Conflito Irã-EUA amplia tensão diplomática no Brasil

Nota do Itamaraty expressa preocupação com a escalada do conflito e cobra contenção e diálogo entre as partes
por
Malu Malaquias
|
09/03/2026 - 12h

O Itamaraty, Ministério das Relações Exteriores, divulgou na manhã do último sábado (28), uma nota oficial condenando os ataques coordenados dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, alertando para os riscos de uma escalada militar no Oriente Médio.

O conflito entre os dois países entrou em uma nova fase, marcada por um envolvimento direto dos EUA em uma guerra aberta contra o Estado Iraniano. A escalada incluiu a morte do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, confirmada por meio da mídia estatal e de comunicados oficiais do governo do Irã, que decretaram luto nacional e iniciaram uma reorganização emergencial do poder político. Também, em resposta aos ataques, o Irã lançou mísseis e drones contra bases dos EUA no Golfo Pérsico e alvos indiretos em Israel e países aliados, ampliando a crise para uma dimensão regional e global e provocando instabilidade internacional, com alta do petróleo, tensão nos mercados e o risco de um conflito prolongado.

O governo brasileiro, por sua vez, por meio Itamaraty, divulgou em sua nota oficial:

“O Governo brasileiro condena e expressa grave preocupação com os ataques realizados por Estados Unidos e Israel contra alvos no Irã. As ações ocorreram em meio a um processo de negociação entre as partes, que é o único caminho viável para a paz, posição tradicionalmente defendida pelo Brasil na região”, afirma o comunicado.

Na nota, o Brasil também:

  • Reitera que ações armadas contra instalações nucleares representam grave ameaça humanitária e ambiental;

  • defende o uso exclusivamente pacífico da energia nuclear;

  • pede máxima contenção e o retorno imediato à via diplomática;

  • informa que as embaixadas brasileiras na região estão em alerta, monitorando a segurança dos cidadãos brasileiros.

A posição mantém uma linha histórica da diplomacia nacional, baseada na não intervenção e no respeito à Carta das Nações Unidas.

Andre Veras Guimarães, embaixador do Brasil no Irã. Foto: Geraldo Magela/Agência Senado
Andre Veras Guimarães, embaixador do Brasil no Irã. Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

A manifestação do Itamaraty gerou forte debate político interno, especialmente em setores do Congresso ligados à Comissão de Relações Exteriores da Câmara. Parlamentares criticaram o posicionamento do Executivo, que estaria excessivamente alinhado ao governo iraniano.

“Quando o Brasil decide se alinhar a regimes que financiam o terror, perseguem mulheres, ameaçam varrer Israel do mapa e desafiam a estabilidade mundial, não estamos diante de um simples gesto diplomático. Estamos diante de uma escolha moral”, afirmou o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, em publicação na rede social X.

Por outro lado, diplomatas, acadêmicos e movimentos sociais, como Anistia Internacional (Amnesty International), pediram cessar-fogo imediato, defendendo a postura brasileira, argumentando que o país segue o direito internacional e que ataques preventivos a instalações nucleares violam tratados globais, ampliando riscos humanitários e econômicos à escala mundial.

“Não há solução duradoura fora do diálogo e da negociação. A guerra amplia o sofrimento, desestabiliza economias e coloca vidas inocentes em risco”, afirmou o líder do PT na Câmara, deputado Pedro Uczai, também em publicação no X.

Apesar da distância geográfica, o Brasil sente repercussões indiretas do conflito, como a preocupação com a alta dos combustíveis no país, diante da valorização do petróleo no mercado internacional. No agronegócio, o receio é de aumento nos custos de produção e transporte, além de instabilidade nos mercados internacionais de commodities. 

Foto oficial do Brics com seus membros. Da esquerda para direita: Minister Sergei Lavrov (Rússia), Khaled bin Mohamed Al Nahyan (Emirados), Prabowo Subia (Indonésia) Cyril Ramaphosa (Áfric do sul) Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil) Primeiro ministro, Narendra Modi (Índia) Premier Li Qiang (China) Abiy Ahmed (Etiópia) Mostafa Madbouly (Egito) Abbas Araghchi (Irã) Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
Foto oficial do Brics com seus membros. Da esquerda para direita: Minister Sergei Lavrov (Rússia), Khaled bin Mohamed Al Nahyan (Emirados), Prabowo Subia (Indonésia) Cyril Ramaphosa (Áfric do sul) Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil) Primeiro ministro, Narendra Modi (Índia) Premier Li Qiang (China) Abiy Ahmed (Etiópia) Mostafa Madbouly (Egito) Abbas Araghchi (Irã) Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Somado a isso, foram registradas manifestações e notas públicas de entidades estudantis, movimentos pacifistas e organizações da sociedade civil, como a CBJP (Comissão Brasileira Justiça e Paz), que defende o fim da guerra, o respeito à soberania dos povos e fez críticas à política externa dos Estados Unidos.

O conflito ocorre ainda em um momento sensível para o Brasil no cenário internacional, especialmente diante de sua atuação no BRICS,da tentativa de se posicionar como mediador diplomático em crises globais e do esforço para manter autonomia estratégica frente às grandes potências. Analistas avaliam que a postura brasileira reafirma a tradição diplomática do país e seu compromisso com o multilateralismo.