Maria Luiza das Graças Nunes, é fundadora da organização social sem fins lucrativos Fênix, que opera com uma base de 550 funcionários, no bairro do Tatuapé, na zona leste da capital paulista. Essa Organização Social de Saúde é uma entidade privada sem fins lucrativos, que se mantém com a prestação de serviço a Unidades de Pronto Atendimento, que envolve pequeno e médio diagnóstico e administração. “Você compra desde o remédio até o serviço de engenharia”, Maria Luiza explica.
Nascida em 8 de agosto de 1948, uma mulher independente, à frente de seu tempo, nunca se importou com os julgamentos que seus sonhos acarretavam. Viveu a primeira infância em uma fazenda no estado de Minas Gerais com sua família, mas, ainda na pré-adolescência aos 13 anos de idade, se mudaram para São Paulo. “Nós viemos para São Paulo, mas porque meu pai era muito bem de vida, muito rico, mas acabou perdendo tudo”, conta.
Já na grande metrópole no ano de 1962, Maria Luiza começou a trabalhar no bairro do Brás (SP), incentivada pela mãe a buscar sua própria independência desde jovem: “A minha mãe era muito independente, autoritária dentro de casa. Meu pai era fazendeiro, não tinha instrução, mas tinha dinheiro”.
Quatro anos após sua chegada em São Paulo, Maria conhece o homem que seria seu primeiro marido. Casou-se ainda nova, aos 17 anos. Seus pais não estavam de acordo, mas quando Maria Luiza coloca algo na cabeça, ninguém a impede de executá-lo.
“Eu me casei muito nova, na época não entendia o que é o amor. Eu fui envolvida, comecei a namorar e dentro de um ano ele quis casar. Eu não estava grávida, mas casei. Meus pais não deram muita opinião no casamento, porque eu sou muito xereta e muito independente. Eles diziam: ‘Quer casar, casa’”.
Em 1965, no mesmo ano em que casou, a jovem das Graças, engravidou de sua filha mais velha. Casada com um militar e com uma recém-nascida, ela precisou parar de trabalhar e dedicar-se à família.
Apesar de aparentar o modelo de família tradicional brasileira, ela sentia que queria mais da vida, no entanto, em um relacionamento com um companheiro ciumento, Maria não encontrava o caminho para conseguir buscar a sua felicidade.
“Meu primeiro marido, era militar e muito ciumento, não deixava sair nem na porta. Mas na minha família, dizemos que precisa das mulheres ser muito independente, aí eu me separei dele, aos 21 anos, com uma filha de quase 3 anos. Mas ele era apaixonado por mim e pediu pra voltar. Nós voltamos, mas com a condição de que eu pudesse voltar a trabalhar e terminar meu curso médio (Ensino Médio)”, relata.
Com a ajuda de uma amiga, Maria Luiza, voltou a trabalhar. Conseguiu um emprego no Hospital Tide Setúbal, na zona leste de São Paulo. No novo emprego, ela conseguiu dar mais um passo em seus objetivos: voltou a estudar para concluir o ensino médio e, paralelamente, iniciou o curso de Técnica de Enfermagem no Centro Universitário Braz Cubas, em Mogi das Cruzes (SP). Passados os três anos de curso, foi promovida e assumiu a chefia do departamento de recursos humanos do hospital. “Eu fui a única da minha família a fazer curso universitário”, conta com orgulho.
Dedicada ao seu trabalho, participava ativamente da comunidade hospitalar e do cuidado com pacientes. Com o esforço do seu trabalho, ela pode arcar com os custos dos estudos de sua maior incentivadora, sua mãe. “Eu fui incentivada pela minha mãe. E, com o primeiro salário que eu tive, eu paguei o curso de cabeleireiro para ela. Cheguei a trabalhar aos finais de semana fazendo hora extra para comprar o material. E quando ela se formou, abriu um salão na frente de casa, o que trouxe uma renda a mais.”
Ainda na gerência do RH do hospital Tide Setúbal, Maria Luiza ingressou na antiga Faculdade Zona Leste no curso de Serviço Social. Para dar conta das demandas do departamento e dos estudos, passou a incentivar a autonomia dos setores do hospital.
Com as inovações que implementava para melhorar o funcionamento do hospital, Nunes passou a ganhar reconhecimento e confiança das chefias e dos médicos de alto cargo. “Conheci o Dr. Marco Aurélio, Dr. Gildo, e o Dr. Tércio, que era superintendente da Santa Casa de São Paulo. E quando eu estava, Dr. Técio falou, ‘agora você vai fazer administração hospitalar’ e eu fui estudar Administração Hospitalar na Faculdade São Camilo”.
Com a formação em Administração Hospitalar, e dentro da administração, Nunes começou a conhecer políticos que chegavam pedindo atendimentos. A partir dessas relações,foi convidada para atuar como assessora de um vereador, além de ser transferida para o Hospital do Servidor Público Municipal. Lá se tornou responsável pela área de Recursos Humanos.
Maria Luiza criou uma rede diversificada de contatos. chegou a conhecer Paulo Maluf, ex-Deputado e ex-Governador do Estado de São Paulo, que a inseriu no gabinete do prefeito, cargo que Maluf ocupava. Nessa época, ela emergiu financeiramente e socialmente.
Foi nesse contexto que surgiu seu primeiro projeto de assistência social: uma casa de idosos. “Fazia matrícula de idosos nos postos [de saúde], conseguia remédio, fazia fisioterapia.” Segundo a entrevistada, ela tinha nascido com esse instinto social. “Eu via necessidade, nunca fiz para me promover. Nunca foi isso, nunca mesmo.”
Maria Luiza engajou, em seguida, em outros projetos: a direção do PAS no bairro de Ermelino (SP), e assumiu a presidência da cooperativa de nível médio e logo depois, de nível universitário também. Entrou em um projeto da Secretária do Trabalho em São Paulo, com cerca de 5 mil alunos em cursos especializantes em toda Grande São Paulo. “Ofereciamos especialização para o pessoal que estava desempregado.”
Ao entrarmos na vida pessoal, Nunes coloca “Eu nunca pus a minha família em primeiro lugar”. Seus dois maridos, que os casamentos duraram 17 e 14 anos respectivamente, não incentivaram sua carreira. “O primeiro não suportava. Mas o segundo não se incomodava”. Além disso, relata que recebeu muitos julgamentos durante a vida. “Que eu era fora da casinha, que eu era muito atirada, que eu era muito além da minha época”, diz.
Os projetos sociais, para Maria Luiza, foram uma realização pessoal. Ao ser perguntada sobre arrependimentos, afirma não ter nenhum. “Só me arrependo de ter parado de estudar, porque era para eu ser uma engenheira da NASA.”
No final, Maria Luiza deu um conselho: “Mulher tem que ser independente financeiramente e intelectualmente. Porque, senão, ela fica para trás”.