Com pai jornalista e mãe pedagoga, Aroeira começa no mundo do cartoon ajudando os dois com alguns trabalhos de ilustração. Sua trajetória se inicia no jornal local de Minas Gerais, na coluna de esportes do pai, e a mudança do jornalismo esportivo para o político ocorre quando o mesmo é enxergado pelo editor geral do jornal que o chama para fazer alguns desenhos para a coluna política. Aroeira conta que isso foi durante o governo Geisel, e é interessante que mesmo durante a ditadura, ainda havia chargistas falando sobre política.
Renato conta que existem 3 coisas envolvidas numa charge: o que você quis dizer, o que você disse realmente, e o que as pessoas entenderam daquilo. Na hora de usar o humor para fazer uma charge é preciso ter muito cuidado pra não tocar em pontos sexistas, homofóbicos e etc. Renato diz tomar bastante cuidado com isso, e lembra de um desenho que fez para mãe retratando algumas profissões e de ter ouvido da mesma que todos os trabalhos importantes estavam retratados sendo feitos por pessoas brancas e homens, e os trabalhos considerados menos importantes, por mulheres e pessoas negras. Foi aí que ele começou a olhar profundamente para essas questões.
Quando perguntado se incorpora o ‘politicamente correto’, Renato diz que sim, que sempre toma cuidado com o tipo de abordagem, e que não faz nenhuma charge criticando mulheres, índios, gays, nordestinos e outros que ainda são oprimidos pela sociedade.
O cartunista relembra quando entrou em uma polêmica após fazer uma charge relacionando o atual presidente Bolsonaro ao nazifascismo, e diz ter lidado com a tentativa de censura do governo com sensação de incredulidade. Quando o ex-ministro da justiça, André Luiz Mendonça tuitou pedindo inquérito para apurar a charge que associava Bolsonaro, muitos advogados apoiaram Aroeira, assim como a população, que reagiu rapidamente. A procuradoria recusou o processo e o caso se encerrou. Esse episódio trouxe à cena a Lei de Segurança Nacional.
Aroeira destaca que o atual governo ataca constantemente a imprensa, e o artista diz ter medo do que o governo possa fazer, mas diz que percebe estar seguro com o poder de luta a favor da democracia que existe atualmente. Para Aroeira, é preciso sempre ir com tudo na luta contra a censura e o fascismo, pois o outro lado não vai se cansar. Durante a entrevista, o artista relembra o Prêmio Especial Continuado Vladimir Herzog, dado em 2020 para a chamada "Charge Continuada", uma série de mais de quatrocentas charges de outros artistas que replicaram o primeiro desenho feito por Aroeira e atacado pelo governo ao relacionar Bolsonaro com a suástica: “Sou o depositário, fiz junto com parceiros da Revista Pirralha.”
A intenção de publicar uma charge é uma mistura de sentimentos para o artista, “Há o querer de ser olhado pelo público, e também sentir o papel social de fazer críticas. Quero que as pessoas se divirtam, que gostem, mas que também entendam o que eu estou querendo passar. O que eu não espero, é que a charge resolva algum problema ou provoque uma revolução. As charges são uma pecinha num componente cultural. [...] As pessoas precisam compreender o mundo para poder tomar uma decisão e entender o que está acontecendo. Este é o papel da mídia, e eu sou parte dela".
Sobre o processo criativo, Renato conta que faz cerca de 15 a 20 desenhos por semana e relembra o começo da carreira, “Antes o processo era ler o jornal toda manhã, escolher um fato e fazer a charge sobre. Porém há alguns anos eu já sei mais ou menos o que quero dizer e já tenho uma noção do que eu estou enxergando. Eu escolho o aspecto da realidade daquele momento, e retrato ele.” E conta que realiza suas obras a mão e pelo computador, sempre amando a tinta nanquim e aquarela.
Durante sua entrevista, o artista relata a importância das redes sociais atualmente, “Quando comecei eram por carta, e as cartas chegavam apenas uma semana depois do caso, depois foi por e-mail e depois eram nos jornais, mas quando a charge saía já era sobre um fato de 4 dias atrás. Agora com as redes sociais tudo fica mais fácil, eu vejo o fato, faço a charge e a arte já é publicada, as pessoas rapidamente comentam pois é sobre o que está acontecendo agora. E isso é extremamente importante, ajuda muito o nosso trabalho.”
Os cartunistas são um grupo muito animado e unido, conta ele, que já trabalhou com Ziraldo, Miguel Paiva. Saxofonista, já formou banda com os cartunistas Chico e Paulo Caruso. Renato diz adorar trabalhar coletivamente. Sobre sua relação com a música, ele responde “A minha arte engajada é o cartoon, adoro a música, mas sou mais um intérprete dela, não um compositor. A minha força em tentar transformar é pelo desenho, a música é mais o que gosto, e gosto de passar pros outros.”
Se há alguma charge que o mesmo se arrependeu de fazer? Aroeira diz com sinceridade, “Ah com certeza, volta e meia eu encontro charges com equívocos, mas vejo isso como um aprendizado.” E sobre a famosa cultura do cancelamento, Renato responde “Eu acredito muito no diálogo e na conversa, sou muito contrário à cultura do cancelamento, pois mais cedo ao mais tarde isso se volta contra você. [...] Acredito na mídia totalmente livre, pois qualquer restrição dela atinge a mim, e a qualquer pessoa que precisa dizer alguma coisa.” Sobre as questões sociais, o artista acrescenta, “Tento falar do que eu entendo, até para os meus vizinhos. [...] Mas eu acredito na ideia do lugar de fala se tornando o lugar de ação, este processo é emocionante.”
Quando questionado sobre não fazer mais charges sobre futebol, Aroeira confessa em meio a risos que depois da derrota de 7x1 contra a Alemanha em 2014 seu amor pelo esporte morreu um pouco. “Também escolhi torcer pro Botafogo, que agora está na segunda divisão”, lamenta Aroeira.
Os desafios da profissão são muitos. Uma aluna pergunta o que o faz continuar. Renato conta que acaba se tornando responsável pelo trabalho, “Depois que a gente começa a gente se sente responsável em continuar. [...] Os jornalistas sempre foram ferrados, precisamos sempre correr atrás e todo esse trabalho é necessário.”
Renato Aroeira é um dos mais importantes cartunistas brasileiros, e depois dessa entrevista vemos sua humildade e abertura para conversa. O artista é um apaixonado pela pintura, e com toda certeza faz jus a esta paixão intensamente.