“Off Campus" aposta em mudanças e estreia com 95% de aprovação

A nova produção do Prime Video conquista o público ao modernizar conflitos, aprofundar relações dos personagens e distribuir o foco entre diferentes arcos narrativos
por
Livia Vilela
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20/05/2026 - 12h

Na última quarta-feira (13), a Prime Video lançou os 8 episódios da primeira temporada de Off Campus (Amores Improváveis), série baseada nos livros de Elle Kennedy. A nova aposta do streaming rapidamente se tornou um fenômeno de audiência, alcançando o primeiro lugar da plataforma e estreando com 95% de aprovação no Rotten Tomatoes, um dos sites de críticas mais populares do mundo.

O enredo do livro e da primeira temporada da série acompanha Hannah Wells (Ella Bright), uma estudante universitária apaixonada por música, e Garrett Graham (Belmont Cameli), capitão do time de hóquei da Briar University que corre o risco de ficar fora do time pela sua reprovação na matéria de ética. Ao perceber que precisa da ajuda de Hannah, que se destacou na prova e a princípio recusa estudar com ele, Garrett propõe um acordo: em troca das aulas particulares, fingir ser seu namorado para chamar a atenção de Justin, garoto por quem ela é apaixonada e não consegue se aproximar. Mas, o que começa como uma simples troca de favores evolui para uma relação mais complexa.  

É comum que séries de romance voltadas ao público jovem recorram ao recurso do triângulo amoroso. Em Off Campus, embora existam outros interesses românticos apresentados ao longo da trama, a narrativa não coloca em dúvida o vínculo central entre os protagonistas. Ainda que a série introduza Justin Kohl como interesse inicial de Hannah e explore, de maneira pontual, os sentimentos de John Logan pela namorada do melhor amigo, esses elementos funcionam mais como uma menção ao enredo dos livros do que como um conflito central. A química entre Ella Bright e Belmont Cameli sustenta o desenvolvimento do casal sem abrir espaço significativo para indecisões típicas do gênero.

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Ella Bright e Belmont Cameli como Hannah Wells e Garret Graham em momento decisivo no sétimo episódio de Off Campus Foto: Divulgação/Instagram @offcampusonprime

Desapegando de uma das estruturas mais comuns das séries românticas, a produção também se destaca ao não concentrar sua narrativa em apenas um casal por vez. Enquanto muitas obras, como Bridgerton, organizam suas temporadas em torno de um único romance central, Off Campus optou por desenvolver mais de uma história por vez. A escolha permite que relações que, nos livros, só ganhariam protagonismo em volumes posteriores comecem a ser construídas desde a primeira temporada. 


Os casais dos quatro livros são apresentados enquanto todos ainda estão na faculdade, faz todo o sentido que uma história de amor esteja se desenvolvendo enquanto outra já está começando. Essa abordagem contribui para um senso de continuidade mais verossímil, em que diferentes histórias se cruzam e evoluem ao mesmo tempo. A estratégia funciona como um gancho narrativo eficiente, deixando caminhos abertos para as próximas temporadas e mantendo o interesse do público.

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Mika Abdalla e Stephen Kalyn como Allie Hayes e Dean Di Laurentis em sua primeira cena como casal em potencial em Off Campus Foto: Divulgação/ Instagram @offcampusonprime

Ao promover mudanças estruturais na narrativa, a série constrói um caminho próprio e, em diversos momentos, mais eficiente. Uma das alterações mais perceptíveis para quem leu os livros está na reformulação do personagem Justin Kohl (Joshua Heuston), figura central para o desenvolvimento da trama e ponto de partida do acordo entre Hannah e Garrett. Tanto no livro quanto na série, a protagonista é apaixonada por Justin e decide fingir um relacionamento com Garrett em troca de ajudá-lo a estudar para uma prova de ética.


A diferença, no entanto, está na construção desse personagem. Se, na obra original, Justin é retratado como um jogador de futebol americano superficial e com pouco desenvolvimento, na adaptação ele é apresentado como um músico ainda superficial, mas inserido em um contexto que dialoga melhor com a trajetória de Hannah. Como estudante de música e profundamente ligada à arte, a aproximação da protagonista com alguém do mesmo meio se torna mais coerente. A série também incorpora ao personagem traços associados ao estereótipo do artista pretensioso e incompreendido, o que contribui para tornar mais consistente o distanciamento gradual de Hannah e o enfraquecimento de seu interesse por ele.

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Jalen Thomas Brooks, Belmont Cameli, Ella Bright, Stephen Kalyn e Antonio Cipriano como John Tucker, Garrett Graham, Hannah Wells, Dean Di Laurentis e John Logan em Off Campus Foto: Liane Hentscher/Prime


No campo das relações entre o grupo de protagonistas, a adaptação também se destaca. Diferentemente dos livros, em que as amizades são frequentemente afirmadas diretamente por meio das falas dos personagens, a série aposta em uma construção mais orgânica, baseada na dinâmica entre os atores e na química do elenco. Relações como as de Hannah e Allie (Mika Abdalla), Garrett e Logan (Antonio Cipriano), e Dean (Stephen Kalyn)e Beau (Khobe Clarke) ganham mais consistência.

No caso de Hannah e Allie, por exemplo, a proximidade que nos livros se apoia sobretudo no fato de serem colegas de quarto passa a ser melhor desenvolvida na série. Os diálogos e interações entre as duas reforçam uma conexão mais convincente, evidenciando uma amizade construída para além da convivência cotidiana. Já entre Garrett e Logan, a diferença é ainda mais evidente: enquanto nos livros a relação é reforçada quase exclusivamente por declarações de que são “melhores amigos”, a adaptação se preocupa em desenvolver esse vínculo no próprio roteiro, com diálogos que traduzem intimidade, apoio e conflito.


A série também acerta ao integrar a amizade ao desenvolvimento dramático do protagonista. À medida que Garrett enfrenta questões pessoais e seu relacionamento amoroso com Hannah se torna instável, sua relação com Logan também é impactada, evidenciando o peso dessas conexões em sua trajetória. Esse tipo de escolha no roteiro evidencia que os laços de amizade têm relevância comparável aos romances.

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Ella Bright e Mika Abdalla como Hannah Wells e Allie Hayes no primeiro episódio de Off Campus Foto: Divulgação/Instagram @offcampusonprime

Um dos exemplos mais estratégicos dessa abordagem está na relação entre Dean Di Laurentis e Beau Maxwell. Nos livros, essa dinâmica ganha importância apenas no terceiro volume, mas a série antecipa sua construção já na primeira temporada. A escolha não apenas fortalece a coerência do universo narrativo, como também prepara o terreno para arcos futuros. Com a naturalidade das atuações, a amizade entre os personagens se estabelece de forma consistente, o que tende a potencializar o impacto de seus desdobramentos nas próximas temporadas.

Outro ponto em que a série se destaca é na reformulação de seu conflito central, especialmente no arco final dos protagonistas. Sem recorrer a grandes reviravoltas ou à lógica tradicional de triângulos amorosos, a narrativa aposta em um desenvolvimento mais emocional e psicológico, aprofundando questões familiares e traumas pessoais do Garrett. A série atualiza o conflito final, mudando toda a dinâmica do chamado término do terceiro ato, construindo um protagonista mais vulnerável, complexo e coerente com o contexto contemporâneo. Suas decisões passam a fazer mais sentido dentro da narrativa e de uma produção lançada em 2026.

Em meio a um cenário em que leitores frequentemente cobram fidelidade quase integral às obras originais, Off Campus: Amores Improváveis demonstra que mudanças bem pensadas não apenas funcionam, como podem enriquecer a narrativa. Ainda que exista uma expectativa consolidada de que os livros ofereçam maior profundidade no desenvolvimento de personagens, a série evidencia o potencial do audiovisual para construir arcos consistentes e personagens complexos a partir de outras estratégias narrativas. No fim, a produção se afirma como uma releitura que amplia possibilidades e atualiza temas para que façam mais sentido com o contexto atual.

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