Eu costumava dizer que ia mais ao veterinário do que trabalhar presencial, mas desde que você se foi, me tornei mais presente no escritório. Não porque tenha escolhido estar lá, mas porque a vida passou a exigir presença mesmo quando eu ainda não sabia muito bem como estar de fato nela. Todos entenderam que eu precisava trabalhar em casa para poder cuidar de você, que sempre cuidou de mim, até mesmo quando mal conseguia me chamar. Agora, sem você, é preciso voltar a trabalhar, estudar, atravessar a cidade, chegar em casa e dormir para fazer tudo outra vez no dia seguinte.
Para algumas pessoas, voltar ao escritório significa perder tempo no trânsito, carregar uma bolsa pesada e passar o dia sentado em uma posição formal para não dar má impressão. Para mim, significa outra coisa. Significa voltar a cumprir uma rotina que tinha sido interrompida.
Depois de meses trabalhando em casa, percebi que sou capaz de acordar bem mais cedo para trabalhar, mas o corpo sente o cansaço no fim do dia. O cansaço que aparecia na sexta à tarde chega na quarta-feira de manhã, e mais dois dias ainda precisam ser cumpridos. A vida adulta não tem muita consideração pelo luto.
O cansaço de estar no escritório ainda não apareceu. Enquanto muitos querem escapar do presencial, para mim, é uma novidade que distrai a cabeça. Aquele lugar não me lembra o que eu tinha. É impossível ouvir aquela voz me chamando, que, na verdade, até hoje ouço, mesmo sabendo que é coisa da minha cabeça. A distração é boa, mas o fim do dia vai chegando e outra novidade aparece: a ansiedade.
Há anos que não sou ansiosa. Não posso nem dizer que sou curiosa. Quando dizem “amanhã eu te conto”, consigo dormir tranquilamente. E, quando todos sabem de algo e eu não, eu realmente não ligo. Mas agora, de repente, o peito fica pesado, a respiração mais rápida, os olhos ardem, e não é do ar-condicionado secando as lentes de contato, não é o sol batendo forte e não é a maquiagem escorrendo. É apenas ansiedade.
Vai chegando o final do dia e, sem motivo algum, sem nada estar acontecendo na minha vida, essa sensação ruim vem aparecendo. Cada passo parece maior. Se antes eu dava 30 passos para virar a esquina e chegar no portão do condomínio, agora parece que dou o dobro. Sinto a mão mais pesada para abrir o portão, a rampa parece mais íngreme e o barulho do elevador chegando está bem mais alto. E, chegando em casa, um alto silêncio absoluto.
Quando o trabalho acaba e depois a aula, nesse caminho para casa, nunca fui de ler ou assistir a algo. Minha companhia sempre foi apenas a música. Uma delas, sobre terem arruinado a vida da compositora, me fez lembrar da única ausência que nunca consegui imaginar ou me preparar para ter. A música não tem nada a ver com o que eu sinto, mas penso que prefiro que tivessem arruinado minha vida a ter perdido a razão dela.
Eu tinha um motivo todos os dias para levantar e trabalhar com algo de que não gosto, porque não sou boa, mas acabei caindo nessa área de paraquedas. Tinha também um motivo para voltar para casa, para reclamar do cansaço, para acordar no dia seguinte e começar tudo outra vez. Agora, a rotina continua, mas diferente.
A parte mais estranha do luto é descobrir que o mundo não para junto com você. Ainda é preciso seguir com as obrigações. Mas agora eu tenho que sair e fazer outras coisas, e isso me traz culpa, porque parece que antes estava aprisionada e agora posso fazer o que quiser. Mas eu trabalharia presencialmente todos os dias a não ter mais aquilo comigo, aquilo que me trazia uma felicidade capaz de superar qualquer acontecimento ruim nos meus dias presenciais.