Guerra do Irã e os impactos da IA nas estratégias militares

Entre máquinas, dados e decisões automatizadas, a tecnologia transforma o campo de batalha e desafia o controle humano
por
Guilherme Casanova Romero
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24/03/2026 - 12h

 A crescente utilização da inteligência artificial nas estratégias militares, tem redefinido a dinâmica dos conflitos contemporâneos, incluindo cenários envolvendo a atual guerra no Irã. Mais do que um avanço tecnológico, a adoção de sistemas algorítmicos no campo de batalha, altera profundamente a forma como decisões são tomadas, acelerando processos e ampliando a capacidade de análise em tempo real. De acordo com o jornalista Ricardo Dias de Oliveira Filho, a IA atua como mediadora entre dado e ação, analisando grandes volumes de informações como imagens de drones, sensores e comunicações, transformando informações em recomendações operacionais e tornando a guerra mais eficiente.  

 A incorporação da inteligência artificial nas estratégias militares vai além dos campos de batalha. Se expande para dimensões informacionais e simbólicas que redefinem desde as logísticas até a tomada de decisões em combate, focando no desenvolvimento de sistemas autônomos e algoritmos de defesa. Segundo Dias, o projeto Maven, um programa de IA das forças armadas dos EUA, evidenciou lógicas sobre a leitura do campo de batalha feita de forma automatizada, identificando padrões, localizando alvos e antecipando movimentações. Porém, essa aceleração do processo decisório também produz um completo deslocamento ético, passando as medidas de identificação e seleção de alvos serem mediadas por sistemas algorítmicos, reduzindo o tempo de reflexão e ampliando a distância entre a ação e a responsabilidade.  

No caso da atual guerra no Irã, Dias avalia que a ausência de transparência em relação ao uso de inteligência artificial já revela um elemento central da guerra contemporânea: sua completa opacidade. “Já existem indícios da utilização de sistemas automatizados em drones, mísseis e, sobretudo, em operações cibernéticas. Inclusive, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump acusou o Irã de usar IA para difundir notícias falsas sobre a guerra”, diz Dias. Países como Estados Unidos e Israel já incorporaram a inteligência artificial (IA) como elemento estratégico em suas operações militares, reestruturando todo o ambiente geopolítico ao redor.  Além do campo militar tradicional, a IA exerce um papel decisivo na espionagem, como uma vigilância que permite o processamento contínuo de dados em larga escala, transformando informações nas redes e em padrões de comportamento. 

Nos ataques cibernéticos, a potencialização desse cenário automatiza a identificação de vulnerabilidades e adapta estratégias em tempo real, fazendo com que o campo de batalha deixe de ser apenas físico e passe a se consolidar no plano informacional. Com o avanço tecnológico dos algoritmos, Dias destaca que o que se projeta para as próximas décadas é a intensificação das tendências já em curso, ou seja, a integração entre sistemas de dados, algoritmos e dispositivos militares. A tendência é se aprofundar, com o avanço de armas autônomas, mais enxames de drones e sistemas preditivos capazes de antecipar conflitos a partir da análise de padrões.  

Outro ponto relevante é a crescente integração entre Estados e grandes corporações tecnológicas. Ricardo cita empresas como Google, Amazon, MicrosoftPalantir Technologies que desempenham um papel estratégico no desenvolvimento de infraestrutura, algoritmos e sistemas utilizados em operações militares, revelando a concentração de articulação entre poder estatal e poder corporativo. Essa articulação evidencia a vantagem tecnológica que não está concentrada exclusivamente nos Estados, mas em uma rede de interesses conectada com o poder público e a iniciativa privada.  

 A inteligência artificial intensifica o que já foi caracterizado como desordem informacional, com a produção de imagens, vídeos e narrativas altamente realistas (deepfakes), mas desvinculadas de acontecimentos concretos, contribuindo para a fabricação de realidades artificiais que disputam legitimidade com o real. De acordo com o livro “Crise do humano”, com download gratuito, no capítulo 6, escrito pelo entrevistado Dias mostra a circulação de imagens geradas pela IA (o caso das cenas falsas de Tel Aviv, em Israel) e evidencia o que a imagem deixa de representar: o acontecimento, para então, substituí-lo. Nesse cenário, a desinformação não opera apenas pela mentira, mas pela multiplicação de versões plausíveis, que fragmentam a percepção e dificultam a construção de um consenso. 

Imagem gerada no Google IA sobre um ataque a Tel Aviv, Israel.
Imagem gerada no Google IA sobre um ataque a Tel Aviv, Israel. Foto: Reprodução 

 Diante desse cenário, Ricardo aponta a questão entre limitar ou proibir o desenvolvimento da IA nas estratégias de guerra, pois esbarra no impasse estrutural e se insere amplamente em questões políticas e humanas. “A proibição de sistemas dessa natureza seria o caminho mais coerente diante dos tamanhos riscos envolvidos”, disse Dias. Porém, a realidade aponta um cenário em que haverá um longo e complexo processo de disputa por formas mínimas de regulação.