Sendo o esporte mais praticado do mundo, a importância do futebol vai além da esportividade. Sua relevância envolve também questões sociais. Nesse contexto, o esporte bretão pode se tornar um espaço de ressocialização para atletas e treinadores que já cometeram crimes, com oportunidades de recomeço.
Entre os casos mais conhecidos estão o treinador Cuca, o ex-ponta Robinho e o goleiro Bruno Fernandes. Os três foram condenados por crimes hediondos, sendo os dois primeiros por estupro coletivo e o último por assassinato e sequestro.
Cuca foi o único condenado que não pagou sua pena. Em 1987, o treinador, enquanto jogador do Grêmio, foi acusado de participar de uma violência sexual coletiva na Suíça, durante uma excursão do time gaúcho. Ele e outros jogadores da equipe foram condenados, em 1989, a quinze meses de prisão em regime aberto. Cuca seguiu atuando e posteriormente se tornou treinador.
Bruno ficou preso por 8 anos e voltou ao futebol após sair do presídio. Ele foi condenado a mais de 22 anos de prisão pelo assassinato e sequestro de sua ex-namorada, Eliza Samudio, em 2010. Após passagens por clubes menores e amadores, o goleiro atuou na Copa do Brasil de 2026, pelo Vasco do Acre.
Já Robinho esteve envolvido em um estupro coletivo, junto a 5 amigos, contra uma mulher em uma balada, em 2013, enquanto jogador do Milan. Ele seguiu atuando após revelado o escândalo. Quando foi anunciado pelo Santos em 2020, teve a carreira interrompida após pressões de torcedores que resultaram no cancelamento de seu contrato.
Casos como estes alimentam debates sobre o futebol ser espaço indireto de ressocialização de criminosos. Em entrevista, o advogado esportivo Andrei Kampff afirmou: “Como profissional, entendo que a ressocialização é um princípio constitucional fundamental, mas o esporte profissional possui uma função social pedagógica e um compromisso inegociável com a proteção dos Direitos Humanos. Por isso, a reinserção deve ser ponderada com o papel do atleta como ídolo e o impacto que essa exposição causa nas vítimas e na sociedade”. Kampff também pontuou que em momentos de euforia, como o gol, torcedores podem se esquecer dos ocorridos criminais fora das quatro linhas. Ainda assim, ressalta que “ a mancha na biografia e as barreiras institucionais tendem a ser permanentes na era da transparência e da responsabilidade social”.
Por outro lado, em depoimento, o membro da torcida organizada Mancha Verde, João Pedro Mor, defende que em caso de crimes hediondos, não cabe essa ressocialização. “ O futebol é um espaço cultural, que movimenta milhões de pessoas, então em crimes como estupro e assassinato não é possível separar a pessoa do atleta”, afirmou o torcedor. Mor, como palmeirense, também cita o caso do atleta Dudu, acusado de agressão à esposa enquanto atleta do Alviverde. “ Mesmo com essa acusação, a torcida tem ele como ídolo gigante. Para a instituição, muitas vezes esse tipo de situação acaba não recebendo tanta repercussão, o que também é algo a ser discutido. Quando surgem escândalos considerados maiores, cabe à instituição tomar uma medida e retirar o atleta do elenco”, completou. Na visão do torcedor, varia muito de caso a caso, sendo necessário avaliar todo o processo para decidir sobre uma volta, ou não, para as quatro linhas.
Além das questões legais, o debate também passa pela percepção dos torcedores, que pressionam clubes diante de casos envolvendo crimes hediondos. Além do já citado exemplo da saída de Robinho no Santos, Cuca pediu demissão do Corinthians em 2023 após pressão de torcedores contrários ao ocorrido em 1987.