Jovens da geração Z investem mais cedo, mas enfrentam desafios para poupar

Acesso facilitado a plataformas convive com renda limitada, trabalho instável e custo de vida elevado
por
Ana Clara Souza
Júlia Polito
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27/03/2026 - 12h

Os jovens da Geração Z, nascidos entre o fim dos anos 1990 e o início dos anos 2010, estão assumindo o protagonismo das próprias decisões financeiras. Inseridos desde cedo no ambiente digital, eles possuem acesso facilitado a plataformas de investimento, conteúdos educativos e influenciadores que abordam o tema de forma direta. Ainda assim, a entrada desse público no universo das finanças ocorre em meio a desafios diários, como renda inicial reduzida, relações de trabalho mais instáveis e aumento do custo de vida, o que levanta dúvidas sobre sua capacidade de poupar e investir no mundo atual. “Como não sabemos o que vai acontecer no futuro, prefiro guardar meu dinheiro e sempre ter uma reserva de emergência”, diz o estudante Daniel Miyazaki, de 20 anos. “Sempre tento depositar 50% ou mais do meu salário em investimentos mensais”, afirma. 

Segundo a pesquisa Latam Pulse, realizada pelo AtlasIntel em parceria com a Bloomberg no final de 2025, 55% dos jovens nascidos entre 1995 e 2009 se dizem pessimistas em relação às suas finanças nos próximos anos, sendo 37% muito pessimistas e 18% um pouco pessimistas. Por outro lado, uma parcela menor mantém uma visão positiva: 14% se consideram muito otimistas, enquanto 23% estão um pouco otimistas e 8% se declaram neutros. O estudo reforça o sentimento de incerteza econômica entre os mais jovens.

Ao mesmo tempo, produtos como fundos de investimento de fácil acesso e criptomoedas também ganham espaço, impulsionados pela popularização nas redes sociais e pela promessa de maior rentabilidade. Esse movimento está diretamente ligado às transformações no sistema financeiro e à familiaridade digital dessa geração. Para Rodolfo Viana, formado em ciências econômicas pela PUC-SP e professor na universidade São Judas e no Dieese, o cenário atual favorece o acesso dos mais jovens ao mercado financeiro. “Novas formas de organizações das empresas financeiras, bancos mais modernos, descentralizados. Eles crescem justamente já aprendendo a mexer com essas ferramentas”, afirma. Segundo ele, esse contexto contribui para que a geração Z tenha mais facilidade para investir do que as anteriores.

Apesar dessa facilidade, o especialista alerta para riscos importantes no comportamento dos jovens investidores. Um dos principais erros, segundo Viana, é buscar orientação em fontes pouco confiáveis. Ele afirma que muitos acabam ouvindo influenciadores sem qualificação adequada para tratar do tema, o que pode levar a decisões equivocadas. “Começar investimentos em produtos financeiros que têm muito risco, porque prometem um retorno muito grande, mas sem avaliar esses devidos riscos, pode ser um erro muito grande”, diz o economista. 

Na prática, o cotidiano financeiro da Geração Z ainda é marcado por tentativas de organização e adaptação. Muitos jovens buscam equilibrar gastos imediatos com algum nível de planejamento, mas esbarram em dificuldades para manter regularidade financeira.  “Percebi que a poupança não rendia muito, pensava ser o lugar mais seguro, e depois de pesquisar, troquei pelo CDB”, afirma Miyazaki. 

A informalidade no trabalho, a oscilação de renda e a pressão do consumo, muito estimulada no ambiente digital, impactam diretamente também na capacidade de poupança. Ao mesmo tempo, há uma preocupação crescente com independência financeira, o que motiva a busca por alternativas de investimento, mesmo que em valores iniciais baixos.

Viana também destaca que o acesso ao mercado financeiro não é uniforme entre os jovens brasileiros e reflete desigualdades estruturais. Segundo ele, as facilidades de investimento se concentram nas classes mais altas, que possuem maior capacidade de poupar. Já entre jovens das classes C, D e E, a realidade é distinta: muitos estão fora desse universo não apenas por falta de informação, mas principalmente pela dificuldade de fechar o orçamento mensal.