A disputa entre China e Estados Unidos é uma das principais tensões geopolíticas no mundo atual. Não é uma guerra direta, mas uma constante competição em várias áreas, da tecnologia à econômica e militar. As duas potências disputam a liderança global há décadas.
Após o final da Guerra Fria e o colapso soviético, os EUA ficaram sem um rival equivalente e o modelo capitalista liberal ganhou força. Enquanto isso, a China passava por uma grande transformação econômica, mantendo o controle do Partido Comunista Chinês, mas preparando as bases para a abertura ao mercado internacional. A rivalidade surgiu após o crescimento econômico rápido da China, que a tornou uma ameaça para a hegemonia estadunidense.
Os dois países querem ser o centro da economia mundial, ambos brigam com tarifas, acordos e influências sobre outros países. Enquanto a China lidera o mercado de exportação mundial, os EUA ainda dominam as finanças e grandes empresas.
A tecnologia é o campo mais sensível e estratégico dessa disputa, com a corrida pelo domínio no mercado de inteligência artificial no centro da batalha. A concorrência é tanta, que empresas como Huawei viraram alvo de restrições dos EUA, que tentam também limitar o acesso da China a chips avançados. Todavia, quem liderar a tecnologia, irá dominar o futuro.
Em entrevista à AGEMT, o professor do curso de Relações Internacionais na PUC-SP, Augusto Rinaldi, destacou que o crescimento tecnológico chinês pressiona setores sensíveis dos EUA, sobretudo os de semicondutores, inteligência artificial e equipamentos de fabricação de chips, porém ao mesmo tempo, o impacto é limitado pelo peso estrutural da economia americana. “Ainda que os dois países estejam engolfados numa "guerra comercial", eles são profundamente interdependentes; portanto, a queda de um afetará o outro”, comenta Rinaldi.
O governo Trump anunciou restrições severas de viagem contra a China caso Pequim não acelere a repatriação de cidadãos em situação irregular nos EUA. A ameaça ocorre às vésperas da visita de Trump a Pequim, que ocorrerá nos dias 14 e 15 de maio de 2026, onde o presidente deve cobrar Xi Jinping pessoalmente. Atualmente, há mais de 100 mil chineses indocumentados nos EUA e 30 mil deles já possuem ordens de remoção.
As preocupações quanto à função do Brasil em meio a essa disputa crescem conforme a situação de discórdia se agrava. Vale ressaltar que a China é o maior parceiro comercial do Brasil. Empresas chinesas investem em energia, portos e infraestrutura no país, o que torna o Brasil dependente da demanda chinesa. Por outro lado, os investimentos americanos no país também são expressivos, por mais que seu maior parceiro comercial seja a China, o Brasil ainda funciona dentro de um sistema liderado pelos EUA.
Rinaldi enfatiza que a disputa entre China e Estados Unidos pode interferir de forma relevante em outros países, inclusive no Brasil, cada vez mais cobiçado pelas duas grandes potências pela sua relevância em setores econômicos estratégicos. "A China não interfere nos assuntos domésticos dos países, ao passo que os EUA, em particular no governo Trump, têm desempenhado papel central no apoio a candidaturas e forças políticas de oposição ao governo Lula”, afirma o professor.
A relação da China e do Brasil dentro do BRICS é uma das mais importantes do bloco, atuando juntos para fortalecer economias emergentes. A China é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009, empresas chinesas investem no Brasil em energia elétrica, infraestrutura, ferrovias e entre outros campos estratégicos. O BRICS representa uma parte enorme do mundo, com a economia chinesa sendo a maior do bloco.
Dessa forma, a decisão mais estratégica para o Brasil é não escolher um lado. O Brasil é a maior economia da América Latina, o que aumenta bastante seu valor geopolítico. O ideal seria manter negócios com o mercado chinês e estadunidense. Porém, essa posição apresenta desafios, como se tornar dependente ao extremo do capital chinesa e sofrer pressão política dos EUA, pois se a tensão aumenta, a neutralidade se torna impossível.
A disputa se tornou um assunto tão atual e discutido em debates que, recentemente, virou palco para um novo quadro divulgado no Fantástico. “Entre dois Mundos” foi criado pelo programa como uma forma mais dinâmica de mostrar como essa rivalidade pode moldar o cenário geopolítico atual. Apresentada pelo jornalista Felipe Santana, a série promete mostrar o desenvolvimento das duas grandes potências.
Diante desse cenário, outro fator que chama atenção é de como essa rivalidade torna a convivência mais delicada entre os países. Partindo do ponto de vista geopolítico, Rinaldi acredita que essas disputas podem contribuir para desestabilizar os mercados financeiros, podendo gerar uma grande crise econômica global. “Para países em desenvolvimento, o desafio nesse cenário é preservar o acesso a ambos os mercados e evitar os custos de alinhamento a um deles”, destaca o professor.