Nos últimos 10 anos, os casos de feminicídio no Brasil dispararam. Juntamente com o aumento dos crimes, se têm a proliferação de discursos de ódio online. Nas redes sociais, os movimentos misóginos, conhecidos como "manosfera", vão influenciando cada vez mais homens a serem mais másculos, ao mesmo tempo que incita o ódio ao feminino, contribuindo com a violência contra as mulheres. O feminicídio é um conceito criado por Diana Russel, em 1976, com o objetivo de nomear o assassinato de mulher por questões de gênero, assim diferenciando de um homicídio comum. No Brasil, se tornou um crime em 2015 pela Lei 13.104/2015. Mesmo sendo um crime hediondo, e com a maior pena para crimes autônomos no código penal, os casos vem aumentando vertiginosamente.
De acordo com dados disponibilizados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2025 foram registradas 1.568 vítimas de feminicídio, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Estima-se que pelo menos 13 mil mulheres perderam suas vidas em decorrência desse crime desde a criação da lei. É necessário analisar o número e entender motivos de seu crescimento.
A "manosfera" é uma comunidade online focada no desenvolvimento pessoal masculino com frequentes críticas ao feminismo e incitação ao ódio contra mulheres. Surgiu na década de 1990 na internet, porém ainda estava muito difuso. O movimento ganhou força a partir de 2010. Foi dentro da "manosfera" que surgiu o movimento atualmente chamamos de red pill. Começou com grupos online com ideologias misóginas para disseminar a ideia de que as mulheres estariam tomando o espaço social dos homens, criando uma narrativa de homens contra as mulheres.
Angelita Herrmann, consultora do Instituto ProMundo, explicou a adesão do discurso entre os homens. “Colocar uns contra os outros é muito mais fácil. Então, vai se criando um movimento de que homens são vitimizados. É um terreno fértil para o ódio. É a ideia de estar perdendo as oportunidades por causa de uma mulher", explica Herman e acrescenta: "a sociedade moldada pelo patriarcado está em crise".
As mulheres sempre foram obrigadas a serem submissas aos homens, enquanto o gênero oposto foi ensinado a prover e não sofrer em nenhuma ocasião, só sendo possível canalizar seus sentimentos a partir da raiva. Ao passo que os coletivos feministas foi reivindicando seus direitos nas últimas décadas, a mudança da ocupação social das mulheres se tornou uma insegurança para homens. Muitos se veem sozinhos, em crise de identificação com o ideal masculino da sociedade. “Nós nunca tivemos uma sociedade tão solitária. Não tem mais esse tecido social, ela é individualista, é solitária, e aí você pega uma pessoa solitária, que não consegue se relacionar e cria-se um ambiente favorável para (se eu não consigo me relacionar) para culpar a mulher. Então, tem essa dificuldade inconsciente, subjetiva, em relação à masculinidade”, explica Herrmann.
O meio de disseminação do ódio começou e continua sendo, principalmente, nas redes sociais, que não regulamentadas permitem a produção desse conteúdo. O ECA Digital, vigente desde março de 2026, é uma tentativa de regulamentá-las. Assim como o PL 6396/2025 proposto por Érika Hilton (PSOL/SP), onde o conteúdo misógino propagado nas redes sociais teria sua monetização proibida. Os influenciadores que participam e disseminam a ideia do red pill têm milhões de seguidores. .
Para combater o movimento red pill, que de forma indireta influencia nos casos de feminicídio, a regulamentação das redes é um caminho possível. A ressignificação de masculinidade na sociedade atual é outro. Pensando e analisando a situação, a ONG ProMundo vem trabalhando com a ressignificação da masculinidade e da paternidade. São 28 anos trabalhando nesse objetivo, transformando homens e famílias.
O jeito com que os homens vivem a sua própria masculinidade tem matado os próprios homens. A presença no debate sobre o feminicídio e sobre a masculinidade é extremamente necessária. “A melhor forma que os homens têm de se engajar é por si próprio. Se engajar mesmo, dizer, gente, não está dando mais, eu não aguento ser este homem que a sociedade está me impondo que eu seja. Então, de que nova masculinidade nós estamos falando? É importante ressignificar”, diz Herrmann.
Os aumentos de casos de feminicídio não aconteceram de forma isolada. Existe uma sociedade que cria mecanismos que facilitam os crimes e o preconceito contra as mulheres e o debate qualificado e o engajamento de todos é um dos caminhos para uma sociedade mais justa.