A Combinatória e o Mito na Arte

O processo lúdico que desafia a razão, de acordo com Italo Calvino
por
Gustavo Song Jun Choi
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16/06/2026 - 12h

A tese de Italo Calvino começa abordando tema do mito dando o exemplo de um contador de uma tribo, que começou a contar histórias para mostrar como as palavras podem se unir e criar ideias. Essa figura utilizava personagens como diversos animais e ações simples para expressar suas narrativas, que seguiam uma lógica em que algumas ações aconteciam numa ordem específica, como a transgressão após uma proibição, seguida da punição.

Desse modo, esse contador dava vida a seu mundo e transformava o significado das palavras e imagens, onde cada personagem e objeto ganhavam poderes narrativos. Observando que a narrativa oral primitiva usava estruturas fixas que permitiam diferentes combinações, uma vez que a imaginação popular não é infinita, mas permite variações mesmo em histórias similares.

Em seguida, o autor apresenta duas visões que tem sobre a literatura: uma onde afirma que a literatura é resultado da permutação de elementos limitados, enquanto a outra acredita que a literatura busca expressar o que não pode ser dito, trabalhando na borda do que é possível expressar. Exemplificando que o contador criava frases e imagens que podiam resultar em revelações inesperadas.

O mito, diz Italo, é a parte oculta de cada história. Ele precisa de momentos e lugares especiais para ser contado, além de rituais que vão além das palavras. Explica que os mitos se revelam em silêncios e tabus, onde a literatura busca explorar o que foi excluído da linguagem comum. Permitindo assim, redescobrir histórias esquecidas, levando as narrativas a revisitarem caminhos do passado. Tornando o inconsciente em um espaço para o que não se diz, que aparece por meio de lapsos e símbolos que tentam se expressar na linguagem. A literatura contemporânea, nesse raciocínio, se conecta ao que foi e não foi dito, desafiando a visão de que a realidade é apenas racional. Com a vinda da modernidade, surge uma tensão entre progresso e heranças do passado no contexto apresentado, questionando se o irracional pode coexistir com a razão.

O autor utiliza o ensaio de E.H. Gombrich como fonte para aprofundar sua tese, explicando como o historiador destaca, a partir da teoria de Freud, que o prazer em jogos de palavras emerge da capacidade de permutação e transformação na língua, valorizando combinações especiais de palavras. Gombrich também observa que a aproximação de

conceitos, mesmo por acaso, provoca ideias que, embora ocultas, podem voltar à consciência. Apontando que a poesia e a arte se assemelham a jogos espirituosos, onde o prazer na combinação de ideias leva os artistas a experimentarem com linhas, cores e palavras. Em certos momentos, uma combinação adquire um significado inesperado, um sentido inconsciente que não poderia ter sido buscado intencionalmente.

As ideias de Italo convergem na compreensão de que a literatura é um jogo de combinações que segue as possibilidades de seu material, independentemente da personalidade do autor, mas que, em um determinado momento, pode gerar um significado inesperado. O resultado poético disso impacta tanto a consciência quanto o inconsciente, com o choque ocorrendo quando a sociedade carrega seus fantasmas ocultos.

Ressaltando o exemplo do contador da tribo, o autor explica que essa figura continua a permutar personagens em suas histórias até que surja uma revelação significativa de que um mito que deve ser recitado em um espaço sagrado. Essa ideia, no entanto, contradiz a noção tradicional de que a fábula surge após o mito que havia abordado anteriormente. Sugerindo que a fabulação pode preceder a criação mitológica, atribuindo a aparição do valor mítico a quando o momento em que o contador continua a brincar com funções narrativas.

O mito que se forma no jogo do contador se transforma em algo ritualístico, passado da mão do narrador para as comunidades que preservam e celebram os mitos. O sistema de signos da tribo se organiza em relação ao mito, com alguns se tornando tabus, e o contador precisa inovar suas narrativas até que novas iluminações do inconsciente mudem o sistema de signos da tribo.

Por fim, Calvino encerra seu texto explicando que a função da literatura varia com o tempo. Em períodos longos, ela reforça valores e autoridade, mas também pode desafiar visões tradicionais. Isso torna a literatura uma forma de expressar a dualidade humana entre civilização e primitivismo, onde um mundo civilizado esquece seus ancestrais. Acredita também, que a literatura escrita nasce com um peso de consagração e confirmação da ordem estabelecida. Mas lentamente se liberta, tornando-se um espaço onde escritores e poetas expressam suas opressões.

Desse modo, Calvino transmite a mensagem de que a escrita não nasce de uma inspiração mística, mas de um processo lúdico e estrutural que, ao tocar no que é proibido ou silenciado pela linguagem comum, transforma o jogo em rito e a fabulação em conhecimento. Assim, a literatura cumpre a função de desafiar a ordem estabelecida e a racionalidade rígida, utilizando a liberdade das combinações para promover um espírito crítico coletivo.

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