O crescimento dos casos de violência contra a mulher no Brasil tem acendido um alerta não apenas para a segurança feminina, mas também para os efeitos diretos na vida de adolescentes. Jovens expostos a esse cenário, seja como vítimas indiretas ou diretas, enfrentam consequências emocionais, sociais e educacionais a longo prazo.
Em 2025, a pesquisa DataSenado detectou que cerca de 3,7 milhões de mulheres brasileiras sofreram algum tipo de violência doméstica ou familiar. Dados do estudo “Elas Vivem: a urgência da vida”, da Rede Observatórios da Segurança indicam que casos de agressão contra mulheres são registrados diariamente em todo o país. No seu auge, 1.568 casos de feminicídio, o maior número da última década, sendo que a maioria ocorreu dentro de casa, cometida por parceiros ou ex-companheiros. Em relação aos crimes sexuais, pesquisa do IPEA conduzida em 2023 aponta cerca de 822 mil casos de estupro por ano no Brasil.
“Quando a gente tem esse nível de violência crescendo bruscamente, tem impactos em todas as áreas, saúde, comportamento e hipervigilância, por exemplo” afirma a psicóloga colaboradora da FMUSP, Monik Pauli Augusto, discutindo o impacto direto desse cenário na vida de adolescentes. Os efeitos da violência vão além do momento do crime, a exposição constante a notícias de violência, somada a experiências cotidianas de assédio, tem alterado comportamentos desde cedo. Entre meninas, é cada vez mais comum evitar sair sozinhas, mudar rotas, deixar de frequentar determinados espaços e até modificar a forma de se vestir por medo, impactando sua autonomia.
O medo e a insegurança interferem na forma como os jovens se relacionam, dificultando a criação de vínculos de confiança. Para a psicóloga, “[...] as meninas têm medo e acabam evitando [certas relações sociais] e eles [meninos adolescentes] acabam tendo a reação de ir ao extremo, que é o red pill [...]”. Este movimento está se tornando cada vez mais popular entre adolescentes, disseminando e normalizando ideais misóginos e regressivos sobre o papel da mulher. Uma pesquisa conduzida pela King's College de Londres que engloba 29 países, incluindo o Brasil, mostra que homens da geração z, os nascidos entre 1997 e 2012, são duas vezes mais propensos a acreditar que mulheres devem se submeter a seus maridos do que os Baby Boomers (1946-1964), assim, relacionamentos amorosos podem se tornar marcados por ciúmes excessivos, controle e comportamentos abusivos.
Além dos espaços físicos, a violência também se expande no ambiente digital. Casos de exposição íntima sem consentimento, chantagem, cyberbullying e controle em relacionamentos têm se tornado frequentes entre jovens. Esse cenário reforça a importância de legislações como o Estatuto da Criança e do Adolescente e os princípios do chamado ECA Digital, que reconhecem a necessidade de proteção integral também nas redes sociais.
O Brasil possui legislações no enfrentamento à violência de gênero, como a Lei Maria da Penha, que estabelece mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica contra a mulher, incluindo medidas protetivas de urgência, a Lei do Feminicídio, que tipifica o assassinato de mulheres por razões de gênero como crime hediondo. No entanto, o aumento dos casos indica que a existência das leis, por si só, não tem sido suficiente. Especialistas defendem que o enfrentamento do problema exige mais do que punição, sendo necessário investir em educação, prevenção e conscientização desde cedo, “Nós mulheres precisamos nos unir, formar redes de apoio”, diz Pauli.
A educação, tanto em escolas quanto dentro de casa, políticas públicas e o fortalecimento de canais de denúncia têm papel fundamental na remediação desse problema. “Esse papel pode ser compreendido em três níveis: repressivo, protetivo e preventivo” , diz a socióloga Julia Garcia, a respeito do encargo dessas instituições.
Para Garcia, o repressivo é composto por mecanismos de segurança e leis, que precisam ser aplicadas de forma eficaz, enquanto o protetivo consiste no acolhimento de vítimas. Mas a prevenção é onde a escola tem papel central, “por meio da educação é possível transformar a socialização”, diz Garcia. Dessa forma é possível olhar para a raiz do problema e tentar encerrar um ciclo de violência milenar.