A desaceleração da inflação, não se traduz como baixo custo de vida

Entenda por que o brasileiro ainda sente o peso da inflação no bolso
por
Chloé Dana
|
27/03/2026 - 12h

Brasil passou por uma queda de 0,07% na inflação, em outubro de 2025, menor patamar em 27 anos para o mês. Porém, a queda da inflação não necessariamente é sinônimo de preços mais baratos, apesar desse mini desacelero, o bolso do brasileiro ainda pesa. Embora os índices mostrem que os preços estão subindo em um ritmo mais lento, isso não significa que eles estejam diminuindo. Pelo contrário: os preços continuam aumentando e, em muitos casos, permanecem em níveis elevados após anos consecutivos de inflação significativa.

Para entender essa dinâmica, é importante lembrar que a inflação mede a variação dos preços ao longo do tempo, e não o seu nível absoluto. Um dos fatores que explica essa percepção está na forma como a inflação é medida. O IBGE realiza a Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), que identifica o que as pessoas compram e define, a partir disso, quais itens compõem a cesta usada para calcular a variação dos preços. O problema é que essa pesquisa não é atualizada há algum tempo, o que faz com que a cesta inclua produtos que os brasileiros já não consomem mais, cujos preços estão em queda e deixam de fora itens que passaram a fazer parte do consumo cotidiano. Atualizar esse índice, para que ele reflita melhor a realidade do consumo da população, é, portanto, um passo essencial para aproximar a inflação oficial da inflação sentida no dia a dia.

Esse efeito acumulado é especialmente visível em itens essenciais, como alimentação, transporte, moradia e saúde. Mesmo quando há períodos de desaceleração ou até pequenas quedas pontuais, os preços dificilmente retornam aos patamares anteriores. Assim, o custo de vida permanece elevado, exigindo uma parcela cada vez maior da renda das famílias para cobrir despesas básicas. Para as classes de menor renda, esse cenário é ainda mais crítico, já que a maior parte do orçamento é destinada ao consumo de bens e serviços essenciais.

A economista e professora da PUC-SP, Cristina Helena Pinto de Mello. comenta sobre o peso desses custos. “Alimentação também pesa, mas você consegue substituir trocar o alimento, muda o consumo. Já moradia e transporte não têm como substituir. Você precisa ir trabalhar, precisa morar.”

“Para famílias mais ricas, a habitação pesa menos porque elas têm imóvel. Mas para quem aluga, é uma despesa muito grande. E, olhando para as classes mais pobres, isso é ainda mais sensível. A gente está falando de uma população com renda muito baixa. Às vezes mil reais por mês. Isso dá cerca de 250 reais por semana para tudo: morar, se transportar, vestir e comer. É muito difícil.” conclui

Outro aspecto importante é a discrepância entre a elevação dos preços e o crescimento da renda das pessoas. Apesar de o salário mínimo e outras fontes de receita poderem passar por ajustes regulares, esses aumentos não necessariamente refletem o verdadeiro custo de vida. Na realidade, isso implica que o poder aquisitivo do cidadão brasileiro permanece restrito. Mesmo quando há um aumento nominal, ou seja, um acréscimo na quantia recebida, tal aumento pode ser compensado pelo aumento de preços de bens e serviços essenciais. Como consequência, muitas famílias são obrigadas a mudar seus padrões de consumo, diminuir despesas ou até renunciar a produtos que consideram básicos. 

A impressão de que "tudo ainda é muito caro" é também amplificada por elementos subjetivos, como a regularidade de certos gastos. Despesas realizadas frequentemente, como alimentação e transporte, influenciam mais a visão da inflação do que gastos menos recorrentes. Portanto, mesmo com alguns produtos apresentando preços mais baixos, o consumidor tende a notar com mais clareza aqueles que seguem com elevações, especialmente em sua rotina. Essa percepção se conecta a uma expectativa de qualidade de vida que não se concretiza. As pessoas não fazem comparações de preços com outros países, mas idealizam um nível de consumo que não conseguem alcançar e é essa discrepância entre o que desejam e o que é viável que intensifica a sensação de que o custo de vida segue elevado.

“Então por que o brasileiro tem essa percepção de que tudo é tão caro? Acho que tem a ver com expectativa de qualidade de vida que não se realiza. As pessoas não comparam com outros países, mas idealizam um padrão de consumo que não conseguem atingir. Não ter uma racionalidade de olhar e falar: pera, o ovo no Brasil é mais barato do que no resto do mundo.” argumenta Cristina

Nesse contexto, a desaceleração da inflação deve ser interpretada com cautela. Embora represente um avanço importante do ponto de vista macroeconômico, indicando maior estabilidade e previsibilidade, seus efeitos positivos não são imediatos nem uniformes para toda a população. O alívio no custo de vida depende de um conjunto mais amplo de fatores, incluindo o aumento real da renda, a estabilidade prolongada dos preços e a redução das desigualdades econômicas.

Portanto, a melhora nos índices de inflação não deve ser confundida com uma melhora automática nas condições de vida. Para que o impacto seja efetivamente sentido pela população, é necessário que haja uma recuperação gradual do poder de compra, permitindo que as famílias consigam equilibrar suas despesas sem comprometer seu bem-estar. Até lá, a realidade para muitos brasileiros continua sendo marcada pelo desafio de lidar com um custo de vida elevado, mesmo em um cenário de inflação aparentemente controlada.