Ao decorrer dos últimos meses, a intensificação da aparição de certas manifestações e posicionamentos de cunho político em grandes palcos dentro do cenário cinematográfico, tem se tornado cada vez mais constante. A última edição da premiação do Oscar, ocorrida em Los Angeles em 15 de março de 2026, contou com a participação ativa de diversos atores, músicos, produtores e diretores em atos de manifestação em prol da paz mundial e contra os crescentes atos de violência que vêm tomando grande proporção nas últimas semanas.
No contexto da atualidade contemporânea, na qual conflitos armados motivados pelas mais diversas razões parecem implodir a esfera da produção cinematográfica, alguns membros da indústria tem ajustado o seu olhar para tais acontecimentos externos. Filmes, documentários e curta-metragens que abordam temas de violência de guerra, violência contra a imigração, períodos de repressão governamental e ditaduras militares, entre outros temas atuais, ganham força nos cenários nacionais e internacionais, ocupando posições de grande prestígio em premiações respeitadas e almejadas internacionalmente. Dessa maneira, é impossível pensar o cinema sem analisar e refletir sobre fatores políticos que moldam os contextos que estruturam tais produções.
Kleber Mendonça Filho, renomado diretor brasileiro de grandes produções como “Bacurau” (2019) e “O Agente Secreto” (2025), destaca em discurso no Festival Internacional de Cinema de Berlim que “A política faz parte de nossas vidas… Se você fala de sociedade, você fala de política”, deixando claro a relação de interdependência entre tais esferas do conhecimento humano. Ale McHaddo, graduada em Artes Plásticas na ECA, USP (Escola de Comunicação e Artes), produtora e diretora audiovisual e fundadora da produtora 44 Toons, coloca que: “Em qualquer meio narrativo, você terá a oportunidade de abordar temas que são humanos, políticos. Viver é político.” Além disso, a diretora destaca que todo o discurso é acompanhado de um viés político e menciona o discurso da atriz irlandesa Jesse Buckley, vencedora de melhor atriz pelo filme “Hamlet”, que dedica o seu Oscar para todas as mães, elaborando um discurso feminista impactante, porém sem produzir um ataque óbvio e direto: "Quero dedicar isto ao belo caos do coração de uma mãe".
Voltando ao olhar para as premiações do Oscar 2026, manifestações políticas ocorreram de maneiras variadas: desde pronunciamentos “silenciosos” por meio de adereços com frases e símbolos até discursos concretos em destaque no palco principal, como o discurso de Buckley.
O ator espanhol Javier Bardem se destacou ao usar em seu terno dois broches com os escritos “No a la Guerra” e “Palestina Livre” e discursar no tapete vermelho o seguinte depoimento: “É uma grande oportunidade para falar não à guerra, não a essa guerra ilegal que gerou tantas mortes”. Esse é o mesmo broche que eu usei em 2003, há 23 anos atrás, na guerra ilegal contra o Iraque e agora estamos na mesma situação. Palestina livre, parem o genocídio”. Além disso, a cantora estadunidense Sara Bareilles desfilou com um broche com os dizeres “Ice Out” e a figurinista polonesa Malgosia Turzanska levava consigo uma carteira com o escrito “F-K ICE”, ambas tomando posição contrária à política violenta e repressora de deportação em massa de imigrantes norte americanos, implantado pelo governo republicano de Donald Trump em 2025.
Destacam-se também os discursos de agradecimento no palco principal de Joachim Trier, diretor de “Valor Sentimental” (ganhador de melhor filme estrangeiro), que se posiciona contra as atuais violências de guerra cometidas contra crianças: “Acho que o mundo está num momento em que estamos a receber mais informações do que nunca sobre as injustiças cometidas contra crianças em diversas guerras em curso. E eu sinto, pessoalmente — tenho dois filhos pequenos — que eu e a maioria das pessoas ao meu redor choramos diariamente e sentimo-nos incapazes de fazer algo, porque vimos crianças palestinianas, da Ucrânia e do Sudão sofrerem, e não parece haver nenhuma responsabilização no momento.”
No entanto, retomando a entrevista com Ale McHaddo, a diretora se questiona sobre a eficiência real e concreta que tais posicionamentos políticos em discursos nas grandes premiações realmente provocam. A especialista ressalta que é importante levar em consideração que vivemos em um período extremamente polarizado, no qual se é cada vez mais difícil expor opiniões políticas pessoais de maneira respeitosa: “Pessoas tem receios de dar opiniões (Paul Thomas Anderson, por exemplo, que ganhou prêmio de melhor diretor pelo filme “Uma Batalha Após a Outra”, filme extremamente político que trata de temas como a violência imigratória, e mesmo assim se absteve de trazer um viés políticos para seu discurso de agradecimento), elas podem sempre perder 50% do público. Então as opiniões são majoritariamente dadas nos filmes.” Assim, a diretora enfatiza que o discurso (o silencioso ou aquele no palco) não é tão eficiente para propagar mudanças estruturais políticas, para reiterar pela criação de políticas públicas, etc: “É repetir o discurso para aquela comunidade que já o aceita, e isso não é eficiente. Quem não concorda não vai abrir a cabeça. Às vezes é mais eficiente difundir uma ideia de maneira indireta, e aí sim usar o 'soft power' do cinema, do que falar no discurso.".
Em complemento, “Não chega para transformar” é como coloca o historiador Paulo Eduardo Zanettini, graduado pela FFLCH, USP (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), ao pensar sobre a eficácia de tais discursos. O historiador destaca que “Esses palcos trazem para os desconhecedores, para os ignorantes, um efeito muito variado. De tomada de conhecimento. Mas a eficácia transformadora é baixa.”. Dessa forma, é evidenciado que os palcos possuem ao menos um poder de abrangência, mesmo que não sejam tão eficientes para provocar mudanças estruturais e reflexões coletivas intensas:
- “A pressão do capital sobre a arte é bastante clara e faz com que esses posicionamentos, quando eles ocorrem em um palco, sejam mais transmitidos de uns para os outros. Um brasileiro falando do Brasil em um palco do Oscar chega a muitos países. Mas o contato transformador e revolucionário... ainda há um caminho longo a se pensar e evoluir.”.