Jovens enfrentam dificuldades para alcançar independência financeira

Entre 2012 e 2022, o número de adultos de 25 a 34 anos que moram com os pais cresceu 137%
por
Luane França
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20/05/2026 - 12h

Durante décadas, a ideia de crescimento social no Brasil esteve ligada à promessa de que estudar e trabalhar duro bastariam para construir uma vida melhor. Mas essa lógica começou a perder força. Em um cenário de custo de vida alto, empregos instáveis e dificuldade crescente de acesso à moradia, o patrimônio familiar passou a ter um peso decisivo nas trajetórias individuais. Dados divulgados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 2018 colocaram o Brasil entre os países com menor mobilidade social do mundo. O debate ganhou força internacionalmente sob o conceito de “herançocracia”: uma sociedade em que a herança pesa mais do que o mérito individual na definição das oportunidades. Embora o termo tenha surgido em discussões recentes sobre Europa e Estados Unidos, tem efeitos em um país historicamente desigual como o Brasil.

Para o economista Naercio Aquino, professor da USP e doutor em Economia pela University College London, em entrevista à AGEMT, a herança tem um papel direto na manutenção das distâncias sociais. “A herança tem papel decisivo na reprodução da desigualdade no país, na medida em que ela faz com que as pessoas nasçam com perspectivas diferentes na vida”, afirma. Segundo ele, quem recebe patrimônio acumula vantagens desde cedo: “Aqueles que recebem grandes heranças terão mais facilidade para realizar seus sonhos, pois têm mais capacidade de investir em educação e riquezas”. 

A discussão, no entanto, vai além da transmissão formal de bens. O patrimônio familiar opera também de maneiras menos visíveis, no acesso a redes de contato, na possibilidade de assumir riscos profissionais, no tempo disponível para estudar ou mesmo na chance de fracassar sem cair na precariedade. O pesquisador Pedro Herculano, sociólogo e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), chama atenção para outro problema: o Brasil conhece pouco a própria estrutura patrimonial. “A maior dificuldade para entendermos o papel das heranças no Brasil é a falta de dados. Sabemos muito pouco sobre a distribuição de patrimônio, e menos ainda sobre a transmissão de heranças”, diz Herculano. 

Segundo ele, essa ausência de informações dificulta compreender o tamanho real do fenômeno. Ainda assim, há sinais de que o patrimônio se tornou um elemento na reprodução das desigualdades. “No mundo todo, há mais desigualdade de patrimônio do que de renda, e o Brasil certamente não é diferente”, afirma.

 

Com custo de vida mais alto e mercado instável, apoio familiar virou parte da sobrevivência financeira de muitos jovens - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Em meio à dificuldade de alcançar independência financeira, famílias se tornaram redes de proteção para diferentes gerações - Foto:Marcelo Camargo/Agência Brasil

O custo da vida adulta

A expansão universitária alterou trajetórias e ampliou oportunidades especialmente para grupos historicamente excluídos. Mas o diploma já não garante o mesmo retorno econômico de outras gerações. Ao mesmo tempo, os custos da vida adulta subiram de forma acelerada. Comprar um imóvel é mais difícil. Em 2024, São Paulo registrou o maior valor médio de aluguel da série histórica do índice QuintoAndar/Imovelweb. O mercado de trabalho passou a exigir formação contínua, experiência prévia e alta competitividade para vagas frequentemente instáveis. Em grandes cidades morar sozinho virou privilégio. 

Nesse cenário, famílias passaram a funcionar como amortecedores econômicos. Pais ajudam filhos adultos a pagar aluguel, financiar estudos ou enfrentar períodos de desemprego. Avós sustentam parte da rotina doméstica cuidando de crianças enquanto os pais trabalham. Em muitos casos, a sobrevivência financeira depende menos do salário e mais da estrutura familiar disponível. Para Naercio, o problema é que esse apoio não está igualmente distribuído. “A educação, em tese, conseguiria compensar a falta de patrimônio, mas somente se a qualidade da educação pública fosse similar à da educação em escolas privadas, o que não ocorre no Brasil”, afirma.

Ele diz que a desigualdade se reproduz desde os primeiros anos de vida. “Quem tem mais recursos acaba estudando em escolas melhores, desde a creche, obtém mais aprendizado e maiores salários no futuro”, explica. Já Herculano observa que as vantagens patrimoniais começam muito antes da herança oficial. “Os herdeiros podem se beneficiar por múltiplos canais, para além da transmissão direta de bens”, diz. “Em outros casos, os pais antecipam a transmissão de patrimônio dando suporte e vantagens para os filhos ainda em vida”.

A perspectiva de herdar um imóvel por exemplo altera decisões sobre carreira, consumo, moradia e até relacionamentos. Em um mercado de trabalho mais competitivo, com processos seletivos longos, exigência de qualificação constante e poucas garantias de estabilidade, negativas sucessivas se tornaram parte da rotina. A dificuldade de alcançar independência financeira, somada ao alto custo da moradia e à pressão por sucesso profissional, ajuda a ampliar sentimentos de frustração, insegurança e desgaste emocional entre as novas gerações.

Para os especialistas entrevistados, o impacto da concentração patrimonial não se limita à vida privada. Ele também afeta o funcionamento da democracia. Naercio afirma que a concentração de riqueza tende a reduzir o crescimento econômico no longo prazo. “Ela aumenta a influência dos mais ricos nas decisões do Congresso que afetam o crescimento econômico”, diz.  

Herculano segue linha semelhante ao destacar o risco de política:  “Em um país muito desigual, os mais ricos conseguem converter parte dos seus recursos econômicos em influência política”, afirma. Segundo ele, isso permite que grupos privilegiados aprovem políticas alinhadas aos seus próprios interesses, mesmo que isso contrarie necessidades mais amplas da população.

A consequência mais visível talvez seja a erosão lenta da ideia de mérito. Não porque o esforço deixe de importar, mas porque ele passa a produzir resultados radicalmente diferentes dependendo do ponto de partida. O Brasil ainda discute pouco a riqueza acumulada e transmitida entre gerações. O imposto sobre herança permanece baixo em comparação internacional, enquanto a concentração patrimonial segue elevada.

Para Naercio, ampliar a tributação sobre heranças poderia ajudar a reduzir parte da desigualdade estrutural. “Não acho que devamos acabar com a herança, pois isto poderia desestimular a busca por mais produtividade, mas sim aumentar bastante o imposto pago na hora de passar os bens dos pais para os filhos”, afirma.