers, são um dos pontos altos da produção. A nostalgia visual é bem trabalhada com peças fiéis e marcantes, como as icônicas jaquetas da Victory Tour (1984) e de Thriller.
 

Figurino do Michael na última apresentação da “Victory Tour”. Foto: Reprodução/Instagram/@jaafarjackson
Figurino do Michael na última apresentação da “Victory Tour”. Foto: Reprodução/Instagram/@jaafarjackson 

A trilha sonora é, sem dúvida, um dos principais elementos do filme. Reunindo grandes sucessos de diferentes fases da carreira, utiliza gravações originais, preservando a essência da voz única de Michael Jackson.

A recepção da crítica foi negativa. No site Rotten Tomatoes, o filme conta com cerca de 38% de aprovação. Muitos críticos consideraram a obra clichê e criticaram a ausência das acusações de pedofilia envolvendo o cantor. A decisão de encerrar a narrativa em 1988 foi interpretada por parte dos críticos como uma forma de driblar controvérsias que marcaram a imagem pública de Michael Jackson nos anos seguintes. A produção teria investido US$ 10 milhões em regravações e ajustes para eliminar o terceiro ato inicialmente previsto.

O crítico Nicholas Barber, da BBC, afirmou: “o diálogo funcional tem toda a nuance de uma placa de trânsito”. Em contrapartida, TJ Jackson saiu em defesa do longa dizendo: “ Nunca deem ouvidos aos críticos ‘profissionais’ quando se trata da minha família. Nunca.“

Já o público teve uma reação bastante positiva, com cerca de 96% de aprovação, evidenciando uma forte conexão emocional com a obra. 
 

Audiência tem 96% de aprovação. Foto: Reprodução/Instagram/@michaelmovie
Audiência tem 96% de aprovação. Foto: Reprodução/Instagram/@michaelmovie 

“Michael” (2026) não reinventa a cinebiografia como o cantor reinventou a música, mas ainda assim emociona e carrega significado. O encerramento sugere uma possível continuação para contar os próximos passos de sua vida. O filme é ideal para fãs do artista e para aqueles que desejam conhecer mais sobre sua trajetória. Afinal, Michael Jackson sempre foi digno do título de “Rei do Pop”.