Nos próximos dias 15 e 22 de março, a capital francesa, tal qual as quase 35 mil comunas do país, irá eleger os seus novos representantes para o Conselho Municipal, e indiretamente o prefeito. Dentre os principais temas levantados estão a habitação, segurança pública e o meio ambiente. A eleição deste ano será a primeira com novas regras, que impactam também Marseille e Lyon, mudando estratégias políticas, e com resultados apertados esperados.
Diferente do modelo brasileiro, o sistema político na França consiste também de eleições indiretas, além de ser semipresidencialista. A cada cinco anos os franceses, e todos os cidadãos europeus que residam na França e quiserem votar, elegem 577 deputados para a Assembleia Nacional (equivalente ao Congresso brasileiro), e o presidente, o qual então escolhe o primeiro-ministro. No mesmo intervalo ocorrem as eleições para o Parlamento Europeu.
Já a cada seis anos a população vota nos membros dos seus respectivos Conselhos Municipais, responsáveis pela administração das cidades, e que por sua vez decidem o prefeito. No caso de Paris, Marseille e Lyon, as três maiores cidades do país, respectivamente, a votação era diferente do resto das comunas. Nelas, eram decididos os membros do conselho de cada distrito (arrondissement em francês), que então proporcionalmente formavam o Conselho da Cidade.
Esses conselheiros regionais, em conjunto aos deputados, elegem então indiretamente os senadores, que compõem o Senado (câmara alta), responsável por escolher o presidente da casa e consequentemente o vice-presidente do país. O Senado junto a Assembleia Nacional (câmara baixa), forma o poder legislativo, e as próximas eleições indiretas para a casa ocorrerão em setembro, já refletindo as escolhas regionais de agora.

Novas regras e reconfiguração política
Em 11 de agosto de 2025 a Assembleia Nacional aprovou uma lei que mudou o sistema eleitoral, em vigor desde 1982. A partir das eleições municipais de 2026, ocorrerão na capital votações para cada arrondissement e também agora diretamente para o Conselho de Paris. A medida foi apontada pela casa menor do legislativo como uma forma de corrigir assimetrias na representação de cada distrito na escolha do prefeito.
A mudança também vale para Marseille e Lyon, mas com regras específicas para cada uma. No caso da segunda maior cidade do país, os distritos serão agrupados em pares ao invés de um conselho para cada, e para Lyon, haverá eleições em cada arrondissement, para o Conselho de Lyon, e também uma terceira votação para o Conselho da Grande Lyon.
O número de candidaturas de mulheres e de homens deverá ser igual pela primeira vez na história este ano também, e as regras para o segundo turno prometem acirrar a disputa. Caso no dia 15 de março nenhuma lista de partido ou coligação consiga mais de 50% dos votos, todas as legendas que obtiverem pelo menos 10% poderão concorrer na segunda rodada. Além disso, aquelas com pelo menos 5% poderão se unir para atingir o percentual.
Mais uma mudança importante é em relação a distribuição das cadeiras nos Conselhos. A lista de candidatos em primeiro lugar no segundo turno será recompensada com 25% das cadeiras, número que era de 50% antes. Os 75% restantes serão então proporcionalmente distribuídos para os demais concorrentes do segundo turno.
Alianças e preocupações
Tal qual outros países ao redor do mundo que têm visto a ascensão da extrema direita, Portugal como partido Chega, Itália com o Fratelli d’Italia de Giorgia Meloni, e o Alternativa para Alemanha (AfD) na Alemanha, a França vive o mesmo cenário. O Reunião Nacional (RN) é o principal nome da extrema-direita, legenda de Marie Le Pen, e tem ganhado mais cadeiras nas últimas eleições, com destaque para a disputa pelo Parlamento Europeu em 2024.
Na ocasião, o RN conquistou 31.37% dos votos, mais que o dobro da chapa do atual presidente Emmanuel Macron, que dissolveu a Assembleia Nacional em seguida para evitar que o partido também conseguisse maioria nas próximas eleições nacionais, marcadas para 2027.
O resultado foi ruim para o partido de Le Pen, que ficou em terceiro lugar, atrás da coligação Ensemble de Macron em segundo com 168 lugares, e da aliança esquerdista Nova Frente Popular, com 182. Porém, pela primeira vez o Congresso não tem um partido com maioria, e o RN é o maior partido sem coligação em número de cadeiras da casa, com 143.
As eleições municipais desse modo, são muito relevantes pois indicam o que a população está falando e reivindicando, com os conselheiros e prefeitos como os mais próximos representantes da população. Isso geralmente indica direções a se seguir em 2027 na disputa presidencial, e especificamente é um momento chave para o RN.
Mesmo com o sucesso no Parlamento Europeu, nas disputas municipais em 2020 o partido de Le Pen fracassou, e comanda apenas uma cidade francesa com mais de 100 mil habitantes, Perpignan, e segue limitado com os parisienses, maior colégio eleitoral do país.

Principais nomes na disputa por Paris
Com o anúncio de que a atual prefeita, Anne Hidalgo do Partido Socialista (PS), não concorreria para um terceiro mandato, a sua legenda decidiu por Emmanuel Grégoire na disputa. Apesar de os conselheiros decidirem o prefeito e não os eleitores propriamente, o voto é na lista de candidatos do nome à prefeitura escolhido pelos partidos.
Deputado na Assembleia Nacional desde 2024, foi vice-prefeito de Hidalgo entre 2018 até ocupar a câmara baixa, e agora o partido de esquerda aposta em seu nome com o apoio do Partido dos Ecologistas (LE), o Partido Comunista Francês (PCF) e o Praça Pública (PP). vale destacar que o LE desistiu de candidatura própria visando combater uma possível vitória da direita.
Suas principais bandeiras de campanha se baseia no lema “união da esquerda e dos ambientalistas”, defendendo que seguirá com propostas voltadas a sustentabilidade como Hidalgo, como criação de parques e investimento em transporte público, mas também com novas medidas para combater os preços da habitação, como leiloar imóveis vazios a mais de 12 meses e não elevar os impostos.
Na oposição o principal nome é Rachida Dati, do Republicanos (LR), até então ministra da cultura, e que já foi deputada europeia pela França entre 2009 e 2019. Apoiada pelo Movimento Democrático (MoDem) e a União dos Democratas Independentes (UDI), ambos de centro-direita, aparece em segundo lugar nas principais pesquisas de intenção de voto.
Segundo pesquisa de 3 de março do instituto Ipsos realizada pela Escola de Engenharia BVA-CESI para a rádio ICI Paris Île-de-France, Dati tem 27% das intenções, enquanto Grégoire aparece com 35% na liderança. Suas propostas se baseiam em limpeza urbana, e principalmente segurança pública, maior preocupação para 51% dos entrevistados pela Ipsos.
Dentre as propostas está o fechamento da Champs Elysée durante a noite para evitar crimes, e aumento do poder da polícia municipal principalmente, passando a poder checar identidade das pessoas aleatoriamente, acesso a base nacional de dados e presença em escolas.
Em terceiro lugar, com cerca de 10% das intenções está Pierre-Yves Bournazel do partido de direita Horizontes. Com um comportamento forte, escolheu não apoiar Dati conforme a direita francesa esperava, tomando em conta que a candidata enfrenta resistência por parte do eleitorado pelo processo que enfrenta na justiça por corrupção passiva e tráfico de influência quando foi eurodeputada.
Ex-assistente de comunicação da candidata, defende uma redução dos gastos públicos com cortes de empregos, além de triplicar as tropas da polícia municipal, passando de pouco mais de 2 mil agentes para 6 mil, e armá-los com armas de fogo como pistolas, ferramentas consideradas por ele como necessárias para a função. A candidatura é apoiada inclusive pelo Renascença (RE), partido de centro-direita do presidente Macron.
Do outro lado do espectro político, Sophia Chikirou concorre pelo França Inssubimissa (LFI), partido de esquerda, com ideias polêmicas como a saída da França da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). A candidata faz parte da Assembleia Nacional desde 2022, e se recusou a apoiar Grégoire, mantendo sua candidatura própria mesmo sem apoio de outras legendas.

Suas principais propostas defendem uma Paris mais sustentável, com a transformação de ciclovias em ciclofaixas delimitadas e protegidas dos carros, por exemplo. Proibir o uso de armas letais pela polícia e qualquer ato discriminatório em abordagens, ao passo que defende a criação de centros comunitários policiais e canais legais de denúncia.
Também são destaques a criação de pontos de apoio a moradores em situação de rua pela cidade e programas de ressocialização, oportunidades de emprego para imigrantes, e defesa do bem-estar animal com zonas livre de coleira para cachorros e encorajamento de adoção de dietas plant-based nas políticas da cidade.
Em relação à extrema direita, Sarah Knafo do “Reconquista!”, semelhante ao “CHEGA” em Portugal não só na estilização do nome do partido, aparece tecnicamente empatada com Bournazel e Chikirou de acordo com a pesquisa da Ipsos com 11.5% das intenções de voto.
Eurodeputada eleita em 2024 na onda extremista que afligiu Macron, faz parte inclusive da bancada Europa das Nações Soberanas, criada pela AfD e com ideias anti-imigração, pró-rússia e uma “visão em relação à sociedade baseada na etnia e na ancestralidade incompatível com a democracia”, segundo o Departamento Federal de Proteção da Constituição Alemão.
Sua candidatura não tem apoio e outras legendas, e dentre as principais medidas no plano de governo está a privatização de serviços públicos como a limpeza urbana (criticada por 54% dos entrevistados pela Ipsos), corte de 50% dos funcionários públicos e eliminar subsídios a setores como habitação, para associações “politizadas e ativistas” que não servem aos interesses do município.
Na disputa ainda há Thierry Mariani do Reunião Nacional, partido de Marie Le Pen e que apesar de aparecer com apenas 4% das intenções de voto, pretende chegar ao segundo turno mesmo se unindo aos oponentes de mesmo espectro político. Ele defende a rejeição de imigracao, desmantelamento de alojamentos e interrompimento de requisições para documentos de imigrantes em situação irregular no país, além de cortes na máquina pública e reavaliação dos impostos cobrados.

O voto não é obrigatório no país, e em 2020 a taxa de comparecimento foi de apenas 44,3%, em partes devido ao coronavírus, já que foi de 63,5% em 2014. Para esse ano, a expectativa é de aumento no índice da prefeitura, que precisa contar manualmente as cédulas depositadas em cada uma das urnas transparentes pela cidade. Além disso, o resultado promete ser mais acirrado que nunca, e direcionar os próximos passos para Macron e Le Pen.