Banzeiro Òkòtó e a decolonialidade literária

Eliane Brum traz uma leitura de não-ficção que viaja para as profundezas do ecossistema amazônico
por
Thayná Patricia Alves
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19/09/2025 - 12h

 

Em "Banzeiro Òkòtó: Uma Viagem à Amazônia Centro do Mundo", Eliane Brum mergulha fundo na complexa realidade da Amazônia brasileira,  em um livro-reportagem intenso e transformador.  

Desde o início, "Banzeiro Òkòtó" surpreende ao reforçar uma perspectiva decolonial, inclusive através do uso do pronome neutro, uma escolha pensada para dar voz a uma nova forma de narrativa, que se afasta das opressões sistemáticas, em que a lei é ditada por uma minoria mais “forte”, majoritariamente comporta por homens brancos cisgêneros.  

A história começa quando, em 2017, Eliane Brum decide mudar-se para Altamira, uma cidade paraense situada próxima ao Rio Xingu e à Floresta Amazônica. Ela abandona uma vida confortável em São Paulo para enfrentar os desafios de viver em uma das cidades mais violentas do Brasil desde que a hidrelétrica de Belo Monte foi implantada. 

Ela relata que já havia visitado a floresta inúmeras vezes em outros trabalhos, mas após conhecer diversos países ao redor do mundo, concluiu que a floresta era seu verdadeiro lar. 

Brum escreve a partir de sua perspectiva de mulher branca - sempre enfatizando sua posição social -, mas enaltece a população da região, reconhecendo a importância de sua cultura e vivência dos “povos-floresta” - indígenas, ribeirinhos, beiradeiros e quilombolas. Ela trata o ecossistema da Amazônia como uma união entre os seres que ali habitam, enfatizando a conexão entre natureza, a cultura, e os residentes locais.  

Um dos aspectos mais envolventes de "Banzeiro Òkòtó" é a personificação da natureza. Há uma descrição dos exploradores brancos como violadores sádicos de um corpo feminino, e a Amazônia como uma mulher constantemente violentada por estes desde os tempos da ditadura militar, particularmente sob o governo de Emílio Garrastazu Médici, quando “em nome do progresso” foi construída a Transamazônica, uma rodovia federal transversal de grande porte que não foi finalizada “por sua megalomania” - como descreve a autora. 

A narrativa nos atrai para dentro da história. A autora perpassa por questões políticas, econômicas e sociais de forma e apresenta  o contexto como uma “quase-ficção” apoiada na realidade. Com uma linguagem de simples compreensão, mas carregada de significados profundos, Eliane Brum conta fatos de uma maneira pessoal, cativante, muitas vezes triste e impactante, que torna tangíveis e acessíveis as questões abordadas.  

Está presente também na obra uma crítica ao conservadorismo e ao neoliberalismo crescentes, exemplificados  através das eleições de Donald Trump e Jair Messias Bolsonaro em 2018, com destaque para como a inclinação política pode contribuir na devastação da floresta e das populações locais.  

Como um diário, Eliane Brum transmite as sensações e reflexões que teve durante o período em que morou em Altamira, escancarando os preconceitos e o impacto devastador do desmatamento e da exploração ilegal de recursos naturais na Amazônia. 

Brum não apenas informa, mas também provoca uma reflexão intensa sobre a relação do ser humano com a natureza e com os outros seres humanos. A autora discute como a destruição da Amazônia afeta o clima global e a importância da floresta para o equilíbrio ambiental do planeta. 

A reflexão que traz o livro é sobre a responsabilidade coletiva na preservação da floresta e no respeito aos direitos dos povos indígenas. Sua obra é um chamado para a conscientização, ao mesmo tempo em que faz crescer dentro de nós um incômodo e impotência diante de uma problemática que vai muito além de qualquer ação individual.  

A explicação para o título vem ao final da leitura: Banzeiro, como Eliane explica no início, é a região onde um rio é mais bravo, segundo os povos do Xingu. “É onde com sorte se pode passar, com azar não. É um lugar de perigo entre o ‘de onde se veio e o aonde se quer chegar’”. 

Já o termo Òkòtó, na língua iorubá, é “um caracol, uma concha cônica que contém uma história ossificada que se move em espiral a partir de uma base de pilão… Amazônia Centro do Mundo é banzeiro em transfiguração para òkòtó”.  

Assim, "Banzeiro Òkòtó" não é apenas uma leitura, mas uma experiência transformadora. Nele, Eliane Brum revela as ligações diretas entre as desigualdades estruturais enraizadas no gênero, na raça, na classe e até na espécie, além do sofrimento que o capitalismo e o colapso climático causam para aqueles que são menos responsáveis ​​por eles.