Unidades de saúde de todo o país intensificam, ao longo do mês de março, ações de prevenção e conscientização sobre o câncer de colo do útero como parte da campanha Março Lilás. A iniciativa busca ampliar o acesso à vacinação contra o HPV, à realização do exame preventivo e à informação, medidas essenciais para o diagnóstico precoce e a redução dos casos da doença.
De acordo com estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil registra cerca de 17 mil novos casos de câncer de colo do útero por ano entre 2023 e 2025. Apesar de ser considerado amplamente prevenível, o tumor ainda provoca aproximadamente seis mil mortes anuais no país.
A doença está associada principalmente à infecção pelo Papilomavírus Humano (HPV), vírus transmitido sobretudo por contato sexual. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os tipos 16 e 18 do HPV são responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer cervical.
Desigualdades regionais
No Brasil, a incidência do câncer de colo do útero também apresenta desigualdades regionais. Dados do INCA indicam que as regiões Norte e Nordeste concentram as maiores taxas da doença, cenário frequentemente associado a desafios no acesso aos exames preventivos, desigualdades socioeconômicas e dificuldades no acompanhamento regular em saúde.
Em entrevista à AGEMT, a ginecologista Laís Panaino explica que fatores sociais e comportamentais ainda dificultam a prevenção. Segundo ela, a falta de acesso ao exame preventivo em algumas regiões, a baixa cobertura vacinal e o estigma quanto ao assunto contribuem para o diagnóstico tardio. "Talvez falte mais campanhas em escolas, para a conscientização. O problema é que algumas pessoas pensam que falar sobre o assunto e estimular campanhas de vacinação induz crianças a pensarem em sexo", relata a médica.
Além disso, ela explica que o medo e a vergonha contribuem para a diminuição da realização dos exames cautelares entre as pacientes. "No posto de saúde onde trabalho existem casos em que elas não querem colher o preventivo com a enfermeira, pois acham que receberão comentários sobre suas partes íntimas, medo de sair piadas com os nomes delas", comenta.
Importância do diagnóstico precoce
Diferentemente de outros tipos de câncer, o tumor costuma se desenvolver lentamente na região inferior do útero ao longo de vários anos, geralmente sem apresentar sintomas nas fases iniciais. Esse intervalo permite que exames preventivos identifiquem alterações celulares antes da formação do câncer, tornando possível o tratamento precoce e aumentando significativamente as chances de cura.
De acordo com Panaino, o exame Papanicolau é essencial nesse processo, pois detecta alterações celulares precoces e lesões causadas pelo HPV que podem evoluir para o câncer caso não sejam tratadas.
Sinais de alerta para o câncer de colo do útero:
- Sangramento fora do período menstrual ou após relações sexuais
- Dor ou desconforto durante relações sexuais
- Corrimento vaginal persistente ou com odor forte
Em caso de qualquer alteração, a orientação é procurar avaliação médica. Embora esses sintomas possam estar associados a diferentes condições ginecológicas, a investigação é importante para descartar doenças mais graves.
Vacinação e prevenção
A vacina contra o HPV é considerada uma das principais estratégias de prevenção, já que possui papel fundamental no bloqueio dos tipos responsáveis pela maior parte dos casos.
Experiências internacionais reforçam a eficácia da vacinação. No Reino Unido, um estudo publicado na revista científica The Lancet apontou redução de até 87% nos casos de câncer de colo do útero entre mulheres que foram vacinadas ainda na adolescência.
No Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, o exame preventivo Papanicolau é indicado para mulheres entre 25 e 64 anos e está disponível gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Já a vacina contra o HPV é oferecida para meninas e meninos de 9 a 14 anos e para grupos de pessoas imunossuprimidas - indivíduos com sistema imunológico enfraquecido - como forma de prevenir a infecção pelos tipos do vírus mais associados a esse tipo de câncer.
Diante de uma doença amplamente evitável, Laís reforça que o acesso à informação, a vacinação contra o HPV e o acompanhamento médico regular são estratégias essenciais para reduzir a mortalidade no país. “Apesar da promessa de acabar com as lesões de colo de útero, muitas pessoas não aderiram, às vezes por desinformação ou pela falta de serem lembradas", afirma.
Ao incentivar a conscientização e o cuidado contínuo com a saúde, a campanha Março Lilás reforça que a prevenção e o diagnóstico precoce permanecem como as estratégias mais eficazes para reduzir novos casos e salvar vidas.