A relação entre religião e poder político é de longa duração e complexidade. No período das grandes navegações, nos séculos XV e XVI, sistemas como o padroado e o patronato transformaram a Igreja Católica em um instrumento de expansão dos impérios ibéricos. Jesuítas atuavam praticamente como funcionários públicos, consolidando a fé e a presença portuguesa e espanhola em novos territórios. Essa articulação histórica demonstra que o vínculo entre fé e poder político não é uma característica recente: desde o cristianismo de Constantino até a Idade Média europeia, a Igreja legitimava reis, coroava monarcas e arbitrava conflitos internacionais, moldando sociedades a partir de uma perspectiva espiritual e política simultaneamente.
No contexto brasileiro, a redemocratização e a Constituição de 1988 representaram uma tentativa de consolidar um Estado laico, pautado em direitos humanos, liberdade de expressão e democracia. Havia a expectativa de que a religião se restringisse ao âmbito privado, enquanto o Estado atuaria de maneira independente. No entanto, nas últimas décadas, especialmente com o crescimento de igrejas evangélicas, tem-se observado o contrário: instituições públicas sendo ocupadas, associações comunitárias sendo substituídas e funções estatais assumidas por atores religiosos.
A distinção entre fé e igreja ajuda a compreender essa dinâmica. A fé é individual e privada, enquanto a igreja é uma instituição coletiva e pública, capaz de mobilizar pessoas e exercer influência no espaço social e político. A experiência pessoal de crença se transforma em prática comunitária, fortalecendo a legitimidade da igreja para se manifestar publicamente. Católicas, protestantes históricas ou evangélicas neopentecostais assumem esse papel de forma mais explícita, disputando espaço no debate público e influenciando decisões políticas e sociais.
Apesar da forte influência no Congresso, para a doutora em história na USP, Maria Antônia Martins, o eleitor brasileiro consegue ainda separar a fé das decisões políticas. “Talvez a chave seria entender que há muitas interpretações para o evangelho e muitas interpretações dos ensinos religiosos. O perigo político sempre será o fundamentalismo, ou seja, aqueles que interpretam com literalidade os textos sagrados. Que os entendem ao pé da letra e são absolutos com esses ensinamentos”, declarou.
O desafio contemporâneo é garantir pluralidade religiosa e política e preservar a democracia sem permitir que valores estritamente confessionais se sobreponham a direitos individuais: “Essa é a nossa pergunta. Como salvar a democracia? Como salvar o Estado laico? Como não deixar que a gente entre numa ditadura fundamentalista? É um problema que temos hoje. Temos que ficar de olhos abertos, ocupar os espaços, fazer o mesmo movimento que a Igreja Evangélica fez, que o Silas Malafaia fez, ao ocupar os espaços. Então, eu acho que tem alguns professores ou intelectuais que falam que em determinado espaço eu não vou, em determinado espaço eu não entro. Eu acho que agora é o momento de a gente entrar e conversar. “
Para a cientista política Vittória Avelino, uma das maneiras de garantir a pluralidade e ocupar os espaços que são do povo por direito é aumentar e propagar o debate público. “Reaprender a se articular politicamente e a se mobilizar nas ruas, não só nas redes, se interessar pela vida pública para além das polêmicas. Essas coisas garantem pluralidade geral; a pluralidade religiosa é consequência.”
Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus, é um pastor evangélico e uma figura controversa. Sua fama se dá por ele ser um dos principais agentes de propagação da religião como instrumento político. Em casos recentes, na manifestação do último domingo (7). Silas foi recebido com muito entusiasmo pelos apoiadores do condenado Jair Bolsonaro. Ele é visto, por eles, como uma salvação—como o mensageiro oficial de Deus— e do Messias.
Esta visão propaga um grande perigo na sociedade: a crise é o momento perfeito para figuras como a de Silas ganharem forças. Em paralelo, Adolf Hitler e Benito Mussolini, ambos ditadores, fizeram uso de argumentos religiosos para sustentar regimes totalitários e genocidas. "Brasil acima de tudo. Deus acima de todos": o principal lema de Bolsonaro na sua campanha, é fundamentado em dizeres do ditador alemão "Das Lied der Deutschen" (Alemanha acima de tudo).

Em âmbito internacional, Vittória compreende que, atualmente, a religião vem sendo utilizada como meio de alienação e controle dos povos, como é possível observar no genocídio em massa que Israel está cometendo contra a Palestina há mais de 2 anos. Justificando os horrores em nome de uma “terra sagrada” e de uma figura religiosa.
Ela declarou que "desde que o Estado de Israel foi instalado, há massacres e expulsões em massa de palestinos do local” e que “Israel pôde fazer isso porque usou sua religião como proteção do escrutínio internacional", o que significa que proferir críticas ao Estado de Israel se tornou antissemitismo—por mais que não seja. Indo além, ela entende que, no Brasil, não há este uso tão árduo das crenças religiosas, mas sim uma religiosidade quase intrínseca. De maneira que é possível encontrar símbolos e costumes cristãos no dia a dia da população, sejam eles artigos de decoração — como crucifixos em instituições públicas — ou hábitos comportamentais, como o calendário greco-romano que rege a população do continente americano e europeu.
Preservar a laicidade e a pluralidade não significa eliminar a presença religiosa na vida pública, mas sim garantir que nenhuma crença se sobreponha à democracia e aos direitos individuais. A ocupação dos espaços públicos, o diálogo e a promoção do pensamento crítico emergem como estratégias essenciais para assegurar que todos os cidadãos tenham liberdade de escolha, seja em uma vida guiada por princípios religiosos ou por decisões seculares.