A escalada do conflito no Oriente Médio já não é apenas um problema geopolítico distante: seus efeitos estão chegando com força ao bolso das famílias brasileiras. Como o Brasil importa derivados e depende fortemente do diesel para abastecer sua frota de transporte e o setor agropecuário, o resultado imediato do conflito são combustíveis mais caros. Esse custo extra na bomba é rapidamente repassado para a logística, a indústria e, consequentemente, para os alimentos nas prateleiras dos supermercados.
Além do petróleo, há a crise agrícola. O Brasil é altamente dependente de fertilizantes importados, e o Irã figura como um fornecedor relevante de ureia e outros insumos. Especialistas já alertam para o risco de desabastecimento e de uma nova alta nos preços caso as infraestruturas iranianas sejam atingidas pelo conflito. Culturas fundamentais como a soja já enfrentam pressão de custos e incertezas para a safra de 2026/27, o que significa custos maiores no campo e, inevitavelmente, alimentos mais caros e inflação mais alta para o consumidor final. Com a inflação mais alta, o poder de compra da população cai, aumentando a necessidade de se recorrer ao crédito. Para tentar conter essa escalada de preços, o Banco Central tende a manter elevada a Selic, que é a taxa básica de juros da economia brasileira. A Selic funciona como referência para todas as outras taxas do país. Na prática, juros altos significam que o crédito, como cartão de crédito, cheque especial, consignado e financiamentos, fica muito mais caro, e a renegociação de dívidas antigas se torna mais difícil. As empresas, por sua vez, continuam repassando esses custos ao consumidor.
Atualmente, de acordo com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 8 em cada 10 famílias brasileiras estão endividadas, o maior nível registrado em 16 anos. O comprometimento da renda com essas dívidas já alcançou 29,3%, uma máxima histórica segundo dados do Banco Central. A combinação de inflação persistente e salários estagnados cria uma trajetória perigosa: os custos de produção sobem, a inflação acelera e a renda real cai. Para manter o consumo básico, as famílias recorrem ao crédito caro. Economista e professora da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP), Laura Carvalho, em entrevista à AGEMT, explica: "quando a inflação de itens essenciais, como alimentos e energia, sobe acima da média e os salários não acompanham, ocorre uma compressão violenta do orçamento. As famílias não se endividam por luxo, mas para fechar o mês. Esse 'endividamento de sobrevivência' é o mais difícil de combater, pois não depende de educação financeira, mas de recomposição do poder de compra", ressalta Carvalho.
Essa realidade é evidenciada pelo fato de que parte da população passou a usar o cartão de crédito para comprar comida. Para a economista, isso sinaliza um colapso em múltiplas frentes: "usar crédito para alimentação é um sintoma grave. Vejo isso como uma falha combinada: de política econômica, que não conseguiu garantir um ambiente de crescimento com baixa inflação, e de política social, que falhou em proteger os mais vulneráveis de choques de preços externos", diz a economista.
Diante do cenário, o governo anunciou em 01 de maio o Desenrola 2.0, programa de renegociação de créditos inadimplidos, criado pelo Governo Federal. "Programas de renegociação são fundamentais para limpar o nome do consumidor e permitir que ele volte ao mercado, mas, isolados, eles podem apenas 'enxugar gelo' ", afirma Carvalho. Com a tendência de endividamento elevado projetada para 2026, o Brasil segue vulnerável às oscilações globais. Enquanto o conflito no Oriente Médio mantiver o petróleo pressionado, o desafio interno será transformar medidas de alívio temporário em soluções estruturais que protejam a renda do trabalhador.