A cada dia que passa, a Operação Compliance Zero da Polícia Federal (PF), que investiga fraudes do banco Master – já liquidado – traz mais revelações sobre o caso. Iniciada em novembro de 2025, a ação apura crimes como gestão fraudulenta, organização criminosa, lavagem de dinheiro e venda de carteiras de crédito falsas. O principal alvo da busca é o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, mas os rombos da instituição começaram bem antes do ano passado.
O banco começou como corretora Máxima, existente desde a década de 1970, e desde seu início já passava por problemas. A empresa não entregava as demonstrações financeiras solicitadas pelo Banco Central do Brasil (BC), ou quando o fazia, os documentos vinham com informações faltantes. Esses relatórios mostram a real situação financeira do órgão no período solicitado. Segundo o ex-analista do BC e professor de Ciências Econômicas da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), André Accorsi, a autarquia solicita essas informações a cada trimestre.
“É obrigatório que as instituições financeiras entreguem as demonstrações financeiras por meio eletrônico. Para as sociedades anônimas, é necessário que elas publiquem essas informações a cada trimestre. Muitos meses, esses relatórios não foram entregues; ou foram entregues com informações faltantes, que não faziam o menor sentido. Tudo isso era comunicado à instituição, mas ela eventualmente entregava, voltava a vir com erros e assim por diante”, explica Accorsi.
Apesar das complicações já existentes da corretora, na década de 1990 foi autorizado que ela virasse o Banco Máxima – que seguiu com dificuldades até por volta de 2010. O professor acrescenta que toda abertura, fusão, ou incorporação de bancos passa pelo BC. Formado em Economia, Daniel Vorcaro conseguiu a autorização para virar banqueiro em 2019, e no mesmo ano fez o aporte mínimo para adquirir o banco, que virou Master.
“Para você ter o direito de abrir uma instituição financeira, a gente fala que as pessoas precisavam ter CIC: o primeiro C é capital. Então você precisa ter um capital mínimo adequado às regras internacionais que são baseadas. O I é a idoneidade. Agora o problema é: como é que a gente apura se uma pessoa é idónea ou não? Você pode ter um monte de processos contra você, mas se ainda não foi condenado, você é idóneo. E o terceiro C é competência. Como é que eu vou atestar minha competência se eu quero abrir um banco? É a minha experiência de vida”, completa Accorsi.
A instituição cresceu de forma acelerada e arriscada desde que foi assumida por Vorcaro. O banqueiro realizava uma prática chamada pelo mercado de compra e turnaround de empresas distress, isto é: ele comprava outras instituições que estavam falidas a um preço muito baixo, e as reestruturava a fim de obter lucro. “Essas empresas, por terem dificuldades, estão com um preço muito baixo. Então, ele [Daniel Vorcaro] compra as ações da empresa. Quando ele adquiriu o Banco Máxima, depois ele adquiriu o Will Bank e o Banco Voiter usando os CDB 's que pagavam 140% do CDI, muito acima do que o mercado normalmente paga”, explica Accorsi.
O Certificado de Depósito Bancário (CDB) é um investimento em que você empresta seu dinheiro para o banco em troca de juros protegidos pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC). O FGC, por sua vez, é uma garantia do Banco Central de que se o banco que você investe quebrar, o fundo te devolve até R$250 mil por cadastro de pessoa física (CPF) ou cadastro nacional de pessoa jurídica (CNPJ). Nessa lógica, o Certificado de Depósito Interno (CDI) funciona como uma taxa de referência do mercado que define quanto esse empréstimo vai render. Em média, os rendimentos de CDI nos bancos rendem até 110%, e a promessa do Master era muito acima do mercado. O discurso vendido pelo banco era justamente de que se as instituições falissem, o FGC restituiria pelo menos uma parte do valor investido.
No entanto, em setembro de 2025 a estratégia do banco foi freada quando o Banco Central negou a fusão entre o Master e o Banco Regional de Brasília (BRB). Dois meses depois, o BC decretou a liquidação extrajudicial do banco de Vorcaro, ou seja, as atividades do banco foram encerradas de maneira forçada pela autarquia. A instituição foi liquidada por “grave crise de liquidez, insolvência irrecuperável e constatação de fraudes estruturais”.
A Operação Compliance Zero apontou manipulação contábil no Master com "ativos podres" – isto é, créditos que os investidores nunca receberiam — para inflar o balanço do banco. Vorcaro está preso preventivamente desde o dia 4 de março, atualmente na Superintendência da PF, em Brasília, sob suspeita de liderar um esquema de fraudes financeiras bilionárias, lavagem de dinheiro e corrupção.