Memphis e MC Hariel lançam novo EP

O projeto une duas culturas periféricas, contando um pouco da história dos artistas
por
Guilbert Inácio
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20/02/2025 - 12h

O EP, “Falando com as Favelas”, lançado na última segunda-feira (17), tem chamado a atenção do público corintiano. O projeto tem quatro faixas, trazendo, por meio do funk e do futebol, uma mensagem sobre superação e fomento de cultura para as periferias do mundo.

Memphis e MC Hariel, de óculos, estão centralizados. Há pessoas ao redor dos dois fazendo diferentes sinais com as mãos
Memphis Depay e MC Hariel com um grupo de pessoas em Gana / Foto: Renan Miranda

Sobre o EP

Além das faixas, o projeto tem videoclipes em que boa parte das gravações foram feitas em Gana e Vila Aurora, periferia da zona norte da capital paulista, onde Hariel nasceu e cresceu.

Na primeira faixa, “Falando com as Favelas”, Hariel fala sobre a necessidade de acesso à cultura e informação nas comunidades e a importância de ouvir e fomentar os sonhos das crianças, os quais podem auxiliá-las a seguir um rumo diferente do ambiente hostil em que vivem, fazendo um paralelo com uma parte na qual Memphis aborda seus traumas de infância. 

O jogador foi abandonado pelo pai aos quatro anos de idade, apanhava dos filhos de seu padrasto, começou a consumir e traficar drogas ainda na adolescência, mas tudo isso foi superado quando começou a jogar futebol. O holandês reforça na música que seu propósito é maior do que fama, e por isso doa sua alma para as crianças que buscam um futuro melhor.

A segunda faixa, “Peita do Coringão”, traz um outro artista, MC Marks. A música fala um pouco sobre a experiência de viver o Corinthians, trazendo o icônico "poropopó", um dos cantos da torcida alvinegra, a qual canta o jogo todo apoiando o time, além de reconhecer a raça e as origens do time no povo. "Alegria do povo, que vestiu preto e branco, foi pra rua de novo, olha o bando de louco", canta MC Marks.

MC Hariel, de óculos, está em cima de um carro com as mãos para o alto. Há uma pessoa ao seu lado segurando uma bandeira do Corinthians. Ao redor do carro, há pessoas com mascaras.
Bandeira do Corinthians estampa vários takes dos videoclipes do EP / Foto: Renan Miranda

 

A terceira faixa “Suor e Sangue” é um funk superação. O destaque fica para a frase: "quem é bom, não tem que ser bonzinho" dita ao Hariel por sua mãe, Karin Christine, a qual ele se refere na música como "a guerreira” que o guiou. Ao “Altas Horas”, o artista comentou que, quando era criança, sua mãe deixava o rádio o dia inteiro ligado, e isso o ajudou a entender melhor o mundo da música. Assim como Memphis que ascendeu pelo futebol, Hariel ascendeu pelo Funk.

O EP finaliza com a faixa “Renascer” com uma pegada sentimental e otimista. A música retoma as dificuldades de Memphis e Hariel na vida, reforçando que, mesmo que as pessoas desacreditem de seu futuro e matem sua esperança, é bom crer que o amanhecer trará algo melhor e que o sorriso das crianças curam o medo e a tristeza do passado.

Dois personagens distintos se unem no projeto, mas como eles se ligam?

Em um ambiente fechado, Memphis está sentado, abraçando uma criança. Outras crianças aparecem ao lado e ao fundo.
Memphis presente em seu projeto social com crianças ganesas / Foto: Boris Letterie

Memphis é um jogador holandês que começou sua carreira como profissional aos 17 anos, em 2011, no PSV Eindhoven (Holanda). Com a boa atuação no clube, o jogador foi convocado para a seleção holandesa para jogar a Copa do Mundo de 2014, aqui no Brasil.

Um ano depois, Memphis saiu do PSV e foi para a Inglaterra jogar no Manchester United, onde jogou por 1 ano e meio. De lá pra cá, o holandês passou por Lyon (França), Barcelona (Espanha) e Atlético de Madrid (Espanha). 

O jogador também tem um projeto social, Memphis Foundation, que apoia e fomenta o acesso à educação, esporte e cultura para 24 mil jovens cegos e surdos de Gana, país em que o holandês tem raízes familiares.

Em 2024, perto do fim de seu contrato com o time de Madrid, Memphis ficou livre para negociar com outros clubes, surgindo assim o interesse do Corinthians.

Memphis, que começou carreira musical em 2018, tem uma música chamada “2 Corinthians 5:7”. Embora a referência seja bíblica, a música inflamou a torcida corintiana que clamou pela sua vinda.
 
Pedro Silveira, diretor financeiro do timão, foi o principal responsável pela contratação do holandês. Em setembro de 2024, em busca de novos ares, Memphis desembarcou no Brasil para jogar no clube do Parque São Jorge cuja casa, Neo Química Arena, já era uma velha conhecida do holandês.

Em 2014, no terceiro jogo da Holanda na fase de grupos, contra o Chile, Memphis marcou seu primeiro gol no estádio alvinegro sem saber que, dez anos depois, esse estádio seria sua casa. O jogador, atualmente, soma oito gols e sete assistências com a camisa do Corinthians, time de coração de MC Hariel.

Hariel Denaro Ribeiro, conhecido popularmente como MC Hariel, é filho de Celso Ribeiro, membro da banda “Raíces da América”. A infância do cantor foi em um ambiente cercado pela música, mas também por drogas. Seu pai morreu por causa de dependência química. Seus tios também tinham vícios e sua mãe era alcoólatra, mas conseguiu sair do vício para cuidar do filho. Hariel contou à Marcelo Taz, em entrevista ao programa “Provoca” da TV Cultura, que sua mãe o incentivou a seguir um rumo diferente dos seus familiares.

O artista antes de fazer sucesso com o funk, em sua adolescência, chegou a trabalhar como entregador de pizza, operador de telemarketing, auxiliar de gesseiro, entre outras profissões. 

Hariel começou a carreira musical com 11 anos, mas o sucesso veio aos 15, em 2014, com a música "Passei Sorrindo". Hoje, com 16,7 milhões de seguidores no Instagram e 7,9 milhões de ouvintes mensais no Spotify, Hariel acumula hits como “Lei do Retorno”, “Maçã Verde”, "Vergonha pra Mídia" e “Ilusão Cracolândia”. Seu último projeto, foi o álbum “Funk Superação” trazendo feats de diferentes nichos da cena musical como Gilberto Gil, Kyan, IZA, Péricles e Ice Blue.

Hariel tem uma música em homenagem ao Corinthians, “Manto do Timão”, e em 2021, fez um show na live de comemoração de 111 anos do clube alvinegro. Na ocasião, o cantor evitou cantar a frase “Jack de Maçã Verde” de uma de suas músicas e tirou o símbolo da Lacoste, patrocinadora do funkeiro, do Boné, em respeito ao clube preto e branco cujo rival, Palmeiras, tem o verde como cor principal.

“Não sei quando me tornei corintiano, não sei se nasci corintiano ou se o Corinthians nasceu em mim, só sei que antes de ser corintiano eu não existia. Parabéns Corinthians, obrigado por tudo. De glórias e vitórias, 111 anos. Sempre altaneiro és do Brasil o clube mais brasileiro.” Hariel, horas antes da live, em seu Instagram.

O encontro de Memphis com Hariel se deu por meio do DJ André Nine que, ao saber do interesse do jogador de conhecer artistas brasileiros, convidou Hariel a ir a um estúdio conhecer o jogador. Hariel contou ao Serginho Groisman no programa “Altas Horas” da Globo que foi ao estúdio para conhecer um ídolo, mas encontrou um parceiro de composição. 

A sintonia de ambos foi imediata e no dia do encontro, os dois fizeram três músicas que compõem o EP. Memphis também contou no programa que já conhecia o trabalho de Hariel e que juntos, eles têm uma mensagem importante para passar ao mundo.

Memphis tem um apreço pela cultura brasileira e já visitou algumas periferias e favelas do estado de São Paulo. No “Altas Horas”, ele conta que conhece periferias na Holanda e em Gana, mas queria conhecer as do Brasil, por entender que há distinções entre as localidades. Ele complementa que foi bem recebido pelos brasileiros e que, para ele, é importante esse contato com as pessoas.
 

Memphis e outras pessoas estão em frente a um muro, no qual há uma pintura do jogador
Memphis em frente ao grafite do coletivo Raxa Kuka no bairro Jardim Sílvio Sampaio de Taboão da Serra, São Paulo / Foto: Rodrigo Coca

No EP, embora os artistas sejam de contextos históricos distintos, ambos se ligam no Brasil pelas suas raízes familiares, sociais, culturais e profissionais.

"BRASIL há noites em que derramo lágrimas porque você me permitiu ser eu mesmo sem julgamento e isso me toca profundamente, OBRIGADO. O Brasil me faz perceber que estou me curando de minhas cicatrizes profundas no momento, e essa nova jornada parece um novo começo de vida! Meu primeiro projeto musical com @mchariel é para as pessoas que precisam de cura, para as pessoas que amam música e para todos que querem se unir. Falando com as Favelas está se movendo com o espírito da luz! Estamos todos juntos nisso.” Memphis na última terça-feira (18), em seu perfil do Instagram.

 

 

 

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