Falta de verba prejudica pesquisas no Brasil

Cortes, burocracia e falta de apoio colocam em risco a pesquisa científica no Brasil
por
Sofia Martins
Mariana Araujo Correia
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09/04/2026 - 12h

 

A falta de investimentos para pesquisas científicas no Brasil volta a preocupar a comunidade acadêmica. Está prevista para 2026, a repetição desse cenário que se perpetua há anos. Essa possibilidade reacende uma preocupação já conhecida pelos pesquisadores: a instabilidade de recursos para a ciência. O risco, segundo especialistas, vai além dos laboratórios e pode afetar diretamente a economia e o futuro do país.

Segundo o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o investimento anual em ciência ficou em torno de 10 bilhões entre 2023 e 2025, com mais de 97 mil bolsas de pesquisas em 2025. Apesar disso, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) alertam que o orçamento previsto para 2026 inclui cortes nas bolsas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e ausência de reajuste nas bolsas Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). 

Caso o cenário de instabilidade continue, o país pode ficar mais dependente de tecnologias estrangeiras e enfrentar dificuldades na formação de novos pesquisadores. A falta aumenta o risco de interrupção de estudos ao longo prazo, acarretando em anos ou décadas para gerar resultados.

Pesquisadores deixam claro a dificuldade progressiva de se realizar pesquisas científicas no Brasil. Tal problemática se dá por muitos processos e burocracias, mas todos eles nascem de uma mesma fonte: o apoio e a verba que o Estado negligencia dentro do cenário contemporâneo brasileiro. Um dos fatores recorrentes que atrapalham o progresso de pesquisas, são as mudanças de governos e partidos, tanto estaduais, quanto federal. Diferentes administrações afetam diretamente a disponibilização e a distribuição de verbas destinada à pesquisas científicas. Muitos dos estudos científico tecnológicos passam estagnados dentro deste período de transição política, enquanto algumas áreas são privilegiadas e outras mais afetadas. 

Roberto Navarro, pesquisador de Inteligência Artificial na área nuclear do IPEN comenta que dentro do governo anterior, de extrema-direita, as pesquisas das áreas de humanas, como história, arte e direitos humanos, eram sempre as mais menosprezadas. Ele pondera que as pesquisas mais valorizadas, isso é, que recebem mais bolsas e apoio do governo, variam muito de acordo com aquilo que está em alta. "Nos dias atuais é o exemplo da biotecnologia e inteligência artificial, que são consideradas mais úteis e em ascensão pelos governos atuais", explica.

Para muitos profissionais da área, o problema não é apenas a má administração pública, mas um forte déficit educacional nas bases de ensino, que deixa de lado a real importância da ciência e da pesquisa no Brasil. Em outras palavras, a falta de valorização é fruto também da esfera social como resultado de uma estrutura de ensino e educação precária no Brasil. Para muitos pesquisadores, esse não costuma ser um tema levado em consideração pelos brasileiros no momento do voto. Navarro reforça que "a própria população tem dificuldade de entender o valor da pesquisa e ciência, o que pressiona menos os políticos". Felipe Jaime Dávila, pesquisador na área de caracterização de materiais nucleares, concorda com a ideia e ressalta que "a falta de orçamento direcionado à educação evita que as pessoas sejam mais críticas, deixa a população mais alheia, menos resistente e mais submissa".

Além disso,  especialistas afirmam que a burocracia é um elemento que mais atrapalha do que ajuda dentro do processo de uma pesquisa. Navarro critica a burocracia ao afirmar que existem rombos milionários dentro dos governos estaduais e do federal, não somente na área de pesquisa, em que acontecem desvios, roubos e desperdícios enormes de recursos que poderiam ser direcionados para realização de muitas pesquisas, enquanto isso acontece, ele pondera: "no meu trabalho preciso preencher diversos documentos para realizar a troca de, por exemplo, uma maçaneta do laboratório, formulários inicialmente feitos para prevenir golpes, mas que criam barreiras e situações miseráveis dentro do ambiente de pesquisas".

“Eu não tive acesso a um laboratório durante meu doutorado", reclama Dávila, que construiu um com o próprio dinheiro, obtido em dois empregos informais. O orientador precisava de uma vassoura e um pano de chão para limpar o laboratório, lembra ele. Conseguir isso era tão burocrático, que a solução foi pagar do próprio bolso. "Eu entendo a necessidade de cuidar do orçamento público, mas necessitamos ser mais racionais com o funcionamento todo” critica Dávila. 

Uma alternativa viável para os profissionais é a saída do Brasil para países que valorizam mais a ciência. Muitos recebem ofertas de trabalho vindas de empresas do exterior ou se mudam mesmo sem uma oferta garantida, com o objetivo de uma melhor qualidade de vida e trabalho. Em países como Alemanha, Coréia do Sul e Reino Unido, há mais oportunidades na produção científica e melhores condições de trabalho. 

Clarivate/Capes 2024
Clarivate/Capes 2024

A experiência de Maria Cristina Tessari-Zampieri, pesquisadora voluntária no Centro de Química e Meio Ambiente do IPEN, mostra que a falta de financiamento limita o acesso a materiais e dificulta a continuidade das pesquisas. Ela comenta que, junto de sua equipe, utiliza do que já está disponível e somente algumas vezes a instituição fornece ferramentas, que são insuficiente. A pesquisadora ainda chama atenção para os impactos dessa realidade na permanência de profissionais no país, destacando que a maioria dos alunos que se formam e desejam concluir um doutorado prefere ir para fora do país, já que a oportunidade de realizar pesquisa lá é muito melhor.

Felipe Jaime, que nasceu e cresceu na Colômbia,  se tornou engenheiro de Materiais pela Universidad del Valle, de seu país natal. Decidiu vir a São Paulo e se tornou mestre em engenharia civil pela Universidade de São Paulo (2015), atualmente desenvolve pesquisa na área de caracterização de materiais nucleares como aluno de doutorado no IPEN. O pesquisador é um exemplo da migração por razões  acadêmicas, “A situação no Brasil é muito difícil, é bem complicada, mas não é o pior cenário que o planeta Terra pode oferecer, existem lugares piores, assim como a Colômbia. A bolsa aqui é miserável, mas lá na Colômbia é zero ", esclareceu Felipe.

A pandemia, principalmente, foi um período em que muitos projetos foram interrompidos e que faltou muito apoio e financiamento do antigo governo, o que fez com que o Brasil ficasse atrasado em relação aos outros países que recebiam o apoio necessário para enfrentar a doença. Hoje em 2026, ainda existem sequelas deixadas pelo período da COVID-19, muitos pesquisadores e estudantes abandonaram projetos, a área de trabalho foi muito afetada pela falta de recursos e a maioria dos pesquisadores se veem muito frustrados com o desprezo dentro da área científica.

 “Eu faço pesquisas porque eu amo, eu me apaixonei pela ciência desde cedo e hoje eu não recebo nada pra isso, não recebo salário” relata Maria Cristina.