Grandes shows transformam compra de ingressos em disputa virtual

Alta demanda, instabilidade em plataformas e ação de cambistas transformam a compra de ingressos em uma experiência frustrante para milhares de fãs brasileiros
por
Larissa Bandeira
|
21/05/2026 - 12h

 

A venda de ingressos para grandes shows no Brasil deixou de ser apenas uma etapa antes do espetáculo e passou a ser, para muitos fãs, uma verdadeira batalha virtual. Filas online intermináveis, sites instáveis e preços abusivos na revenda fazem parte da experiência de consumidores que tentam garantir presença em apresentações de artistas no país.

Nos últimos anos, o crescimento do número de turnês internacionais no Brasil também trouxe à tona problemas recorrentes enfrentados pelo público. Plataformas de venda frequentemente não suportam o alto volume de acessos simultâneos, enquanto consumidores relatam falta de transparência, dificuldades no reembolso e insegurança durante as compras. Alta demanda, instabilidade nas plataformas e a ação de cambistas digitais transformaram o processo em uma experiência frustrante para milhares de brasileiros.

O Procon-SP recebe constantemente reclamações relacionadas à comercialização de ingressos para shows e grandes eventos. Entre as principais demandas estão problemas com reembolso, publicidade enganosa, cobranças indevidas e falhas na prestação do serviço. De acordo com dados do órgão, somente em 2024 foram registradas 3.080 reclamações envolvendo as dez principais plataformas de compra do país. Em 2025, o número subiu para 3.328, evidenciando que a situação não melhorou.

Além do atendimento ao consumidor, o Procon-SP afirma atuar em diferentes frentes, como fiscalizações presenciais em grandes eventos, reuniões com empresas organizadoras e aplicação de multas em casos de descumprimento da legislação. O órgão também reforça que as plataformas têm responsabilidade de garantir um ambiente seguro e funcional para as vendas.

“Problemas pontuais devem ser resolvidos pela empresa de forma a não atrapalhar o fluxo das vendas, de acordo com o que foi prometido nas ofertas e publicidades feitas pela própria empresa”, informa a assessoria de imprensa do órgão.

Do ponto de vista jurídico, o consumidor tem mais respaldo do que imagina. A advogada Jaqueline Teodoro explica que a venda de ingressos online é considerada prestação de serviço pelo Código de Defesa do Consumidor: "isso garante ao consumidor o direito de receber informações claras sobre preço, taxas, datas e condições da compra. Além disso, por se tratar de uma compra feita fora do estabelecimento físico, o consumidor pode desistir da compra em até sete dias e receber o valor integral de volta, incluindo taxas."

A estudante e fã, Lorena Horácio já passou por situações semelhantes diversas vezes. Ela relata dificuldades durante a compra de ingressos para apresentações do grupo sul-coreano BTS e do cantor Harry Styles. “Na maioria das vezes, a plataforma pela qual as vendas acontecem acaba não suportando a alta demanda de pessoas ao mesmo tempo, deixando o site instável, causando erros e até a queda da página”, afirma.

Sala de espera virtual da Ticketmaster durante a venda de ingressos para o show de Harry Styles. Foto: Reprodução/arquivo pessoal
Sala de espera virtual da plataforma Ticketmaster durante a venda de ingressos para o show do cantor Harry Styles. Foto: Reprodução/arquivo pessoal

Segundo Lorena, os problemas começaram ainda nas filas virtuais. “Não temos noção de qual posição estamos, já que só temos acesso à quantidade de pessoas presentes na fila”, explica. Ela também critica as taxas cobradas pelas plataformas. “Somos informados de que uma porcentagem a mais é cobrada para a manutenção do sistema e, mesmo assim, ainda enfrentamos instabilidade.”

Apesar das dificuldades, Lorena conseguiu adquirir ingressos para os shows do BTS em São Paulo, embora não nos setores desejados. Para ela, o maior prejuízo não foi financeiro, mas emocional. “Gerou muita ansiedade e medo de não conseguir.”, desabafa.

Outro problema apontado pelos consumidores é o cambismo digital. Segundo Jaqueline, o CDC (Código de Defesa do Consumidor) considera abusiva a cobrança de preço excessivo, o que pode enquadrar a prática do cambismo. No entanto, para shows e eventos culturais não existe crime específico previsto em lei, o que dificulta a punição e gera apenas infrações cíveis. 

Lorena acredita que a revenda abusiva prejudica diretamente os fãs. “Isso favorece apenas os cambistas. Muitas pessoas acabam comprando por valores altos no desespero de não conseguir ir ao show.”

Quanto ao reembolso, Jaqueline esclarece que a plataforma é obrigada a devolver o valor integral,  incluindo taxas, em três situações: quando o consumidor exerce o direito de arrependimento em até sete dias da compra online, quando há cancelamento ou alteração relevante do evento, como mudança de data, horário ou local, e quando o ingresso apresente algum problema, como não funcionar ou ser fraudado. 

As principais plataformas de venda de ingressos foram procuradas para comentar, mas não retornaram até o fechamento desta reportagem.  

Para evitar problemas, o Procon-SP recomenda que consumidores utilizem apenas canais oficiais de venda, verifiquem informações como CNPJ e formas de atendimento das empresas, e desconfie de ofertas muito vantajosas divulgadas em redes sociais. Mas, para quem já viveu a experiência, as orientações chegam tarde. Lorena resume bem o sentimento de milhares de fãs: "Me preparei por dias e, no fim, não dependia de mim." 

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