Condições precárias impulsionam greve na USP

Greve geral de estudantes e funcionários busca melhorias na Universidade de São Paulo
por
Sofia Martins
Beatriz Foz
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21/05/2026 - 12h

A greve de estudantes e funcionários paralisou 130 cursos da Universidade de São Paulo no começo de abril. No dia 14, a greve de funcionários foi aprovada pelo Sindicato dos Trabalhadores da USP (SINTUSP) e nos dias seguintes, de 15 e 16 de abril, os estudantes aderiram ao movimento, convocados pelo Diretório Central Estudantil (DCE) após assembleias coletivas em diversos cursos. Sem previsão de retorno às atividades normais da universidade e com uma programação paralela de atos estudantis e passeatas, a paralisação une trabalhadores e estudantes, que pedem melhorias no espaço estudantil e isonomia salarial.

Os funcionários da universidade entraram em greve, principalmente, pelo projeto da Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas (Gace). A gratificação consiste em um aumento de R$ 4.500,00 durante dois anos para docentes exclusivos, que oferecessem aulas extracurriculares aos alunos da universidade. O bônus foi visto como uma medida excludente e injusta pelos servidores da USP, que decretaram greve reivindicando isonomia salarial. 

Wilson Maia, técnico de laboratório da Escola Politécnica e filiado ao SINTUSP declarou que os funcionários sempre ficam "em segundo lugar”, explicando que a atual reitoria privilegia somente os professores. “Isso só vai mudar se tiver greve, manifestação com bastante força que nem eu acho que está tendo agora.”, complementou o técnico. 

Em entrevista à AGEMT, Mirela Bueno Pacífico, estudante de letras da Faculdade de Letras, Filosofia e Ciências Sociais (FFLCH) e filiada ao Movimento Rebeldia, destaca que  a gratificação proposta pela reitoria é apenas uma manobra para não reajustar oficialmente os salários de todos os funcionários. “O salário dos trabalhadores e dos próprios professores está defasado há anos, e eles não fazem reajuste”, conclui a estudante. 

Exigindo melhorias no Programa de Permanência Estudantil e maior qualidade dos espaços da universidade, os estudantes paralisaram mais de 100 cursos. As principais reivindicações são melhorias no Conjunto Residencial da USP (CRUSP), que passou semanas com problemas de energia, resultando na falta de água e de luz; melhoria da qualidade da alimentação dos Restaurantes Universitários, que apresentaram larvas, baratas e até pedaços de pedras em unidades diferentes (principalmente no bandejão da Química, no campus Butantã, e no bandejão da São Francisco) e o reajuste do valor do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE), considerado atualmente um valor insuficiente de R$ 885,00 mensais.

Em relação à precarização do CRUSP, o estudante de letras João Vitor Santos, comenta que alguns blocos da residência ainda não estão estabilizados após a falta de energia. “Isso mostra que a universidade não faz nada para os estudantes permanecerem, na verdade contribui para que eles sejam expulsos diretamente”, acrescentou o estudante.

Galão de água com o escrito "Cadê a água do CRUSP?" em frente a reitoria. Reprodução:/ (@dceusp)
Em protesto pela falta de energia do CRUSP, estudantes colocam galão de água vazio em frente à reitoria. Reprodução:/ (@dceusp)

Como manifestação, os estudantes e trabalhadores da Universidade de São Paulo marcharam do portão 1 da USP Butantã até a Av. Faria Lima, na quinta-feira (23).

O professor de história e sociologia Marco Cabral, doutor em História Econômica pela FFLCH-USP, comenta que as greves nas faculdades públicas acontecem, principalmente, por uma disputa por orçamento. “A gente tem um orçamento limitado, o país é cheio de carências e alguns setores merecem mais atenção. Acho que a educação tem sempre menos força para tracionar esse cabo de guerra.”, explica o professor. Marco destaca a importância dos movimentos estudantis para a melhoria do funcionamento das universidades. “Muitas das conquistas que as universidades públicas tiveram também aconteceram por influência da pressão dos movimentos estudantis. A universidade prospera também graças à essa pressão.”, declarou o historiador.

Dany Oliveira, aluna de Artes Cênicas da Escola de Comunicação e Artes (ECA) e diretora do DCE Livre da USP, comenta sobre as dificuldades dos alunos da Universidade de São Paulo: “Muitos trabalhadores e jovens vindos da periferia, que ingressam na faculdade, têm vivenciado um completo desmonte do ensino público. A vida desses estudantes é insustentável, é inconciliável morar longe, trabalhar, estudar e conseguir terminar o seu curso, a universidade não se importa com a falta de condições em prosseguir com os estudos”. Com relação ao bandejão e a terceirização dentro da universidade, Oliveira critica: “A USP está num processo de privatização dos bandejões, os bandejões terceirizados têm cumprido um papel de precarizar a vida dos trabalhadores, usar horários exaustivos de jornada e oferecer a pior qualidade de comida. O problema não está nos trabalhadores, mas no fornecimento que as empresas têm destinado para a USP.”

No dia 23 de Abril, os servidores da USP aceitaram a proposta da reitoria e decidiram pelo fim da greve dos funcionários. A proposta apresentada ao SINTUSP propõe uma gratificação mensal aos trabalhadores no valor de R$ 1.600,00. O dinheiro seria oriundo do mesmo montante destinado aos docentes da USP e pagamento acompanharia o cronograma de vencimento da gratificação dos professores, previsto para o início de 2027, durante dois anos. Além disso, o acordo tem o intuito de oferecer aos trabalhadores terceirizados melhores condições de transição dentro do campus, similares aos dos funcionários da universidade, podendo incluir a criação de novo sistema de transporte gratuito. Parte dos trabalhadores voltaram à rotina normal de trabalho na sexta-feira (24), enquanto o restante voltou na segunda-feira (27). Mesmo após paralisação da parte dos trabalhadores, os estudantes seguem em greve.

As manifestações estudantis que prosseguiram contaram com protestos e críticas contra o atual governo de São Paulo, que tem se omitido diante da situação. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, na terça-feira (05), limitou-se a dizer que "a greve não entra na minha cabeça. É uma falta de oportunidade, os estudantes têm que estudar”. O governador optou por não discutir as questões dos bandejões, CRUSP, terceirização e outros. 

Oliveira esclarece as condições atuais da Universidade de São Paulo: "Sou ex-moradora do CRUSP, morei até o final do ano passado (2025) e a situação da moradia é muito precária, eu passei quase dois meses sem chuveiro e água em casa. A justificativa da universidade foi de que não havia condições de manutenção por falta de funcionários voltados para essa área. Os bandejões até 2023 não funcionavam no fim de semana, então os moradores do CRUSP não tinham o que comer.” 

O Deputado Estadual Guilherme Cortez (PSOL), em entrevista à AGEMT, diz que "a greve é muito legítima, é lamentável que o corpo diretor da universidade não tenha se disposto a ouvir as demandas, é uma greve que merece todo nosso apoio, por que não é só pelos direitos dos estudantes, que são muito importantes, mas para que a universidade pública tenha o dinheiro adequado para cumprir com seu papel social no Estado”. O parlamentar comenta que a situação da Universidade de São Paulo é muito crítica, desde de 1995 e que investimentos mínimos nas universidades estaduais não são reajustados. “Isso na ponta vai implicar menos dinheiro para a permanência estudantil, menos dinheiro para os bandejões, para o trabalho dos hospitais universitários… tudo isso prejudica a atividade dos estudantes”, complementa Cortez. 

A manifestação foi marcada por cartazes e fotos do governador Tarcísio de Freitas como um soldado nazista, junto do reitor Aluísio Augusto Segurado com uma bandeja com larvas nas mãos. Segurado não estava presente na ocupação da reitoria, ignorando a ação dos estudantes.

Cartazes de caricaturas de Tarcísio de Freitas e Aluísio Augusto Segurado durante o ato em frente a reitoria do dia 28/05. Foto: Beatriz Foz.
Cartazes de caricaturas de Tarcísio de Freitas e Aluísio Augusto Segurado durante o ato em frente a reitoria do dia 28/05. Foto: Beatriz Foz/Agemt.

Após prosseguirem com manifestação na USP Butantã, estudantes ocuparam a reitoria na quinta-feira (07). Imagens gravadas por um funcionário e alunos mostram o portão sendo derrubado e portas de vidro do prédio da administração central sendo quebradas. Segundo os alunos, não há intenção de encerrar os atos e manifestações continuarão a favor de melhores condições na universidade, enquanto não houver uma negociação com a reitoria. 

 

Alunos seguram cartazes em manifestação. Reprodução:/(@dceusp)
Alunos seguram cartazes em manifestação. Reprodução:/ (@dceusp)

Depois de adentrarem o saguão da reitoria, a Polícia Militar foi acionada. Os policiais interromperam o ato, usando bombas de gás lacrimogêneo, cassetetes, ‘corredor polonês’ para desocupar o prédio, a ação durou aproximadamente 15 minutos. Quatro estudantes foram detidos e levados ao 7º Distrito Policial, da Lapa, onde foi registrado um boletim de ocorrência por dano a patrimônio público e alteração de limites. A gestão do Reitor Aluísio Cotrim Segurado repudiou o ocorrido, afirmando que a PM agiu sem o conhecimento da reitoria e que "nada substitui o diálogo, a pluralidade de ideais e a convivência democrática como forma de avanço de pautas e solução de controvérsias". O deputado federal Kim Kataguiri (Missão) se pronunciou sobre o caso e falou em “descer a borracha” nos participantes.