As páginas de fofoca em redes sociais servem como meios rápidos para obter informações. Com conteúdos que vão do dia a dia de celebridades a acontecimentos diários, esses perfis acumulam milhões de seguidores e alto engajamento. Na era digital, essas páginas geram debates sobre o poder para moldar a opinião da sociedade. Críticos argumentam que a intenção não está no compartilhamento de informações, mas sim em polemizar e engajar em cima de assuntos sérios.
Perfis como “Alfinetei” e “Choquei”, aparecem entre os 50 mais seguidos de todo o Brasil. Com mais de 25 milhões de seguidores, esses perfis superam famosos como William Bonner e Claudia Leitte. A Choquei entrou para o Top 3 mundial de perfis que mais propaga notícias falsas no X (antigo Twitter). Esse levantamento é feito a partir dos dados das Community Notes (Notas da Comunidade) da plataforma, em que os usuários colaboram para contextualizar posts enganosos.
O caso mais conhecido de fake news envolvendo a Choquei foi com a jovem Jéssica Canedo, que se suicidou no final de 2023 após uma postagem falsa da página. A publicação em questão dizia que a garota estava enviando mensagens amorosas para o humorista Whindersson Nunes. Mesmo o fato tendo sido negado tanto pelo artista, quanto por Jéssica, a página não apagou a postagem e dias depois a jovem se suicidou.
O caso mostra a responsabilidade que esses perfis têm ao realizar uma publicação que será vista por milhares de pessoas. Com base nisso, em entrevista, Andréia Matos, dona da página de fofoca rainhamatos, com mais de 2.4 milhões de seguidores, reforça o cuidado que se deve ter ao publicar uma notícia: “Nós temos diretrizes internas e trabalhamos seguindo esses critérios. Então, checamos os fatos, as fontes e vamos atrás da vítima quando o caso ainda está aberto. A responsabilidade é muito grande, pois se publicarmos uma informação errada, podemos prejudicar a vida de alguém”. Para exemplificar, Matos cita um caso de 2018 com a cantora Marília Mendonça. No início de sua trajetória, ela descobriu com exclusividade a gravidez da cantora e publicou em seu Instagram. Tempos depois, Matos encontrou Marília e descobriu que havia tirado o direito da cantora de anunciar a gravidez para a própria mãe, que havia descoberto a gestação da filha pela imprensa. “Ética nós vamos construindo, há 8 anos eu não sabia que poderia magoar alguém, então tomei a decisão de não postar mais famosas que ficam grávidas. Eu precisei errar para aprender”, afirmou.
Usando a página rainhamatos como exemplo, em um dia as postagens podem chegar até 100 mil curtidas. No último domingo (17), o perfil publicou um depoimento do vereador Lucas Pavanato (PL-SP) e em menos de 24 horas a publicação rendeu 25 mil comentários e mais de 115 mil curtidas.
Nesse contexto, Matos comenta sobre o “poder” que páginas como a sua possuem: “ Ao rolar o feed do Instagram você vê diversas páginas como a minha e pode acabar sendo impactado por alguma notícia. Nesse exemplo do Pavanato, meu alto engajamento pode ajudar a conscientizar a sociedade sobre um político que defende opiniões como as dele. Eu tento dar voz às pautas que considero necessárias, sempre com muita responsabilidade”.
Por outro lado, o advogado digital Ricardo Fuga, traz um ponto de vista jurídico sobre o alto engajamento das páginas de Instagram. Sobre a regularização destas, Fuga apresenta o PL 2630/2020, conhecido como PL das Fake News, que buscava mais transparência e responsabilidade das plataformas, mas não foi aprovado. O advogado também afirma que uma regulação é necessária: “A dinâmica atual das plataformas digitais não envolve apenas liberdade de expressão individual, mas também estruturas privadas altamente concentradas, capazes de influenciar comportamento social, consumo de informação e circulação de discurso em escala massiva”.
Sobre as páginas de fofoca como meio rápido de circulação de informação, o advogado argumenta: “Elas se tornaram atores relevantes no ecossistema informacional contemporâneo. Muitas possuem audiência comparável a de veículos tradicionais de comunicação e exercem forte influência na formação de opinião pública”. Além disso, Fuga aponta a velocidade como principal desafio jurídico: “Informações falsas podem alcançar milhões de pessoas em poucos minutos, enquanto os mecanismos tradicionais de responsabilização judicial operam em ritmo muito mais lento”. Ele também reforça que alguns perfis pecam em padrões editoriais claros, não adotando protocolos de verificação e responsabilidade historicamente associados ao jornalismo profissional.