Bad Bunny usa da música para expressar luta de Porto Rico

Último álbum do cantor, "Debí Tirar Más Fotos", mistura ritmo clássico porto-riquenho com manifestações políticas
por
Davi Madi
|
12/03/2026 - 12h

 

Com o lançamento de seu último disco, “Debí Tirar Más Fotos”, vencedor do Grammy de Melhor Álbum do Ano em 2026, em janeiro do ano passado, o rapper Benito Martinez, mais conhecido como Bad Bunny, se tornou referência mundial na luta política contra a violência aos imigrantes nos EUA e a gentrificação na América Latina.

O disco, que mistura reggaeton com estilo clássico de salsa porto-riquenho, sua terra natal, é repleto de referências à cultura e à história de seu país, assim como à luta que o povo latino americano passa para defender a permanência em seu território e valorização de seu modo de vida. No entanto, a presença do cantor em manifestações políticas não é de agora. 

Bad Bunny sempre foi enfático em seu amor por Porto Rico e seus ideais de defesa do próprio povo, contrário aos processos políticos promovidos pelo governo de Donald Trump, que enrijeceram as políticas imigratórias nos EUA, país que ultrapassa os 68 milhões de imigrantes latino americanos em seu território. As manifestações do cantor o colocaram em conflito contra o governo estadunidense, principalmente após seus discursos durante a premiação do Grammy deste ano.

Bad Bunny em seu discurso de agradecimento após vencer o Grammy de Melhor Álbum de Música Urbana, em 2026, com seu disco "Debí Tirar Más Fotos"
Bad Bunny venceu Grammy de Álbum do Ano em 2026 por “Debí Tirar Más Fotos”, primeiro disco inteiro em espanhol a levar a categoria - Reprodução: Youtube: GRAMMYs

Graças ao sucesso de seu último disco, Bad Bunny foi anunciado como atração principal do Show do Intervalo do SuperBowl, tradicional palco de grande audiência da TV estadunidense. Após a performance, o presidente Donald Trump se manifestou em suas redes sociais criticando o evento protagonizado pelo cantor. “Um dos piores shows de todos os tempos! Não faz sentido nenhum, é uma afronta à grandeza da América”, afirmou. Em seguida, disparou: “Ninguém entende uma palavra do que esse cara está dizendo, e a dança é repugnante”.

Mesmo incisivo em seus discursos, o espaço que Benito melhor aproveita para se expressar politicamente é em suas músicas. Em seu álbum mais recente, o cantor dedica a temática ao amor por sua nação e remarca a importância da luta contra o apagamento histórico de Porto Rico.

A segunda canção com mais reproduções do disco nas plataformas digitais, “Baile Inolvidable”, traz ao ritmo instrumentos clássicos da salsa porto-riquenha, como conga, trompete e saxofone, com o intuito de resgatar os ritmos clássicos da ilha. O refrão, cantado no mesmo gênero, pode ser interpretado como uma declaração de amor à cultura de Porto Rico e à importância dela na vida de Benito, que rima “Não, não posso te esquecer. Não, não posso te apagar. Você me ensinou a amar. Você me ensinou a dançar”.

Outra canção repleta de simbolismos históricos é “Lo Que Le Pasó a Hawaii”. Benito, através de um ritmo lento e melódico, fala sobre o medo que o apagamento das tradições porto-riquenhas causa nos moradores da ilha. Em comparação com a história do Havaí, que se tornou território anexado pelos EUA em 1898, Bad Bunny usa do refrão para reforçar a importância da luta do povo em manter sua cultura viva: “Não soltem a bandeira nem esqueçam do lelolai (canto tradicional folclórico de Porto Rico), porque não quero que façam contigo o que aconteceu com o Havai”.

Bad Bunny em videoclipe de sua música "Nuevayol", no topo da Estátua da Liberdade, em Nova Iorque, com uma bandeira de Porto Rico hasteada sobre o monumento.
Bad Bunny em clipe de “Nuevayol” - Reprodução: Youtube: Bad Bunny

A mesma influência política ocorre na última canção do álbum, “La Mudanza”, em que Bad Bunny trás destaque à história da própria vida, recitando nos primeiros versos como seus pais se conheceram e o criaram. A canção é dedicada ao orgulho de Benito por ter nascido em Porto Rico, e como tem direito de viver neste território, apesar das restritas políticas de permanência do povo latino em território estadunidense. No poderoso trecho final, Bad Bunny encerra o disco com ritmo de salsa intenso e cantando: “Daqui ninguém me tira, daqui eu não me movo. Digam que está é a minha casa, onde nasceu meu avô. Eu sou de Porto Rico, porra”.

Apesar da ascensão do cantor aos holofotes no último ano, graças a suas críticas e pautas presentes em “Debí Tirar Más Fotos”, suas manifestações também estiveram presentes em outras de suas obras. Em “Un Verano Sin Ti”, álbum de reggaeton e rap lançado em 2022, Benito aproveitou seu espaço para satirizar a forma como a cultura latina, subjetivizada historicamente pelos EUA, se tornaria um estilo de desejo. Na canção “El Apagón”, o cantor rima  “Agora todos querem ser latinos, mas lhes falta tempero, bateria e reggaeton”. 

A música também carrega críticas ao governo e infraestrutura de Porto Rico, que sofre de constantes quedas de energia desde o impacto do furacão Maria, em 2017. Ao longo da faixa, Bad Bunny rima: “Maldito seja, outro apagão. Porto Rico é do caralho”, em tom de ironia. Desde o ocorrido, que deixou a ilha em apagão durante semanas, o sistema elétrico foi entregue à empresa privada “Luma Energy”, em 2021. No entanto, as reclamações dos porto-riquenhos se mantiveram, com outras ocorrências de falta de energia, que chegam a durar meses.

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