Fim da escala 6x1 pode ampliar postos de trabalho formal no mercado

Estudos do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos preveem criações de 3 à 6 milhões de novas vagas no mercado de trabalho; economistas discutem avanços da PEC em evento na Câmara Municipal de São Paulo
por
Oliver Santiago
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26/03/2026 - 12h

O avanço da PEC 8/2025 - PEC do fim da escala 6x1 - proposta pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP) em parceria do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), gerou debates políticos e econômicos sobre as consequências da aprovação da emenda. Trabalhadores que aderiram esta escala tem se mostrado favoráveis pela aprovação da medida. Segundo levantamento do Ministério da Previdência Social, mais de 546 mil afastamentos por saúde mental foram registrados em 2025. Recorde batido pela segunda vez em 10 anos. Os setores industrial, farmacêutico, rural e comercial acalorou o debate nas redes sociais pelo posicionamento contrário à adesão da PEC. Muitos argumentos se destacaram na mídia, como uma quebra na economia, aumento de preços e outras possíveis consequências.

A maioria da bancada do PL no Congresso Nacional também se manifestou contra a PEC. Nas declarações de deputados federais do partido, reflexões bíblicas e "negociação com o patrão" foram citadas. Internautas questionaram o fato de parlamentares não aderirem à PEC, mesmo com o extenso número de faltas registradas no Portal da Câmara dos Deputados, onde os mesmos não chegam a cumprir a carga horária em comparação com o trabalhador da escala 6x1. Um evento com título "Formação política: o fim da escala 6x1 vai quebrar o Brasil?", realizado na Câmara Municipal de São Paulo, na terça (24), organizado pelo mandato da vereadora Luna Zarattini (PT), juntou jovens da Grande São Paulo para discussão sobre os impactos econômicos e avanço do fim da Escala 6x1 em parceria com o Transforma Economia, instituto organizado por economistas da UNICAMP.

Lilia Bombo e Nicolas Matteo, formados em economia pela UNICAMP e integrantes do Transforma, realizaram a exposição de dados levantados pelo instituto no Sala Oscar Pedroso Horta da Câmara. Após a exposição, houve microfone aberto para comentários do público. Em uma das falas de Lilia, um levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIESEE) prevê criações de 3 à 6 milhões de novas vagas formais no mercado de trabalho para suprir a demanda com o fim da escala. Um estudo feito pela Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (PNAD), do quarto semestre de 2024, mostrou o percentual de trabalhadores, dentro de cada grupamento de atividade, que declarou trabalhar habitualmente 45h ou mais por semana. Setores se destacam pela elevada proporção de trabalhadores em sobre-jornada. São grupamentos de atividades diversas, mas, à exceção da agricultura, todos se relacionam com a provisão de serviços ao consumidor.

Foto: Divulgação/PNAD
Foto: Divulgação/PNAD

O McDonald's foi o primeiro fast-food em solo nacional a colocar a escala 5x2 em sua jornada de trabalho no segundo semestre de 2025. O período condiz com o avanço da mobilização nacional pela abolição da escala 6x1, motivada pela ala pró governo Luiz Inácio Lula da Silva nos municípios e no Congresso. Em entrevista à AGEMT, Davidson Carvalho, que defendeu mestrado na PUC-SP sobre a linguagem financeira dos bancos, afirmou que além do lazer, um dia a mais de folga pode contribuir de forma positiva na economia ao atrair mais investidores pessoa física por conta deste tempo livre. 

Dados recentes reforçam essa percepção. Um levantamento do Dieese aponta que trabalhadores submetidos a jornadas extensas, especialmente em regimes como o 6x1, apresentam menor engajamento em atividades formativas e menor participação em decisões financeiras de longo prazo. A pesquisa indica que a limitação de tempo livre impacta diretamente o acesso à informação qualificada, o que pode comprometer desde a organização do orçamento doméstico até a inserção em novos mercados de investimento. Outro estudo, conduzido pela Fundação Getúlio Vargas, destaca que a redução da jornada pode gerar efeitos indiretos no consumo e na produtividade.

Segundo a análise, trabalhadores com mais tempo de descanso tendem a apresentar melhor desempenho, menor índice de absenteísmo e maior propensão ao consumo em setores como lazer, educação e serviços. Esses fatores, combinados, podem estimular a circulação de renda e contribuir para o aquecimento econômico em escala local. No cenário internacional, experiências semelhantes também vêm sendo observadas. Países que testaram a redução da carga horária semanal, como Islândia e Reino Unido, registraram aumento na satisfação dos trabalhadores sem prejuízo significativo na produtividade. Embora o contexto brasileiro apresente especificidades, especialistas avaliam que o debate sobre o fim da escala 6x1 está inserido em uma tendência global de reavaliação das jornadas tradicionais de trabalho.

A discussão, no entanto, ainda enfrenta resistência de setores empresariais que apontam possíveis impactos operacionais e aumento de custos. Mesmo assim, o avanço de iniciativas como a do McDonald’s sinaliza uma mudança gradual no mercado de trabalho brasileiro, colocando em pauta não apenas a produtividade, mas também a qualidade de vida como variável econômica relevante.