Um dia após o dia mundial do grafite, nasceu um novo espaço cultural no centro de São Paulo. No dia 28 de março, o NUCLE1 abriu suas portas para o público com a exposição “Ato Inaugural – A Nova Órbita”, uma mostra colaborativa com diversos artistas. Durante todo o mês de abril, todos os andares do edifício serão ocupados por obras de artistas de múltiplas linguagens.
O prédio, de 8 andares e 1500 m², nasceu de uma vocação colaborativa inspirada em referências históricas como a Bauhaus e o The Factory, de Andy Warhol. O projeto surgiu a partir da ideia do artista e placemaker Marcos Vinicius de Paula, conhecido como Enivo, e do advogado e corretor imobiliário Domingos Almeida de Miranda. Juntos, transformaram um imóvel vazio em um espaço de criação e exposição de artes. Como declara Enivo, “Ano passado, eu estava viajando na Europa, realizando exposições. Aí o seu Domingos, me ligou e me mostrou um vídeo da entrada de um prédio. Quando chegar eu vejo. Não estava pensando nisso que se tornou hoje. Estava tranquilo com meu ateliê. Mas fui ver. E, quando cheguei, fiquei impressionado com o espaço. Ele queria que fosse usado para cultura desde que comprou o prédio, toda vez que entrava, pensava em mim. Pensava em arte” Após a inauguração, o centro cultural passou a ser chamado de Edifício Domingos, em reconhecimento a quem possibilitou a iniciativa.
O prédio, que ficou desativado por seis anos, passou por uma série de reformas feitas de maneira independente, com a ajuda de pessoas próximas ao artista, que relata, “Peguei o prédio em dezembro do ano passado. Fiquei um mês elaborando, com alguns amigos, o que iríamos fazer. Em janeiro, começamos a fase da limpeza e reforma, foram dois meses só de arrumação.” Ele ainda explica que o processo foi um ritual de reconhecimento entre as pessoas e o espaço, que, após três meses de trabalho árduo, já estava apto a receber visitantes, um verdadeiro “milagre”, como define Enivo.
Hoje, o Centro Cultural Integrado reúne mais de 300 obras de diversos artistas, incluindo quadros, fotografias, esculturas, gravuras, grafites e instalações, entre outras linguagens. Segundo o placemaker, a existência do local é significativa, já que há poucos centros dedicados à arte urbana no centro de São Paulo. “É importante porque vira um polo cultural, onde todas as zonas vão se conectar. Na inauguração, por exemplo, vieram mais de 3 mil pessoas, gente da Bielorrússia, da Alemanha, dos Estados Unidos. Foi algo acima da nossa expectativa. Agora, recebemos centenas de pessoas por dia”, afirma.
Um mês após a inauguração, a plataforma cultural tem desenvolvido projetos como cursos de artes urbanas, aquarela e escultura, além de atividades ligadas às artes do corpo, como dança, circo e moda, e visitas monitoradas pelo edifício. Atualmente, as atividades são pagas. “Nós mantemos um gigante, é um alto custo. Então, precisamos que as atividades gerem receita para continuarmos existindo. Mas pretendemos torná-las gratuitas no futuro, por meio de parcerias e incentivos públicos”, afirma Enivo.
Ainda em processo de consolidação, o espaço carrega não apenas a ambição de se tornar um polo cultural, mas também o peso do esforço coletivo que o tornou possível. Se a proposta é inaugurar uma nova órbita para a arte urbana, ela também passa por transformações pessoais. Vinicius vê no projeto uma realização que vai além do sucesso individual. “É mais importante do que vender quadros ou viajar o mundo. É uma conquista coletiva, construída com muito trabalho. Quando eu era criança, já imaginava algo assim”, afirma.
O artista também destaca a responsabilidade de manter o espaço ativo e acessível a outros criadores. “Eu pensava em quantos artistas não tinham ateliê, não tinham onde produzir. De certa forma, esse lugar nasceu desse pensamento”, diz. Diante do resultado, a dimensão do projeto ainda o surpreende: “Tem dias em que eu me pego emocionado, até chorando, vendo o espaço cheio, com crianças desenhando. Parece até algo criado por inteligência artificial, mas é uma realidade que a gente imaginou e conseguiu construir”.